sábado, 4 de maio de 2013

Sobre o ofício do tradutor

Do blog Esboços e Rascunhos,

Traduzir não é fácil. Quem diz isso não sou eu, mas um dos mais experientes tradutores brasileiros: Paulo Henriques de Britto (tradutor de Dickens, Ian McEwan, Henry James, Philip Roth, Swift, Faulkner, etc.). Portanto, a fim de desfazer a ideia equivocada de que basta saber uma segunda língua e ter algum tempo livre para se tornar um tradutor, recomendo, inicialmente, a leitura de três livros relativos ao ofício:

  1. Paulo Henriques Britto, A Tradução Literária. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012. (obra da qual tirei a citação que abre este texto)
  2. Paulo Rónai, Escola de Tradutores. Rio de Janeiro, José Olympio, 2012. (edições anteriores da Nova Fronteira)
  3. Paulo Rónai, A Tradução Vivida. Rio de Janeiro, José Olympio, 2012. (edições anteriores da Nova Fronteira)
Esses três livros são de caráter introdutório e têm como principal virtude o fato de terem sido escritos por tradutores de verdade, não meros teóricos. Praticamente tudo o que dizem está enraizado em sua experiência e em sua erudição. Os livros do Rónai impressionam pela leveza, pela fluidez da linguagem, pela clareza da exposição, sobretudo quando se leva em conta o fato de o autor ser um húngaro que aprendeu português já depois de adulto. São verdadeiros clássicos dos estudos de tradução em língua portuguesa, pioneiros neste campo de estudos no Brasil. O livro do Paulo Henriques de Britto acabou de ser lançado, o que significa já ser uma obra da maturidade, em que se somam suas experiências de escritor, poeta, tradutor e professor de teoria da tradução. Esses livros já são suficientes para desfazer a ideia de que basta conhecer outra língua para se pôr a traduzir.
Além destes, para que cada etapa do processo tradutório seja feito de modo consciente, é igualmente recomendável a leitura de:
4. Brenno Silveira, A Arte de Traduzir. São Paulo, Unesp/Melhoramentos, 2004.
Este livro pode ser considerado um verdadeiro manual preventivo de problemas. Phrasal verbs, falsos cognatos, expressões idiomáticas, tudo isso é abordado de modo a chamar a atenção para o que requer atenção!
Se, por acaso, você tomar gosto pela discussão mais teórica, vale a pena ler:
5. Umberto Eco, Quase a Mesma Coisa. Rio de Janeiro/São Paulo, Record, 2007.
Umberto Eco é semioticista (que não deixa de ser uma espécie de linguista), tradutor e autor traduzido. E todas essas perspectivas se mostram nessa obra.
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Para além de conhecer a língua estrangeira, é imprescindível um domínio da língua portuguesa. E domínio implica não só a capacidade de utilizar a língua com eficiência, mas também a capacidade de analisar suas estruturas fonéticas, morfológicas, sintáticas e semânticas; compreender seus mecanismos de funcionamento, seu potencial expressivo, etc. Isso, (in)felizmente, requer trabalho e requer estudo. Cito outros três livros, muito úteis para compreender a que me refiro:
6. Othon Moacyr Garcia, Comunicação em Prosa Moderna. São Paulo, FGV, 2010. (várias edições anteriores)
7. Gladstone Chaves de Melo, Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Livraria Editora Padrão, 1976. (Esgotado, encontrável apenas em sebos. Mesmo se for caro, vale o quanto custa!)
8. Adriano da Gama Kury, Novas Lições de Análise Sintática. São Paulo, Ática, 2003.
Os três são livros de estudo que requerem certa perseverança e prática. O do Kury e o do Othon Garcia têm exercícios de fixação. Não desdenhem do livro de análise sintática; para quem almeja ser tradutor saber sintaxe é ter em mãos uma ferramenta de trabalho.
Quanto às obras de referência, dou toda ênfase a:
9. Agenor Soares dos Santos, Guia Prático da Tradução Inglesa. São Paulo, Elsevier, 2007.
Apesar do título, trata-se de um dicionário dedicado a falsos cognatos e outras armadilhas da língua inglesa. Ao final, dou uma lista de obras complementares que podem ser igualmente úteis.
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Antonio Fernando Borges escreveu um livro chamado Não Perca a Prosa, que contém lições preciosas. Entre outras, num de seus exercícios ele nos manda escolher determinados autores e imitá-los. Ele sugere, por exemplo, que se leia uma série de crônicas de Nélson Rodrigues e depois se escreva uma crônica imitando o Nélson. Ler e imitar, ler e imitar. Vários autores. Ao final, este exercício acabará por nos tornar leitores mais atentos, de modo a perceber certas constâncias de estilo nos autores que lemos. Menciono tudo isso porque:
Para praticar, podemos imitar o estilo de um autor que escreve na nossa própria língua como exercício escolar;
Ao traduzir, devemos imitar o estilo de um autor que escreve numa língua diferente da nossa como dever de ofício.
É claro, nessa fase da imitação, é bom que se escolham livros de diferentes gêneros e, principalmente, que se leiam livros de autores brasileiros e obras traduzidas. Um exercício curiosíssimo, por exemplo, é ler Alice no País das Maravilhas, no original e nas diferentes edições brasileiras (Cosac, Zahar), para ver como certos problemas foram resolvidos. Minha maior recomendação é que, durante algum tempo, haja dedicação aos aspectos formais do texto (escolha lexical, construções sintáticas...), até que se saiba bem, por exemplo, quando cabe uma subordinada concessiva e quando cabe uma adversativa (o Othon exemplifica bem a diferença). Ao lidar com textos, descobrimos a utilidade daquelas aulas de análise sintática que às vezes nos entediavam. Identificar a oração principal e as subordinadas passa a ser tão importante quanto apreender o conteúdo do que está sendo dito. Mais do que isso: em muitos casos, é condição para apreender o que está sendo dito. E, com isso, chego ao último ponto que julgo recomendável: estude latim. Uma vez que, em latim, as funções sintáticas são marcadas morfologicamente e a ordem das palavras é mais ou menos livre, é imprescindível que se faça análise sintática de cada sentença, sem o que simplesmente não se pode compreender o que está sendo dito. Ora, este é o treinamento perfeito para a aquisição do hábito de analisar sintaticamente os textos no mesmo ato em que se lê. Fácil não é; mas é possível.

