domingo, 15 de setembro de 2013

Por que o marxismo é uma religião

Por André,


As principais premissas do marxismo formam o corpo de uma corrente intelectual séria? Seus militantes devem fazer parte do debate acadêmico legítimo ou serem tratados como ideólogos que beiram o fanatismo de tipo religioso?

Observemos a constatação de Roger Scruton em Thinkers of the New Left:

"Consideremos as teorias de Marx. Desde seu primeiro anúncio, têm despertado controvérsia das mais vivas e é improvável que tenham permanecido intocadas. De fato, me parece que todas as teorias de Marx já foram refutadas em sua essência: a teoria da história por Maitland, Weber e Sombart; a teoria do valor por Böhm-Bawerk, Mises, Sraffa e muitos outros; a teoria da consciência falsa, alienação e conflito de classe por um vasto grupo de pensadores, de Mallock e Sombart a Popper, Hayek e Aron." [SCRUTON, 1985, p. 5]

Quando li Scruton citando todas esses críticos do marxismo, pensei: quantos dos marxistas que conheço já, ao menos, ouviram falar desses autores (considerando, por exemplo, que eu conheço apenas alguns deles)? E quantos já se deram ao trabalho de estudar as críticas e ao menos atribuir réplicas razoáveis? O intelectual tem o dever de lidar com as críticas, o militante, de ao menos conferir o poder dessas ideias, e se estiver a militar por um embuste?

Já comentei o porquê dessa postura insistente dos marxistas em Por que Marx persiste.

Outro aspecto curioso atrelado a este fato é que esquerdistas de baixo calão (praticamente a totalidade dos nacionais) costumam citar dois ou três intelectuais como referência à sobre-vida do marxismo, um Zizek e um Chomsky (cuja grande área de atuação é a linguística, no quesito política é apenas um bom polemista), ainda podem citar (quando muito) um Ernesto Laclau e um Antonio Negri, que embora recebam a alcunha de marxistas, já modificaram o suficiente a teoria do mestre (a formação da classe em Laclau, por exemplo).

Ainda gostam de citar o livreto (que não é de todo ruim) do professor britânico de literatura Terry Eagleton (que recentemente debateu com Roger Scruton) "Porque Marx estava certo", a despeito de embelezar Marx, tentar (como todas as outras tentativas, com pouquíssimo sucesso) justificar o morticínio soviético, Eagleton não lida com as críticas dos pensadores citados e o título do seu livro indica que o autor mais recomendado para ele é Popper! Sim, Marx estava "certo", na mesma medida que um crente fanático alega estar certo de que Deus curou seu ente querido, caso ele sobreviva a uma doença grave e também está certo quando seu ente querido morre e a explicação é porque "Deus o levou". A hipótese é infalsificável (eis porque chamar marxismo de ciência é uma piada); o mesmo se aplica ao marxismo. Ele está "certo" porque está "sempre certo". Uma afirmação que pode ser atestada tanto por A quanto por não-A não é digna de seriedade intelectual.

Scruton segue:

"Nem todos esses críticos [apresentados na citação anterior] podem ser postados à direita do espectro político, tampouco todos eles são hostis à ideia de 'justiça social'. Contudo, nenhum deles, até onde sei, foi respondido pela Nova Esquerda com nada mais persuasivo que um sorriso sarcástico. E isto não ocorre porque a Nova Esquerda coloca o marxismo clássico como um defunto e as discussões de suas premissas como algo ocioso"

(...)

O mínimo que podemos dizer é que não estamos a lidar com um sistema de crenças racionalmente embasado. Como tento mostrar, as proposições que importam para o pensamento de esquerda são precisamente aquelas que não podem ser questionadas. O marxismo-leninismo, por exemplo, afirma que as crenças fundamentais têm o status de ciência. Contudo, é claro para qualquer observador neutro que estas crenças foram colocadas para além da ciência, num reino de autoridade absoluta que não pode ser adentrado pelos não-iniciados. Os marxistas se referem a esta esfera santa de cunho autoritário não como uma crença ou uma teoria, mas como práxis: a doutrina se tornou inseparável da ação revolucionária. A práxis é o equivalente marxista da fé." [idem, p. 5]

Tudo isso serve para provar apenas uma coisa: um sujeito que se defina como "marxista clássico" não é digno de debate sério. Se o sujeito for de um calibre de um Negri ou Laclau, deve ter ideias próprias o suficiente para estar devidamente separado do mestre e o militante pode ser descartado como ignorante ou "fellow traveler" como devem ser todos de todas as ideologias, estes são como "homens-bomba" da 'ciência' - estão imunes a qualquer argumentação racional.

A referência para o excelente livro de Scruton citado aqui é essa (um livro em que Scruton, com artigos de não mais que 15 páginas, destrói e mumifica todos os gurus da 'Nova Esquerda', entre eles: Gramsci, Foucault, Lucáks, Althusser, Dworking, Habermas e Sartre):

SCRUTON, Roger. Thinkers of the New Left. UK: Longman, 1985.

E em termos de crítica ao marxismo e de como ele se traduz perfeitamente no esquema de uma religião de tipo gnóstico, recomendo as críticas arrebatadoras de Eric Voegelin:


Um comentário:

1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.