terça-feira, 15 de outubro de 2013

Eric Voegelin e a amizade com comunistas

Por André,

Eric Voegelin, autor de 'História das Ideias Políticas' - livro que qualquer um que queira se pronunciar sobre política deve ler ou calar caso não o faça.

Eric Voegelin conta, em suas Reflexões Autobiográficas, o desfecho de uma conversa com seus colegas de universidade marxistas: 
Ainda me lembro de uma cena nos anos 30 em que, após um entusiástico debate que terminou em desacordo, um desses rapazes, não muito mais jovem do que eu, exclamou, com lágrimas nos olhos: "E quando chegarmos ao poder teremos de matá-lo!". (VOEGELIN, 2008, p. 130)
Como já tive a oportunidade de afirmar em outros lugares, as únicas opções para um sujeito ser marxista hoje são: a) ser um idiota útil, um crente sincero (honesto porém ingênuo) na eficácia do projeto político-econômico do marxismo ou b) um desonesto, alguém que sabe que o projeto marxista já foi solapado (há pelo menos 70, 80 anos), mas que como tem a ganhar (dinheiro, reconhecimento, cargos, bolsas etc. etc.), segue a defender a ideologia como uma crença religiosa.

Numa possível relação de amigos, a escolha deve ser feita (desconsiderando, por ora, o assassinato vindouro): se A, o sujeito é extremamente ignorante e se encontra amplamente alheio a um debate de décadas na Europa (como mostro no post 'Por que o marxismo é uma religião'), após 70 anos de debate e o funeral da pseudociência marxista, o sujeito tem de estar extremamente isolado do mundo acadêmico sério, o que certamente é um entrave para uma amizade proveitosa. Se B, a coisa é mais óbvia e ainda mais assustadora, não gosto de ter gente desonesta na minha lista de amigos (e acredito que a menos que a desonestidade seja recíproca, isso é válido para todos).

Contudo, a fala citada por Voegelin é nuclear para a discussão: marxistas acreditam no determinismo econômico; nossas ideias são determinadas pela nossa condição econômica, a religião é o ópio do povo porque o povo vive em condição indigna e projeta uma proteção celestial e um futuro vindouro onde tudo será lindo (opa, sim, eu sei, você também conhece essa promessa de algum outro lugar), é uma necessidade criada pelas condições materiais das massas que é, atualmente, o oposto daquilo assegurado pela religião.

Disso segue, naturalmente, o caráter sanguinário da revolução. Não existe revolução parcial; se for revolução, terá de ser para todos, com consequências para todos. Surge o problema: "e os que se opuserem aos 'novos ares'?". Têm de ser eliminados.  O sonho de verão do tipo que descrevi em A começa a ruir aí (e este, o idiotá útil, essencial ao processo como um todo, forma o pior tipo de opositor que o sistema pode ter - ninguém é mais reacionário que o ex-revolucionário). É claro que, no contexto revolucionário, toda "violência do bem" é permitida (o quebra-quebra dos manifestantes profissionais está aí para provar), toda agressão contra os grandes Satãs autorizada, tornando a contradição entre "querer um mundo melhor" e "destruir partes desse mundo" viável na mente dialética revolucionária.

Mantém-se a afirmação do "amigo" de Voegelin: se o sujeito for comunista (e por favor, não perca seu tempo afirmando que eles não existem e não seguem tão fiéis quanto sempre foram: você não ~se diz~ comunista mas age como um, pensa como um e se identifica com a agenda deles; e ainda acredita em TODOS os rituais marxistas - mormente 'exploração do trabalho' e 'mais-valia'), ele não vai te enxergar como um fim em si mesmo (Kant, Rand), i.e., como um ser humano, mas como um MEIO para atingir seu objetivo maior, a saber, o mundo melhor que com certeza virá após a destruição completa (reforminha é coisa de burguês, não esqueçamos) deste aqui. Mal-aventurado daquele que se opuser ao mundo melhor, os executores do bem terão de te executar também.

Ainda, no artigo "Nós e eles, ou a dupla moralidade", Olavo de Carvalho aponta para um interessante aspecto da mentalidade revolucionária. Trata-se da sua ética do "aos amigos as flores, aos inimigos as leis":

