segunda-feira, 1 de julho de 2013

FLIP: o bom e velho esquerdismo de sempre. As opções no Brasil são: ser de esquerda ou "muito" de esquerda


Se não faltaram debates políticos em edições anteriores da Flip, em 2013 eles ganham o primeiro plano. 

Por diferentes motivos: os protestos pelo país; o perfil militante do homenageado, Graciliano Ramos; a presença maciça de nomes relevantes da esquerda nacional e internacional, como o diretor de cinema Eduardo Coutinho e o crítico britânico T.J. Clark. 

Mesmo debates aparentemente neutros têm, para o curador Miguel Conde, a política como motor. É o caso da mesa com os romancistas José Luiz Passos e Paulo Scott. 

"Foi uma tentativa de pensar dois modelos possíveis de uma literatura que se queira política hoje. Em Scott, há uma tematização direta, uma reavaliação de certas causas [políticas] pós-chegada do PT ao poder. Passos também faz isso, de modo menos direto". 

Das 21 discussões da programação principal, apenas sete não têm a política como eixo nem pelo menos um integrante cuja vida ou obra não estejam ligadas à militância, particularmente de esquerda.
Autores de perfil conservador ou de centro estão ausentes. Em outras edições, nomes francamente conservadores, como o jornalista Christopher Hitchens, ou de centro, como o crítico Sergio Paulo Rouanet e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, fizeram contrapontos ao predomínio de esquerda da Flip. 

Foi assim em 2006, quando o britânico Hitchens e o romancista americano Jonathan Safran Foer recusaram-se a aderir a um abaixo-assinado, endossado por diversos convidados, contra bombardeios de Israel no Líbano. Hitchens ainda chamou Fernando Gabeira de "terrorista". 

Dois anos depois, o poeta Ferreira Gullar cunhou uma das aspas mais citadas da história da Flip --"Não quero ter razão, quero ser feliz"-- ao divergir do palestino Mourid Barghouti numa discussão sobre o exílio político. 

Neste ano, o economista André Lara Resende, que estará em uma das mesas sobre as manifestações, na programação paralela, será uma voz solitária no campo liberal --uma exceção entre os nove nomes confirmados para esses debates, como Vladimir Safatle, autor de "A Esquerda que não Teme Dizer seu Nome" (Três Estrelas). 

Também no "programa B", o roqueiro Lobão deve ser uma voz antiesquerda, embora sua mesa seja sobre MPB. 

"Não acho que escritores associados à direita sejam numerosos", diz Conde. "Tenho até dificuldade em pensar em nomes. O [escritor peruano Mario] Vargas Llosa tem posição mais liberal. Nós o chamamos, mas ele não pôde vir." 

PEÇA RARA
 
Para o sociólogo Sergio Miceli, que será um dos debatedores da "ficha política" de Graciliano e publicou estudos sobre as relações políticas na intelectualidade brasileira, bons pensadores à direita são peça rara no país. 

"Há conservadores com trabalhos importantes, como José Guilherme Merquior [1941-91], Mario Faustino [1930-62]", diz. E espeta: "Hoje, muitos falam sobre tudo, mas não se aprofundam em nada. Têm um amplo espectro, como remédio para resfriado". 

Na quarta passagem pela festa, o escritor Milton Hatoum --que se diz de esquerda, sem envolvimento partidário--, fará a conferência de abertura sobre Graciliano.

"A maioria dos escritores no Brasil é de esquerda", diz. "Acho que tem a ver com as contradições sociais do país." 

O escritor também diz achar difícil mencionar nomes relevantes de perfil conservador. "De escritor importante no Brasil, não me lembro de nenhum de direita. Diziam que Nelson [Rodrigues] era, mas discordo. Era provocador, irônico, e na ditadura lutou para libertar presos." 

Para Carlos Andreazza, editor de não ficção da Record --casa que detém a obra de Graciliano--, "não faltam autores conservadores. Falta coragem para convidá-los". 

"Não tenho dúvida de que a Flip sempre foi de esquerda. É legítimo, aliás. A discussão, no entanto, fica incompleta. Se quisessem abrir espaço ao contraditório, não faltariam opções", diz Andreazza, citando, entre elas, o filósofo Olavo de Carvalho. 

Carvalho também é citado por José Mario Pereira como "flipável", ao lado do economista e ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. 

O editor da Topbooks vê "má vontade" no meio intelectual com os conservadores de seu catálogo: "Quando querem ser simpáticos, chamam de 'liberal'". 

O dissenso, para Conde, não sairá prejudicado. "Todas as Flips tiveram predomínio de autores considerados mais ou menos de esquerda. É uma caracterização ampla, que abriga posições diferentes e às vezes conflitantes."

O curador, em sua segunda Flip, diz não haver "exclusão deliberada" do pensamento conservador. "Naturalmente, convidei autores dos quais me sinto mais próximo ou que abordam as questões de maneira inteligente." (PW E RC)

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