domingo, 10 de novembro de 2013

Destronando um deus da "New Left": Michel Foucault

Por André,


Michel Foucault é um dos deuses da atual academia de humanidades. Parte dessa atmosfera irracionalista pós-moderna se deve à disseminação do pensamento de Foucault. É bem conhecido por suas reflexões sobre a sexualidade e a supressão dela (História da Sexualidade; em três volumes), sobre estruturas de poder que agem sobre a esfera do indivíduo (Microfísica do Poder, Vigiar e Punir), sobre a loucura (sua tese de doutorado, A História da Loucura) e outras reflexões menos famosas.

Ao contrário de tudo que poderíamos esperar de pessoas que fazem chacota da possibilidade de se saber a verdade, a palavra de Foucault é sagrada e a representação última da sabedoria para alguns acadêmicos; o filósofo é tratado como um guru (tratamento igualmente aplicado, talvez, apenas a Marx e Freud) e seus conceitos são repetidos de maneira vazia e imprecisa (bem-vindos ao pós-modernismo) a torto e a direito - experimente questionar a palavra do Mestre e o alarme "reacionário" vai soar.

Já conhecia a crítica avassaladora de Roger Scruton a Foucault, primeiro a alusão entre a contradição entre a teoria de Foucault e sua prática de vida (pensadores e militantes alinhados à esquerda do espectro contradizendo suas teorias com suas práticas - what's so new?) em O que aconteceu com a Razão e depois a pura redução a pó do guru esquerdista em Thinkers of the New Left (p. 31-45) - nesta última referência, Scruton mostra como, malgrado as críticas marxistas a Foucault, o essencial da obra do francês se reduz a uma repasteurização de velhos conceitos de Marx como exploração do trabalho e conflito de classe).

Hoje mesmo me deparei com um livrinho que sintetiza as contradições do xamã, trata-se do A Longevidade de uma Impostura: Michel Foucault e o outro Foucófilos e Foucólatras, dividido em duas partes, na primeira as contradições internas do pensamento de Foucault são expostas, na segunda a idolatria de seus seguidores é igualmente esmiuçada. O autor é o professor francês Jean-Marc Mandosio. Um dos autores que serviu à crítica de Mandosio é a análise de Foucault  feita por José Guilherme Merquior. Uma resenha do livro pode ser conferida aqui. Alguns trechos da resenha merecem citação a parte:

Ele [Mandosio] refuta a teoria das epistemes históricas contidas nas obras consideradas estruturalistas de Foucault, sua “genealogia” e “arqueologia”, principalmente As Palavras e as Coisas (1987a) e Arqueologia do Saber (1987b). As inconsistências das “idades” inventadas por Foucault na primeira obra acima é explicitada por Mandosio, bem como uma apresentação de foucaultianos e outros que, inclusive reconhecendo sua inaplicabilidade ao processo histórico concreto, lançam mão da obra do “Mestre”, que, aliás, recordam o personagem que repetia infinitamente esta palavra no filme de Drácula,Morto mas Feliz (Mel Brooks, EUA, 1995).
Embora a alegada distanciação entre Foucault e a esquerda marxista tradicional (alguém realmente acredita nisso?), diversas passagens de sua biografia depõem em contrário:

Seria desnecessário elencar todas as peripécias de Foucault reveladas por Mandosio, tal como sua aproximação com os maoistas (e estruturalistas “marxistas”, ligados aos grupos althusseriano e lacaniano) e as atividades acadêmicas efetivadas sob sua direção nesse período, tal como um curso sobre “A dialética materialista e a criação de porcos”... Sem dúvida, os demais períodos também são retratados e mostra como Foucault caminhava de acordo com o sabor das modas (a originalidade de Foucault também é questionada por Mandosio), mostrando seus zigue-zagues ideológicos e práticos, passando ao pós-estruturalismo (ou “pós-modernismo”) e seus malabarismos até sua morte, em 1984, inclusive sua pretensão de conseguir cargo no governo do Partido Socialista Francês, em coligação com o Partido Comunista Francês, antes rejeitados pelo ideólogo da “microfísica do poder”.
O carnaval de conceitos crípticos e ininteligíveis não pode escapar à análise de um filósofo pós-moderno. O fenômeno não escapou dos olhos críticos de Mandosio:

 Mandosio também oferece apontamentos críticos interessantes sobre a microfísica do poder foucaultiana e outras obras e concepções, presentes principalmente na coletânea sobre poder (Foucault, 1989) e seu livro sobres as prisões (Foucault, 1983). Ele centra sua crítica aos termos “governamentalidade” e “biopolítica”, “dois excelentes exemplos de proliferação conceitual”, que hoje são usadas “a torto e a direito para dar aparência de profundidade filosófica a discursos que dela carecem cruelmente” (Mandosio, 2011, p. 66). Mandosio critica o uso destes termos e a razão pela qual são utilizáveis, sua imprecisão e até mesmo confusão entre os dois termos.
Uma última citação, arrebatadora e que mostra a esquizofrenia dos neointelectuais da nova esquerda, endeusam um sujeito que, aos olhos do Mestre-mór não passaria de um ideólogo barato:

Podemos encerrar com a seguinte frase: “o principal talento de Foucault sem dúvida terá sido dar uma forma filosófico-literária aos lugares comuns de uma época” (Mandosio, 2011, p. 76). Este é justo o papel que Marx (1988) atribuía aos ideólogos: transformar as representações cotidianas ilusórias em ideologia, dando-lhe sistematicidade.

Para quem quiser outras mumificações críticas de outros gurus da Nova Esquerda (Habermas, Sartre, Dworkin, Althusser etc) torno a recomendar o livro Thinkers of the New Left de Roger Scruton, publicado em 1993 (!!). Para um destronamento arrebatador de Freud, a recomendação (a mais recente, talvez não a melhor) Le Crepuscule d'une Idole - L'Affabulation Freudienne (O Crepúsculo de um Ídolo - A Fabulação Freudiana) de Michel Onfray.

2 comentários:

  1. Excelente texto. Roger Scruton é um dos maiores filósofos da atualidade e é uma pena (talvez um crime) que seus livros não sejam publicados por aqui nestes "tristes trópicos". Suas ideias mudariam a vida de muitas pessoas e talvez pudessem salvar o ensino superior brasileiro. Estudei em uma universidade católica - e o que impera nas cadeiras de humanidades são autores marxistas; adorados como ídolos sobrenaturais. Nem mesmo os professores percebem sua pobreza intelectual, pois o mercado editorial brasileiro está atrasado, pelo menos, em setenta anos.Quem não pode ler livros escritos em outros idiomas não imagina o tamanho da corrupção que rege a vida intelectual do Brasil contemporâneo.

    ResponderExcluir
  2. Pelo que entendi do texto todo, tentando não defender Foucault, o problema não ele em sí mas a idolatria que se cria em torno dele, criticas e apontamentos a filosofia de alguém é algo mais que normal e muito benefico no meio científico e literário... Não conheço nenhum autor que não tenha escapado disso, até Platão, Sócrates etc são alvos disso. Gosto das idéias de Foucault, mas considerar ele (e qualquer outro) um guru como se faz hoje em dia acho eu um tremendo erro.

    ResponderExcluir

1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.