quarta-feira, 24 de julho de 2013

Contra o mimimi acadêmico de Pindorama: "Elogio do insulto"


Bem, não tivemos em nossa última edição o elogio do jeitinho? Agora teremos a defesa da polêmica, do humor escrachado, do palavrão desequilibrado, do sarcasmo – enfim, de tudo aquilo que o jornalismo cultural (em especial, o tupiniquim) evita como o diabo que foge da cruz. Lá na terra de Obamis, tivemos o caso de David Denby, que resolveu publicar um pequeno livro contra uma determinada espécie de polemista: o snark. O termo parece ter saído do Finnegans Wake, de James Joyce, e significa mais ou menos o seguinte: para Denby, existe um tipo de polêmica cultural que infecta os meios intelectuais e que é nociva porque incentiva o xingamento pelo xingamento, o sarcasmo pelo sarcasmo – ou seja, a diversão de ofender o seu adversário sem se importar se ele tem alguma dignidade.

Ao que parece, o livro de Denby – crítico de cinema da The New Yorker que não hesitou em fazer as suas polêmicas sobre alguns filmes – foi um fracasso de público e de crítica (é só ler as resenhas dos leitores da Amazon). Não é por acaso: apesar da maioria dos americanos achar que Obamis é o salvador do mundo, alguns ainda acreditam que uma boa polêmica é sempre igual a uma boa porrada. Os EUA sempre foram uma nação dominada pela luta intestina entre suas várias facções políticas, que muitas vezes terminam em tragédias (é só lembrar das lutas raciais e dos atentados contra vários presidentes), outras vezes terminam em reformas fundamentais para a estrutura democrática (é o exemplo do debate em torno da Constituição que aconteceu na década de 1780).

Mas há algo mais para a defesa da polêmica, do sarcasmo e do insulto no ambiente cultural. Sem estas três características, não poderíamos recuperar a nossa própria humanidade. A tese não é minha, mas sim de Nicholas Desai, autor de um excelente ensaio sobre Aleksander Solzhenitsyn, o responsável por esse grande livro de mártires que é Arquipélago Gulag. De acordo com Desai, em resposta ao argumento de Denby, Solzhenitsyn é um excelente exemplo de snark russo, que usou do sarcasmo e até da ofensa (afinal, o russo foi para um gulag justamente porque fez uma piada a respeito de Stálin) para relembrar ao leitor da crueldade que o totalitarismo estava a provocar com a Rússia. Desai exemplifica:

One of the funniest (and snarkiest) passages in the whole book describes how the Tsarist justice system dealt with Lenin before the revolution. After relating, among other things, how under communism entire peasant families were executed for “hoarding” the crops they hoped to subsist on, Solzhenitsyn describes the ordeals of the young Vladimir this way:
…he was merely expelled. Such cruelty! Yes, but he was also banished….To Sakhalin? No, to the family estate of Kokushkino, where he intended to spend the summer anyway. He wanted to work, so they gave him an opportunity….To fell trees in the frozen north? No, to practice law in Samara, where he was simultaneously active in illegal political circles. After this he was allowed to take his examinations at St. Petersburg University as an external student. (With his curriculum vitae? What was the Special section thinking of?)
That dismissive “Such cruelty!” is related to what is one of his strangest rhetorical effects, namely how when describing the remorseless cruelty of the Soviet system, he seems almost, but not quite, to convey admiration for their total lack of scruples. This black humor is just one element of tone that achieves a chord-like complexity, giving the lie to the notion that snark is always simple.

Ou seja: um mundo cultural destituído de polêmica e de insultos é um mundo que começa a perder a sua humanidade. No Brasil, o caso é de uma patologia clássica: todo mundo agrada todo mundo e, quando há sempre um outcast que resolve furar o bloqueio, sacam misteriosamente um abaixo-assinado ou chamam as forças da mídia para a realização de um manifesto ou de uma passeata. Nem sequer é uma espécie de “patrulha ideológica”; é um exemplo cristalino de “egocentrismo cognitivo“, para usar o termo de Richard Landes. O intelectual ou jornalista brasileiro só vê o que quer porque é a única coisa que o seu mundinho fashion permite. Ao contrário dos EUA, o meio cultural brasileiro sempre preferiu a conciliação e, exceto por um ou outro evento, nunca houve um embate intelectual de grande porte por essas plagas.

Aqui, se alguém parte para a verdadeira porrada, logo é tratado como “louco”, “grosso”, “paranóico” – termos vazios de sentido que atingem a pessoa, nunca o que ela está a discutir. Com este tipo de argumentação, a única coisa que resta para os poucos snarks nacionais é mandar seus oponentes para o lugar que merecem. Afinal de contas, a humanidade só recupera o que é seu se levar um bom pontapé na bunda.

E nem preciso dizer que, da minha parte, se alguém me chamar da mesma coisa, quero mais é que tome um piparote na testa.

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