terça-feira, 16 de julho de 2013

Clark Kent leitor de Platão: resenha de 'O Homem de Aço'

Por André,

Jovem Clark lê Platão. Em busca da Justiça?

Uma nova versão do herói favorito de muita gente - O Super-homem - teve seu lançamento oficial na última sexta-feira (dia 12) com o título de "O Homem de Aço".

Pode parecer óbvio para os mais atentos, mas não a todos, que a questão essencial da história do Superman é moral. As implicações de ser invencível ou ter super-poderes já foram objeto de análise dos filósofos; o "anel de Giges" (que tornava seu usuário invisível) descrito na República de Platão é um exemplo disso. Superman é a representação maior de um ícone moral. Pois bem, esta versão do Homem de Aço nunca esteve tão filosófica. Como diz Jonathan Kent, Clark é a resposta para as perguntas "o que é ser humano?" e "estamos sozinhos no universo?".

Sem dar muitos spoilers, quero registrar minhas impressões acerca do filme aqui:

O filme é EXCELENTE em diversos sentidos, se você quer ter emoção total e ainda não viu o filme, assista e volte para ler minha resenha depois, pois garanto que vale a pena. A produção de Christopher Nolan (nosso reaça de Hollywood) já inspirava confiança nos fãs antes do lançamento e as expectativas foram confirmadas, o filme é um sucesso (embora, é claro, você certamente encontrará críticas contundentes por aí, como tudo que mexa com os brios de um número grande de fãs).

O início da película dá um relato completo da destruição iminente de Krypton e do envio de Kal-el para a Terra, bem como do conflito entre Jor-el e Zod (duas linhas comparativas podem ser estabelecidas - dissociadas uma da outra: uma entre o filme e a mística cristã, a que me referirei depois e outra com Superman II, dirigido por Richard Lester, meu favorito do quarteto de Christopher Reeve). O relato (destruição de Krypton e envio de Kal-el para a Terra) tem seus 20 minutos, com mais 20 ou 30 de "encontro da identidade".

Há diferenças no filme que a primeira vista me assustaram, mas que avaliei positivamente após reflexão: o relato da adolescência e vida de Clark Kant é apresentado de forma intercalada, flashes entre a adolescência e a busca por sua identidade quando adulto; apenas após isso, um retorno para casa e um sombrio recado entregue para toda a Terra dado por Zod vem à tona o conflito com o general supremo de Krypton. As imagens do filme são futurísticas e relativamente sombrias (coisas que entendo como qualidades, embora Krypton pudesse ser menos cinza).

O motivo da desavença entre Zod e Jor-el? O general deseja promover uma "limpeza étnica" em Krypton, almejando purgar o planeta das raças que o levaram à destruição. Ambos podem, inclusive, ser considerados como exemplos de "reis filósofos", ambos homens racionais com visão ampla e ideal de defesa da pátria, um pela via da guerra (Zod) e outro pela via da ciência (Jor-el).

Toda criança de Krypton era concebida de acordo com o papel que iria cumprir na sociedade: trabalhador, guerreiro ou líder (distopia eugênica de inspiração darwinista social).

Super-homem nunca esteve tão politicamente incorreto: 

- Diversas referências ao Evangelho (o filho do homem que vem à Terra para guiar e salvar os humanos, "você será como um deus para eles", o general Zod o enfrenta aos 33 anos, o propósito de Kal-el é nos guiar e oferecer esperança). Embora as ligações já pudessem ser feitas desde o princípio (confesso que cheguei a essa conclusão pela primeira vez n'O Retorno, quando Superman observava a Terra).

- Superman luta por um senso moral objetivo: a moral do General Zod tem de ser derrotada e eliminada.

A fala de Faora-Ul - braço direito de Zod - num momento de conflito com Superman, é significativa:

"Na verdade, você tem um senso de moralidade, ao passo que nós não temos. Isso nos confere uma vantagem evolutiva."

