sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ricardo Musse resenha Olavo de Carvalho


 Crise e barbárie

Olavo de Carvalho usa crítica cultural e teoria da história para mostrar o mundo como expressão de uma "crise da civilização"

RICARDO MUSSE

ESPECIAL PARA A FOLHA

A publicação simultânea de dois volumes, reunindo livros e estudos esparsos segundo o plano organizado pelo autor, delineia de forma ainda mais nítida o projeto intelectual do sr. Olavo de Carvalho.

"A Dialética Simbólica" congrega estudos teóricos, concernentes à interpretação da cultura, e, como aplicações, análises de três filmes e de uma peça teatral. A parte teórica debruça-se sobre os fundamentos da produção simbólica a partir da experiência individual e desenvolve uma teoria dos gêneros literários, considerados como realidades arquetípicas que operam como "esquemas de possibilidades".

Seus pressupostos teóricos, no entanto, afloram de forma cristalina quando postos em ação nos exercícios críticos. O artigo mais longo do livro analisa o filme "O Silêncio dos Inocentes", dirigido por Jonathan Demme. Procura demonstrar que não se trata de um mero drama policial e psicológico, mas de uma narrativa "iniciática", de um embate entre o bem e o demoníaco à maneira dos autos medievais.

Essa forma artística também serve de padrão para o estudo da peça "Agnes de Deus", de John Pielmeyer. Carvalho identifica nesse drama uma deturpação da fórmula do auto cristão que atribui a uma confusão entre espiritualidade e psiquismo. Esse embaralhamento impede o espetáculo de suscitar a conversão ou mesmo despertar a consciência religiosa, descumprindo o sentido moral e pedagógico da arte.

A inaptidão para abordar o sobrenatural e configurar o mal como demoníaco denotaria um traço profundo do mundo contemporâneo: a perda de capacidade de discernir entre fenômenos psíquicos e místicos, característica comum tanto à intelectualidade como aos próprios representantes da igreja. 

Essa perspectiva é complementada nos comentários aos filmes "Aurora" (de F.W. Murnau) e "Central do Brasil". No primeiro, Carvalho destaca a presença da providência divina por meio de um encadeamento entre o natural e o sobrenatural. O filme de Walter Salles, visto como uma jornada em busca da "família originária, da religião antiga, da raiz autêntica", é saudado por adotar um ponto de vista "conservador e antimoderno".

Em linhas gerais, Carvalho compõe uma filosofia da cultura assentada na defesa dos princípios metafísicos próprios das civilizações antigas e no combate à "perda do sentido simbólico do universo" por conta "de uma vivência mais terrestre, temporalizada e empírica".

Sua visão da cultura articula-se ponto a ponto com a teoria da história exposta em duas conferências proferidas no exterior, reunidas na segunda parte de "O Futuro do Pensamento Brasileiro". Carvalho filia-se explicitamente à linhagem que avalia o mundo contemporâneo não como uma realização do progresso, mas como um ocaso, expressão de uma "crise da civilização" que já é o adentrar na barbárie.

Um dos sintomas desse estado de coisas é a perda da perspectiva histórica, isto é, a "presentificação" das experiências, o que impossibilita o auto-exame da sociedade por excluir outras épocas históricas como termo de comparação. Essa espécie de "cronocentrismo", a recusa a levar em conta as vozes do passado, o controle da história é apenas um braço da "administração impessoal do mundo" que "se arroga o poder de dirigir a vida do espírito".

Consciência coletiva

Essa situação decorre da dissolução das prerrogativas da consciência individual autônoma, tal como firmadas pelos profetas hebreus, pela filosofia grega e pelo cristianismo. Trata-se, segundo Carvalho, do resultado de um processo de fortalecimento da consciência coletiva, iniciado no Renascimento, consolidado pela ciência moderna e que tem seu ápice na Revolução Francesa com a prevalência da "opinião pública" e da "vontade geral".

Fecho de um processo de dessacralização, o mundo moderno configura-se como um poder antiespiritual. Carvalho sabe que sua resistência ao predomínio do materialismo não dispõe mais de bases na vida social, na "sociocultura". Vê exceções apenas em nichos de religiosidade, no islamismo, na ortodoxia judaica e na vertente tradicionalista do catolicismo.

Carvalho escolhe então como campo de combate a cultura, compreendida como esfera de valores universais. Seu alvo prioritário será o que denomina de "sacerdócio das trevas" -o kantismo, o hegelianismo, o marxismo, o positivismo, o pragmatismo, o nietzscheanismo, a psicanálise, a filosofia analítica, o existencialismo, o desconstrucionismo etc.-, correntes intelectuais que "transferem o encargo de conhecer a verdade do indivíduo para a coletividade".

Esse mesmo diapasão de crítica cultural é aplicado ao pensamento brasileiro. Acusa-o de imprevidência e inconsciência, por sua despreocupação com o futuro. A cultura brasileira, orientada majoritariamente para a autodefinição da especificidade nacional, tende a supervalorizar o popular, o antropológico, o documental em detrimento de "valores supratemporais".

Mas se a cultura brasileira carece de unidade, existem quatro manifestações do gênio individual que podem redimi-la, as obras de Mário Ferreira dos Santos, Otto Maria Carpeaux, Miguel Reale e Gilberto Freyre. Desenvolver as trilhas abertas por essas quatro vertentes, eis o programa ao qual o sr. Olavo de Carvalho jura fidelidade irrestrita.
RICARDO MUSSE é doutor em filosofia e professor no departamento de sociologia da USP.

 

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