domingo, 2 de junho de 2013

Nunca é tarde pra lembrar: o que a esquerda pensa dos criminosos?

 Por André,

Relembrar é viver. Marilene Felinto é (ou era, não sei e não quero saber, visto que a Caros Amigos demitiu toda sua redação grevista) uma honrosa (?) colunista da revista petista. A sujeita tem dois textos de embrulhar o estômago que circulam pela web (prepare o Engov, seja para ler pela primeira vez ou para reler um deles). Na verdade, tem apenas um (logo abaixo, onde defende os assassinos de Liana Friedenbach), o outro, assinado com seu nome (onde ela supostamente defenderia os assassinos de João Hélio) na verdade é fake (embora a própria não tenha emitido um pio em protesto).

Meu motivo para a retomada do texto nada mais é que deixar claro, uma vez mais, o que a esquerda pensa sobre bandidos e membros comuns da sociedade, bem como quem (e como) deve ser punido (o que faz clarear as ideias para entendermos o real porquê dos militantes esquerdistas serem radicalmente contra a redução da maioridade penal, pena de morte, quando não contra TODO o direito penal).

Admita-se ou não, TODA a esquerda pensa como a senhora Felinto, disfarçando muito ou pouco, todos invertem a questão: bandidos deveriam ser soltos e tratados como vítimas, ao passo que as vítimas (ou os "fomentadores do sistema") deveriam ser presas ou punidas, além de constituírem os verdadeiros algozes.

Relembremos:

A morte de uma menina rica, assassinada no município de Embu-Guaçu, Grande São Paulo, em novembro último, supostamente por uma quadrilha que inclui um adolescente de 16 anos, pobre e morador da periferia do Embu, deixou claro, mais uma vez (até a exaustão, vamos lá), que o Brasil tem dois tipos de cidadão: que o valor de cada coisa ? de cada pessoa ? é seu preço no mercado, como afirma Josep Ramoneda.

Está claro que o rabino H. Sobel, ao pedir a instituição da pena de morte no Brasil, só ousou fazê-lo porque a jovem morta, Liana Friedenbach, pertencia à comunidade judaica de São Paulo. A hipocrisia do rabino é flagrante: está claro que ele defende a pena de morte para brasileiros pobres. No seu delírio, o rabino deve ter achado que aqui é uma espécie de Israel ? e que a esmagadora maioria dos brasileiros, da classe pobre, é uma espécie de Palestina a ser eliminada da face da terra! Ora, até que ponto se pode chegar?

Está claro que todo esse rebuliço em torno do assassinato da jovem de 16 anos e de seu namorado, Felipe Caffé, 19, não teria acontecido se a vítima tivesse sido apenas este último, filho da classe média baixa e sem nenhuma ?comunidade? forte por trás. Somente por tabela o nome de Felipe foi lembrado em programas de televisão e na tal passeata ?contra a violência?, que ocorreu em São Paulo em meados de novembro.

O negócio mesmo era Liana, cujo pai em desespero pôde mover até mesmo helicóptero para ir a seu encalço. E pôde, com apoio da tal comunidade, ter acesso a todo tipo de mídia, do mais rasteiro programa de televisão da apresentadora Hebe Camargo e seus ares de xaveco fascista a entrevistas de página inteira à nata da imprensa que serve à elite.

Por acaso a classe alta saiu às ruas para pedir a pena de morte para outra menina rica paulista, Suzane Richthofen, acusada de planejar o assassinato dos próprios pais, junto com o namorado, em 2002? Por acaso a classe alta pediu pena de morte para o também jovem paulista Jorge Bouchabki, acusado (e depois inocentado) em 1988 do assassinato dos pais, no famoso ?crime da rua Cuba??