Desde sua remota origem nos clubes de debates do século XVIII, a comunidade dos revolucionários e progressistas, sempre alegando falar em nome de todos os homens e romper as barreiras sociais que os separam, tem sido uma das mais excludentes e discriminatórias, ao ponto de professar abertamente a dupla moral: uma para “nós”, outra para “eles”. 
Lênin expõe o princípio, com seu cinismo costumeiro, neste parágrafo das Selected Works (Vol. III, pp. 486 ss.): 
“É errado escrever sobre companheiros de Partido numa linguagem que sistematicamente dissemine entre as massas trabalhadoras o ódio, a aversão e o desprezo àqueles que sustentam opiniões divergentes. Mas pode-se e deve-seescrever nesse tom sobre organizações dissidentes...” Neste caso, prossegue Lênin, deve-se falar numa linguagem “calculada para despertar contra o oponente os piores pensamentos, as piores suspeitas; não para corrigir-lhe os erros, mas para destrui-lo, para varrer sua organização da face da Terra”. 
Ou seja: o direito a uma discussão honesta é privilégio dos fiéis. Contra inimigos e infiéis, vale tudo: não somente o militante despejará em cima deles todo o arsenal de falácias erísticas que no debate interno seriam cuidadosamente evitadas, mas ainda recorrerá à calúnia, à difamação, à intimidação, ao boicote e à chantagem, com a boa consciência de quem estivesse sendo até justo e bondoso demais para com adversários que, em melhores circunstâncias, ele teria a obrigação de matar. 
Fora dos círculos dos eleitos, a polêmica de esquerda é nada mais que homicídio adiado ou, na hipótese mais branda, sublimado. 
Chega a ser fantástico que, nos meios cristãos, tanta gente nos anos 60 professasse acreditar na possibilidade de um diálogo franco com os marxistas, quando o próprio Karl Marx já havia anunciado que as “armas da crítica” se destinam apenas a aplanar o caminho para a “crítica pelas armas”. Esse “diálogo” serviu apenas para desarmar os cristãos ante os genocídios que se seguiram na China, no Camboja e na Coréia do Norte, contra os quais a hierarquia católica, por medo de ferir suscetibilidades comunistas, nada fez. 
O princípio leninista da dupla moral foi repetido, sob diferentes formas, por uma infinidade de intelectuais ativistas, entre os quais me vêm agora à memória Paulo Freire (“devemos ser tolerantes, mas não com os nossos inimigos”) e Herbert Marcuse (“tolerância libertadora significa: toda tolerância para com a esquerda, nenhuma para com a direita”). 
Esse princípio vigora ainda não só em regimes como o de Cuba ou da Coréia do Norte, mas em qualquer grupo ativista que tenha recebido a influência do marxismo e, de modo geral, em todo o universo da “esquerda”. Os procedimentos repressivos criados no início do século XX como técnicas partidárias para o domínio do Estado foram-se disseminando por esse círculo mais amplo até tornar-se hábitos culturais introjetados, que incluem a defesa automática contra o seu próprio desmascaramento. Sob a inspiração de Antonio Gramsci, sua aplicação, antes restrita ao domínio da luta política explícita, foi estendida a todos os domínios da existência, de modo a fazer da guerra cultural uma guerra total, na qual até sentimentos pessoais e trejeitos de linguagem servem para identificar amigos e inimigos e facilitar a demarcação do território permitido a estes últimos. Mais recentemente, a dissolução do monolitismo partidário e a adoção da organização mais flexível em “redes” permitiram que esses mecanismos se tornassem ainda mais opressivos e eficientes, já que não são aplicados por iniciativa de uma cúpula partidária identificável, mas se espalham entre os ativistas pela pressão anônima e “democrática” dos seus iguais e adquirem com isso aquela invisibilidade que os imuniza a toda crítica. 
O efeito psicológico disso na conduta dos ativistas é assustador: eles podem se sentir, com toda a sinceridade, uma minoria perseguida, injustiçada e ameaçada justamente no momento em que dominam tudo e têm os adversários subjugados a seus pés. A dupla moral infla-se aí em inversão psicótica da realidade, produzindo declarações como esta do ator Antonio Abujamra à revista Top Magazine : “Prefiro antes a censura da polícia do que a censura dos intelectuais. Intelectuais de direita são péssimos.” A realidade é que no tempo da ditadura os intelectuais de direita -- um Adonias Filho, um Gilberto Freyre, um Antônio Olinto, um Roberto Marinho, um Júlio de Mesquita Filho, um Sobral Pinto, um Miguel Reale e tantos outros -- se arriscaram para defender a liberdade de esquerdistas ameaçados, enquanto estes, saídos do porão para a glória, não apenas se esquivam de retribuir a amabilidade mas dão livre curso à urgência compulsiva de sufocar as vozes de seus adversários. O próprio Abujamra, se usasse de seu programa na TV para dar a um deles a oportunidade de se explicar, sentiria talvez a dor na consciência de quem houvesse, por fraqueza humana, traído um mandamento sagrado. Ao acusar os intelectuais de direita daquilo que nunca fizeram, daquilo precisamente que os intelectuais de esquerda fazem com eles, Abujamra está não apenas ilustrando em pessoa a dupla moral, mas pondo em prática um outro e complementar preceito da retórica leninista, que resume às mil maravilhas o tratamento que o ativista de esquerda deve dar aos inimigos: “Acuse-os daquilo que você faz, xingue-os daquilo que você é.”

2 comentários:

  1. Ultimamente tenho questionado minhas amizades com indivíduos de centro-esquerda, como os sociais-democratas (com os comunista já não me relaciono há anos).

    Tenho um conhecido de esquerda (embora ele não se assuma como esquerdista) que reconhece a importância de um ambiente econômico e institucional mais favorável às empresas, defende a responsabilidade fiscal, assume a necessidade de se reduzir impostos etc. Entretanto, vez por outra, esse indivíduo tece certas declarações permeadas pelo ranço ideológico marxista, como críticas à "elite", condenações ao "neoliberalismo" e, mais recentemente, críticas aos judeus e ao estado de Israel.

    Bem, acontece que não sou um sujeito muito tolerante. Ademais, não suporto perseguições contra gente que subiu na vida honestamente, o que inclui generalizações negativas acerca da “elite”, e, acima de tudo, sou um ardoroso admirador do povo judeu e de Israel. Antissemitismo é algo que faz meu sangue ferver.

    O esquerdista “meio termo” é tão perigoso quanto o esquerdista radical. Os radicais ao menos são uma ameaça facilmente identificável, ao contrário do social-democrata ou do indivíduo de centro esquerda que muitas vezes passa despercebido mas, bem lá no fundo, carrega todos os vícios da esquerda.

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    1. correção: "(com os comunistas já não me relaciono há anos)"

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1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.