sábado, 10 de agosto de 2013

O declínio da cultura, a deterioração da linguagem e os governos totalitários

Por André,

Livro do prof. Allan Bloom que documenta o fenômeno do declínio da cultural ocidental

Homens de inteligência díspar foram capazes de antever os morticínios e conflitos sanguinários do século XX. O que os une? Um diagnóstico de deterioração da vida intelectual, da alta cultura, da própria linguagem. À sua maneira, Ortega y Gasset, Allan Bloom, Johan Huizinga e Eric Voegelin, todos eles, previram o advento de coisas como o nazismo e as duas guerras:

Ortega y Gasset já dizia que os principais inimigos da cultura  são os “señoritos satisfechos” que são pessoas que desfrutam do legado  da civilização sem ter a menor idéia de como foi conquistado e, por
ignorância das condições que o geraram, acabam por destruí-lo. O señorito satisfecho é corroído por um profundo ódio a si mesmo, mas está  proibido, pela cultura vigente, de perceber a verdadeira natureza de  suas culpas.

Por toda parte, nas civilizações anteriores, um certo equilíbrio  entre custo e benefício, entre direitos e deveres, entre prazeres e  sacrifícios, era reconhecido como o princípio central da sanidade  humana. A liberação de massas imensas de população para o desfrute de  prazeres e requintes gratuitos é uma das situações psicológicas mais  ameaçadoras já vividas pela humanidade desde o tempo das cavernas. Para  cada indivíduo engolfado nesse processo, o efeito mais direto e  incontornável da experiência é um sentimento de culpa tanto mais  profundo e avassalador quanto menos conscientizado. Mas como poderia ele ser conscientizado, se na mesma medida em que se abrem as portas do  prazer se fecham as da consciência religiosa?

Ortega y Gasset já dizia que os principais inimigos da cultura são os “señoritos satisfechos” que desfrutam do legado da civilização sem ter a menor idéia de como foi conquistado e, por ignorância das condições que o geraram, acabam por destruí-lo. O típico representante da moderna  classe média, o “homem massa”, era realmente um filhinho-de-papai, um  señorito satisfecho que se julgava herdeiro legítimo de todos os  benefícios da civilização moderna para os quais não havia contribuído em absolutamente nada, pelos quais não tinha de pagar coisa nenhuma e dos  quais, geralmente, ignorava tudo quanto aos sacrifícios que os  produziram.O señorito satisfecho é corroído por um profundo ódio a si  mesmo, mas está proibido, pela cultura vigente, de perceber a verdadeira natureza de suas culpas, e mais ainda de aliviá-las mediante a  confissão religiosa e o cumprimento de deveres penitenciais. A culpa mal conscientizada, conforme a psicanálise demonstrou vezes sem conta,  acaba sempre se exteriorizando como fantasia persecutória e acusatória  projetada sobre os outros, sobre “o mundo” sobre “o sistema”.O homem  medianamente instruído do nosso tempo joga suas culpas sobre “o  sistema”, fingindo para si mesmo que está revoltado pelo que ele nega  aos pobres, quando na realidade o odeia por aquilo que esse sistema lhe  dá sem exigir nada em troca. Não que o sistema seja isento de culpas;  mas a mesma prosperidade geral que espalha os benefícios da civilização  entre massas crescentes que jamais poderiam sonhar com isso nos séculos  anteriores mostra que essas culpas não são de ordem econômica, mas  cultural: o capitalismo não cria miséria e sim riqueza; mas junto com  ela espalha o laicismo e o permissivismo, rompendo o equilíbrio entre o  prazer e o sacrifício, necessidade básica da psique humana. Daí o  aparente paradoxo de que o ódio ao sistema se dissemine principalmente – ou exclusivamente – entre as classes que dele mais se beneficiam  materialmente. A tentação socialista aparece aí como o canal mais  fácil por onde as culpas do filhinho-de-papai são jogadas precisamente  sobre as fontes do seu bem-estar e da sua liberdade.

Vejam essa meninada da USP, gente de classe média e alta, depredando uma universidade  gratuita, e compreenderão do que estou falando: o que esses garotos  precisam não é de mais benefícios; é de uma cobrança moral que restaure a sua sanidade. Mas, como os representantes do Estado são eles próprios  señoritos satisfechos que também não compreendem a origem das suas  próprias culpas, sua tendência é fazer dos jovens enragés um símbolo da  sua própria consciência moral faltante; daí que lhes cedam tudo, num  arremedo de penitência, corrompendo-os e corrompendo-se cada vez mais e  precipitando uma acumulação de culpas que só pode culminar na suprema  culpa da sangueira revolucionária. “Vivemos num mundo demente, e sabemos perfeitamente disso”, dizia Jan Huizinga na década de 30, pouco antes  que o desequilíbrio da alma européia desaguasse no morticínio geral.  Transcorridas quase oito décadas, a humanidade ocidental nada aprendeu  com a experiência e está pronta a repeti-la. Hipnotizada pela lógica do  desejo, que não enxerga cura para os males senão na busca de mais  satisfações e mais liberdade, como poderia ela descobrir que seu  problema não é falta de bens ou prazeres, mas falta de deveres e  sacrifícios que restaurem o sentido da vida e a integridade da alma?

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