O caso de Liana Friedenbach reúne todos os elementos da hipocrisia da elite paulista ? esta de nomes estrangeirados, pronta para impor-se, para humilhar e esmagar sob seus pés os espantados ?silvas?, ?sousas?, ?costas? e outros nomezinhos portugueses e ?afro-escravos?. O pai da moça, o advogado Ari Friedenbach, empenha-se agora em conseguir mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Disse a um jornal de São Paulo que a fotografia de R.A.A.C., 16 anos, acusado de matar sua filha, deveria aparecer nos jornais. Disse também que é ?radicalmente a favor? da redução da maioridade penal e que ?nossos legisladores se fazem de surdos quando a população clama por isso?. Que população? A que ?população? se refere o senhor Friedenbach? Eu mesma não me incluo nessa ?população?! Aposto que os jovens da periferia, seus pais ou a mãe de R.A.A.C. também não se incluem. A ?população? a que ele se refere é a própria comunidade dele (ou grande parte dela), a classe rica, concentradora de renda num dos países mais desiguais do mundo ? o Brasil onde um rico ganha trinta vezes mais do que um pobre!

Uma pesquisa do IPEA publicada em 2001 mostra a ganância e a concentração de renda perpetradas escandalosamente pela elite brasileira: mostra a razão entre a renda dos 20 por cento mais ricos e a dos 20 por cento mais pobres, ou seja, quanto um rico ganha mais do que um pobre em diversos países do mundo. ?Platão dizia que esse número tinha que ser 4, ninguém sabe de onde ele tirou o 4, mas ele dizia que o rico tinha que ganhar quatro vezes mais do que os pobres. Na Holanda, um rico ganha 5,5 vezes mais do que um pobre. No Brasil, ganha 25, 30 vezes mais! Nos Estados Unidos, é 10; no Uruguai, também é 10. Então, vê-se aqui o alto nível de desigualdade e a estabilidade dessa desigualdade.?

Agora vem esse rabino pedir pena de morte no Brasil para crimes hediondos. Nos Estados Unidos, que tem pena de morte, os crimes são cada vez mais ?hediondos? ? conceito, aliás, sem sentido. O que torna um crime mais ?hediondo? que outro? Só se for a classe social da vítima: quando é rica e loirinha, então, o crime é mais hediondo do que se a vítima for um ?Pernambuco? qualquer, também de 16 anos, morador do Jardim Ângela ou do Capão Redondo, periferia de São Paulo, morto por outro ?Pernambuco? de 16 anos, também sem sobrenome. Todo dia morrem às pencas jovens assassinados por outros jovens nas favelas e aglomerados pobres das periferias das grandes cidades ? nem por isso há movimentos pela pena de morte ou pela redução da maioridade penal.

A elite brasileira vive mesmo fora da realidade. Não tem idéia do ódio que a diferença de classe insufla todo dia nas gerações de jovens pobres que povoam o país de ponta a ponta, que vagam pelas matas ou pelo asfalto das ruas sem nenhuma perspectiva. Esse R.A.A.C. mal tinha freqüentado a escola. Ele supostamente disse à polícia que, ao caminhar pela mata com outro acusado do crime, ?avistaram o casal (Liana e Felipe), cuja aparência física destoava das pessoas que normalmente freqüentam o local?.

O ódio de classe ? quem já conviveu com jovens pobres de favelas e periferias conhece esse sentimento. Tudo destoa, humilhando-os, provocando neles desprezo e raiva: a aparência física, a roupa, a escola, a comida, o carro, o jeito, o hospital, o tratamento policial, o enterro. Ora, a polícia de São Paulo jamais iria se bandear daqui para Pernambuco atrás do outro acusado de matar o casal de namorados (em poucos dias encontraram dentro de um ônibus no sertão pernambucano Paulo César da Silva Marques, 32 anos, vulgo ?Pernambuco?) se o jovem morto fosse um pernambucanozinho qualquer sem eira nem beira.

Está clara a hipocrisia. A imprensa não trata da violência que essa desigualdade social imposta diuturnamente aos jovens pobres significa. Não trata desse veneno que a elite brasileira truculenta injeta todo santo dia na veia dos meninos. Jovens como R.A.A.C. sabem que não valem nada no mercado. Eles sabem que não passam de ?Pernambucos? condenados ao preconceito de classe, à exclusão total, à humilhação. Eles sabem que nada têm a perder ? por isso matam. A vida, para eles, dentro ou fora de uma unidade da Febem ou de uma cadeia não faz muita diferença.