- O crime cometido por Jor-el, pai de Kal-el, foi tê-lo gerado numa relação papai-mamãe tradicional e não dentro do esquema eugênico vigente em Kripton por milhares de anos. Zod pode ser tido, inclusive, como a mente organizadora do futuro distópico, da ditadura genética descrita, por exemplo, por Huxley em Admirável Mundo Novo.

- Superman tinha, e manteve em sua versão repaginada, uma namorada do sexo feminino (que assim nasceu e assim permaneceu).

Todo o filme soa nostálgico para a humanidade que, atualmente, está sem ideal de Justiça, sem ideal de moralidade objetiva, sem qualquer referência. Se um herói surgir amanhã, não teremos qualquer critério para defini-lo como herói ou como vilão. Os perigos dessa "zona cinza", bem como a denúncia dos riscos de uma sociedade tecnocrática, podem ser vistos como a mensagem transmitida por Christopher Nolan, Zack Snyder e David Goyer.


Post Scriptum

O lançamento mundial do DVD foi esta semana e tive a chance de rever o filme. Vale um novo adendo:

Por que o Super-homem dos cinemas nada tem a ver com o Super-homem de Nietzsche?  

Para mostrar que o conceito nietzscheano nada tem a ver com os heróis do cinema basta, em primeiro lugar, recorrer à própria semântica. A tradução da palavra Übermensch - palavra usada por Nietzsche para exprimir seu conceito - como "super-homem" é equivocada. O Übermensch é, como diz o próprio Nietzsche no início de seu Assim Falou Zaratustra algo além do próprio homem (daí muito tradutores optarem por "além-do-homem" em vez de "super-homem") - "o homem é o elo intermediário entre o animal e o além-do-homem"; da mesma forma que o homem está para além do animal, o super-homem está para além do homem, supera o que há neste último.

Ao passo que o super herói dos quadrinhos não é algo além do homem, mas sim um homem com tudo de bom que pode haver num ser humano de forma potencializada. Não é um homem melhorado a ponto de não ser mais homem, é um homem par excellence, é o homem naquilo que lhe há de melhor.

E a cena final do filme, do conflito entre Kal-el e Zod, é a prova definitiva: Superman lamenta ter de matar Zod, Superman lamenta ter matado Zod. Ele não está acima ou além da moralidade ("do bem e do mal"), ele crê e sabe da existência de uma moralidade objetiva a que ele próprio deve prestar respeito - mesmo quando a realidade lhe impõe o dilema de matar um vilão assassino ou assistir a morte de inocentes -, uma morte deve ser lamentada. Super Homem não é um "revolucionário do bem" que relativiza imoralidades "a depender do contexto". O assassinato é um fato objetivamente imoral, como prescreve o Tao de que falava C.S. Lewis em seu "A abolição do homem" e nem o Super-homem está autorizado a desconsiderar esta verdade objetiva da realidade.


Guilherme Freire, do Círculo de Estudos Políticos, também fez comentários preciosos sobre o filme:

2 comentários:

  1. Muito boa reflexão, as pistas nos filmes são bem objetivas (para quem estuda) várias referências a "Admirável Novo Mundo"...Fico pensando no passado tínhamos profetas, hoje temos futurólogos com o Raymond Kurzweil será que isso não é uma sinalização no meio da estrada que leva ao futuro?

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  2. Exceto que, quando ele estava nervosinho, ele destruiu metade da cidade na luta com o Zod. Os humanos que estavam no posto de gasolina, nos trens, dos prédios eram como formigas. Devem ter morrido aos milhares (e até se pode dizer que a luta na cidade não foi escolha do Super-Homem, apesar que ele poderia ter levado a luta pro mar, ou pra uma zona desabitada, mas o posto de gasolina e os trens, aí não dá: o Zod foi pego de surpresa e o Super-Homem ESCOLHEU jogá-lo nesses lugares). Já no final, tinha uma família bonitinha que, por alguma razão mágica, tinha que ficar congelada ali no cantinho. Eles não poderiam sair à direita dos dois lutadores. E, apesar de milhares, talvez milhões terem morrido naquele dia, aquela família não poderia!

    Isso pareceu mais a fala de Stalin: a morte de alguns é uma tragédia; a morte de milhões, estatística.

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