segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Discussão sobre natureza humana foi empobrecida pelo marxismo, "nós" livre é essencial para a revolução de Marx


As ciências exatas e biológicas são diferentes das humanas. A representação da realidade de sociólogos, filósofos, pedagogos e psicanalistas não podem ser colocadas em microscópios ou simuladas por equações. De científico mesmo, as humanidades só carregam o nome. O positivismo procurou aplicar o rigor das ciências em todas as áreas do conhecimento. A tentativa virou galhofa. 

Apesar de a argumentação ter força na visão de mundo defendida pelas ciências humanas, muitas de suas premissas são representações de uma realidade preferível para quem as defendem. Ou seja, crença. É mais agradável acreditar que somos livres do que biologicamente determinados, pois as consequências de pensamentos deste gênero se mostraram errôneas e historicamente desastrosas. 

O pensamento hegemônico das ciências humanas alega que nascemos "vazios" --tábula rasa-- e somos preenchidos com a cultura. Assim, comportamentos violentos, por exemplo, poderiam ser explicados como resultado do meio em que o sujeito foi criado. 

Em seu novo livro, "A Natureza Humana Existe", Francisco Daudt, psicanalista, médico e colunista da Folha, apresenta o que os psicólogos evolucionistas defendem: somos herdeiros da genética e da experiência. 

"Pense num computador", escreve Daudt. "Quando você o compra, ele já vem como um monte de programas instalados. Somos nós, quando nascemos. Depois você acrescenta outros que te interessam (seria a 'cultura')". 

Segundo ele, os acadêmicos negam uma parte fundamental para compreender o comportamento humano quando se recusam a acreditar que existe um fator natural, como em todos os outros animais, que também move e molda o indivíduo. 

"As influências biológicas no comportamento humano ficaram malvistas por décadas", conta. "Quando Edward O. Wilson publicou, em 1975, seu livro 'Sociologia: Uma Nova Síntese', os acadêmicos marxistas (quase uma redundância, na época) das humanidades se levantaram numa grita enfurecida, como se estivessem vendo a ressurreição do demônio". 

Defender que carregamos elementos que precedem a experiência não é novidade. René Descartes (1596-1650), pensador que inaugura a filosofia moderna, apresentou, em suas "Meditações Metafísicas", as ideias inatas. Para não pecar pelo anacronismo, é claro, o filósofo francês desconhecia os conceitos de genética que temos hoje. Porém, a psicologia evolucionista traz, em seu DNA, uma parcela cartesiana. 

"Embora todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso todo ele se origina justamente da experiência", escreve Immanuel Kant (1724-1804) em "A Critica da Razão Pura", de 1781. "Pois poderia bem acontecer que mesmo o nosso conhecimento e experiência seja um composto daquilo que recebemos por impressões e daquilo que a nossa própria faculdade de conhecimento (apenas provocada por impressões sensíveis) fornece de si mesma". 

Não dá para apostar que somos 50% genética e 50% criação. Ambas foram parcamente exploradas. Podemos dizer que, até agora, a totalidade de fatores que constituem a identidade é um mistério. Decifrar esse enigma pode estar além da nossa capacidade cognitiva. O cão correndo atrás do próprio rabo.

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