Da apresentadora de televisão que se julga no direito de matar R.A.A. C. (Hebe Camargo) ao pai de Liana que quer ver o rosto do rapaz estampado nos jornais da elite, passando pelas declarações oportunistas do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) e sua política de segurança fascista (que propõe ?endurecer? o ECA), o alvo de todos eles é o mesmo do rabino da pena de morte: o extermínio puro e simples dos jovens pobres. Para que eles continuem, em última instância, a embolsar todo mês trinta vezes mais que qualquer pai maltrapilho e desempregado da favela.

Eles fazem ouvidos moucos para a mensagem que vem da miséria. O que a ?violência? diz hoje no Brasil é que ou seremos todos cidadãos ou ninguém será, ou ninguém viverá a ?segurança? almejada pelos ricos. Ou serão todos cidadãos ou ninguém será. As democracias evitam sistematicamente pensar a violência e se limitam a contrapor os bons sentimentos gerais em favor da não-violência, diz Josep Ramoneda. ?Se aceitarmos como critério a autonomia do sujeito, o ideal kantiano da emancipação individual, o cidadão é a figura política que corresponde a essa idéia de plenitude da pessoa humana?, afirma o estudioso espanhol. Foi a própria elite brasileira que transformou R.A.A.C. em pessoa-animal. É preciso ser intransigente com essa elite brasileira surda e cega ao ódio de classe que ela insufla. É preciso ser intransigente na defesa dos direitos humanos de R.A.A.C. Direitos humanos, sim, para a pessoa que a elite voraz e devoradora quer transformar em animal a ser caçado a laço e exposto à execração pública e à morte pela justiça popular. Mal sabe ela que R.A.A.C. passava por isso todos os dias ? pela execração pública. Mal sabe a elite que exclusão social, tal qual ocorre no Brasil, é igual, sempre foi igual, sinônimo mesmo de ?execração pública? e de ?pena de morte?.

Fonte: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/01/271615.shtml


O texto é um amontoado quase que ilimitado de impropérios, muitos falam por si e seria inviável tratar de todos (a maior parte da fala simplesmente me remete à afirmação do saudoso Paulo Francis de que a melhor arma contra um socialista é permitir que ele próprio fale).

Quero aqui tratar da inversão promovida por Marilene. Além do texto destilar preconceito: contra judeus, contra pessoas de condição financeira superior, contra estrangeiros, contra paulistas, ele claramente INVERTE algo evidente tanto ao senso comum quanto ao especialista: o cruel assassino de Liana não é o bandido, o assassino, o mau, mas a vítima da sociedade (paulistana), do sistema, dos endinheirados, enfim, a culpa é de qualquer um, menos do próprio Champinha; esse quadro pintado pela esquerda, onde bandidos não têm culpa por suas ações atuais, mas a classe média, os ricos, os brancos, os europeus, têm culpa pelas supostas ações dolosas de seus antepassados sempre me remete à frase de Thomas Sowell:


A explicação de "Marilene" em seu texto apócrifo para justificar as ações dos assassinos de João Hélio era a mesma: eles apenas queriam um carro, um tênis Nike, ao não ter, decidiram fazer reparação social com as próprias mãos, foram roubar, afinal, a culpa dos próprios não terem coisas desse tipo é daqueles que têm.

Francisco Razzo explica esse fenômeno com a maestria que lhe é tradicional no texto "Eu sou o tolerante e você o preconceituoso", do qual cito um trecho:


"(...)
Contudo, o que sustenta esse tipo de justificativa é basicamente o seguinte argumento: "sou infeliz porque fulano é feliz"; "sou pobre por que fulano é rico"; "sou fracassado por que o outro é realizado", "minha desgraça é de responsabilidade deles" etc. E o problema emerge quando toda complexidade dos conflitos políticos é reduzida a esse teorema de regras simplórias, fruto imediato da crença na bondade natural do ser humano, afinal quem faz sempre o mal é a sociedade, o capitalismo, o sistema, a Igreja Católica etc. Não obstante a ordem política derivar, na verdade, do reconhecimento e da experiência do homem ao tomar consciência de seus próprios conflitos internos e limites. A maturidade tem um preço elevado.