Bibliografia sugerida

 

Obras de estudo

 

Antonio Albalat, A Arte de Escrever em 20 lições. (Só se encontra em sebos!)
Idem, A Formação do Estilo pela Assimilação dos Autores. (Idem – são livros velhos e preciosos. Affonso Romano de Santana disse que foram estes livros do Albalat que fizeram dele um escritor!)
Francine Prose, Para Ler como um Escritor. Trad. Maria Luiza Borges. Rio de Janeiro, Zahar, 2008.
Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa. São Paulo, Martins Editora, 1998.

Obras de referência

 

Domingos Paschoal Cegalla, Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Lexikon, 2009.
Antonio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Lexikon, 2010.
Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, Dicionário Analógico da Língua Portuguesa – Ideias Afins. Rio de Janeiro, Lexikon, 2010.
Fancisco Fernandes, Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa. Edição revista e ampliada por Celso Pedro Luft. São Paulo, Globo, 2002.
Antonio Carlos do Amaral Azevedo, Dicionário de Nomes, Termos e Conceitos Históricos. Rio de Janeiro, Lexikon, 2012.
Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Nominal. São Paulo, Ática, 2009.
Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal. São Paulo, Ática, 2009.
Denis Huisman, Dicionário dos Filósofos. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia. São Paulo, WWF Martins Fontes, 2012.
J. Ferrater Mora, Dicionário de Filosofia, 4 vols. São Paulo, Edições Loyola, 2001.

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