Na medida em que a nossa experiência interior deduz de forma imediata e ingênua que a nossa própria interioridade caracteriza-se como o único parâmetro aceitável de uma espécie de representação natural e suprema da cidade ideal constantemente ameaçada por saqueadores (metáfora para tudo o que ameça a estabilidade do imaginário de alguém), a realidade da ordem política é assaltada pela desordem dessa infantil vida interior -- "espero que todos sejam tão bons para mim quanto eu sou autossuficientemente tão bom para mim mesmo!", mas já que sou "bom", então "por que eu não posso? Ora, eu posso sim! Porque eu decido que posso!". Essas sentenças são exemplos típicos da desordenada relação imediata e ingênua do homem consigo mesmo, cuja marca decisiva é a auto-determinação da trindade "Vontade, Liberdade e Poder" hipostasiada por meio da fórmula mágica "eu quero, eu decido, logo eu posso", ou seja, justamente aquele risco que o filósofo norte-americano Hilary Putnam chamou de o risco da "deificação do homem"."


Costumo brincar com a expressão "mundo muito louco da esquerda". Um mundo em que meliantes das mais variadas matizes (menos homofóbicos, esses são criminosos de carteirinha) não têm culpa de nada, foram condicionados a tudo isso; um mundo que liberdade e consciência não existem (a crença nesse mundo muito louco faz com que marxistas considerem que o único meio viável para a revolução é a violência, como já argumentei). Nasceram anjinhos inocentes, porém o meio os corrompeu. A análise é simplória desde o início. Basta pensar que a maioria esmagadora dos que frequentam o mesmo meio social não viram psicopatas, assassinos ou bandidos, apenas reconhecem a situação em que se encontram e procuram a única via moralmente disponível para sair do meio degradante: o trabalho honesto (porém, não se enganem, os teóricos da esquerda ODEIAM esse grupo de pessoas, pois formam massa de manobra perdida, não querem revolucionar, querem apenas ganhar uma quantidade de dinheiro suficiente para viver bem, querem, em suma, ascender à classe média).

Marilene comete uma falácia juvenil: julga o todo pela parte. Primeiro, pergunta "que população deseja a redução da maioridade penal?", bem, provavelmente, já à época, mais de 80% dos paulistanos, com acontecimentos recentes, 93% dos paulistanos querem a redução, contudo, a colunista, do alto de seu pedestal afirma que "Eu mesma não me incluo nessa população". Ora, só porque a senhora e seus cupinchas revolucionários não querem, isso quer dizer que ninguém quer?

O restante do texto é mais do mesmo, toda a explicação para a criminalidade se resume, tanto para Marilene como para a intelectualidade esquerdista a "conflito de classe". Mais uma vez, a análise é tão simplória que chega a inspirar pena. Mesmo que essa seja a explicação mágica, como um estupro promove reparação social? Mesmo que essa explicação passasse perto da verdade, qual a proposta dos habitantes do "mundo muito louco da esquerda"?

Eles não têm. Sabem o por quê? Porque eles tiram um proveito ilimitado dessa situação. Quanto maior o caos, maior o campo para proporem suas teorias mirabolantes, maior o campo para revolucionarem. Eles não têm solução real, porque tiram um proveito sem fim desse problema.

Dos limpinhos, os verão bradar por "mais educação", a solução mágica e onipotente que vai resolver os problemas do mundo. Dos descarados, vai ouvir coisas como "não prenda mais ninguém, só pobre vai pra cadeia". A solução deles é essa: se só os pobres vão para a cadeia, o jeito é não prendê-los (e claro, nunca é criar meios para que os ricos criminosos cumpram suas penas), ninguém vai para a cadeia e pronto, os intelectuais revolucionários terão um exército como massa de manobra a sua disposição.

Em suma, o propósito era ilustrar sem maiores enfeites o que a esquerda realmente pensa sobre a criminalidade e o combate a ela. Tão claros quanto Felinto ou o mais novo boy-propaganda das bizarrices criminais, Leonardo Sakamoto, ou escondendo melhor seu fervor em advogar pelos companheiros criminosos, todos pensam exatamente assim: os reais bandidos somos nós, que trabalhamos, acordamos cedo, sustentamos uma horda, optamos por melhorar nossas vidas pela via do trabalho, nós criamos os bandidos, nosso "sistema". 

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