sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Novo livro de Steven Pinker "Os anjos de nossa natureza" afirma que liberais são mais inteligentes

Por André,


Trecho do 9º capítulo do livro "The Better Angels of Our Nature", escrita pelo psicólogo e linguista canadense Steven Pinker, professor de Harvard, nomeado recentemente uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela Revista Time.

"Agora chegamos a um achado que soa mais tendencioso do que é: pessoas mais inteligentes são mais liberais**. A afirmação fará os conservadores se enfurecer, não só porque parece contestar sua inteligência, mas também porque eles podem objetar, legitimamente, que muitos cientistas sociais (que são em sua esmagadora maioria liberais ou esquerdistas) usam suas pesquisas para aplicar golpes baixos na direita, estudando o conservadorismo como se ele fosse uma deficiência mental (Tetlock e também Haidt chamaram atenção para essa politização). Assim, antes de retornar às evidências que relacionam inteligência e liberalismo, permita-me restringir a conexão.

Em primeiro lugar, na medida em que a inteligência está relacionada com a classe social, qualquer correlação com o liberalismo, caso não seja estatisticamente controlada, pode simplesmente refletir os preconceitos políticos da classe média alta. Mas a restrição decisiva é que a escada rolante da razão prevê apenas que a inteligência se relacionaria com o liberalismo clássico, que valoriza a autonomia e o bem-estar dos indivíduos acima das restrições de tribo, autoridade e tradição. Espera-se que a inteligência tenha relação com o liberalismo clássico porque este é em si uma consequência da intercambialidade de perspectivas que é inerente à razão enquanto tal. A inteligência não precisa ser correlacionada com outras ideologias que se amontoam nas coalizões de centro-esquerda contemporâneas, como o populismo, o socialismo, o politicamente correto, as políticas de identidade e o movimento verde. Na verdade, o liberalismo clássico é às vezes inerente às facções libertárias e contrárias ao politicamente correto nas atuais coalizões à direita do centro. Mas no conjunto as pesquisas de Haidt mostram que são as pessoas que identificam suas políticas com a palavra “liberal” que mais se inclinam a enfatizar a equidade e a autonomia, virtudes supremas do liberalismo clássico, em detrimento da comunidade, da autoridade e da pureza. E, conforme vimos no capítulo 7, os autodenominados liberais estão nos primeiros postos nas questões ligadas à autonomia pessoal, com as posições que eles iniciaram décadas atrás sendo cada vez mais aceitas pelos conservadores de hoje.

O psicólogo Satoshi Kanazawa analisou dois grandes bancos de dados estadunidenses e encontrou, em ambos, correlações entre a inteligência e o liberalismo político dos entrevistados, tabulando-se como estatisticamente constantes a idade, sexo, raça, escolaridade, renda e religião. Entre mais de 20 mil jovens adultos que tinham participado do National Longitudinal Study of Adolescent Health [Estudo Nacional Longitudinal sobre a Saúde do Adolescente], o qi médio se elevava de modo constante, dos que se identificavam como “muito conservadores” (94,8) para os que diziam ser “muito liberais” (106,4). A pesquisa General Social Survey mostra uma correlação semelhante, embora contendo um acréscimo de que a inteligência acompanha mais de perto o liberalismo clássico que o liberalismo de esquerda. Os entrevistados mais inteligentes eram menos inclinados a concordar com a afirmação (esquerdista, mas não liberal clássica) de que o governo tem a responsabilidade de redistribuir a renda dos ricos para os pobres, enquanto se inclinavam mais a concordar que o governo devia ajudar os negros americanos a compensar a discriminação histórica que sofreram (uma posição liberal que é especificamente motivada pelo valor da equidade).

Uma melhor evidência de que a inteligência causa — mais do que simplesmente relaciona-se com — atitudes liberais clássicas vem das análises do psicólogo Ian Deary e seus colegas, em um banco de dados que incluía todas as crianças nascidas na Grã-Bretanha em uma determinada semana de 1970. O título de seu artigo diz tudo: “Bright Children Become Enlightened Adults” [Crianças brilhantes tornam-se adultos esclarecidos]. Por “esclarecidos” eles entendem a mentalidade do Iluminismo, que definem, acompanhando o Concise Oxford Dictionary, como “uma filosofia que enfatiza a razão e o individualismo mais que a tradição”. Eles concluíram que o qi das crianças aos dez anos (incluindo testes de raciocínio abstrato) prenunciava sua adesão a atitudes antirracistas, socialmente liberais e pró-mulheres ao chegarem aos trinta anos, mantidas constantes as variáveis de educação, classe social dos entrevistados e classe social de seus pais. Os controles socioeconômicos, ao lado do intervalo de vinte anos entre a aferição da inteligência e a pesquisa das atitudes, produzem um indicador, prima facie, de que o processo causal parte da inteligência para o liberalismo clássico. Uma segunda análise descobriu em quem as crianças de dez anos se inclinavam a votar quando adultas: mais nos liberais-democratas (uma coalizão de centro-esquerda/libertária) ou nos verdes, e menos nos partidos nacionalistas ou anti-imigrantes. Mais uma vez, fica uma sugestão de que a inteligência conduz mais ao liberalismo clássico que ao de esquerda. Quando a classe social era tabulada, a correlação qi-verdes desaparecia, mas a qi-liberais-democratas se mantinha.

E agora uma correlação que aborrecerá a esquerda tanto quanto a do liberalismo aborreceu a direita. O economista Bryan Caplan também examinou os dados da General Social Survey e concluiu que as pessoas mais inteligentes tendem a pensar mais como economistas (mesmo após controles estatísticos das variáveis de educação, renda, sexo, partido político e orientação política). Elas são mais simpáticas à imigração, a mercados livres e ao livre-comércio, e menos simpáticas ao protecionismo, a políticas de emprego e a intervenções do governo nos negócios. Naturalmente, nenhuma dessas posições se relaciona diretamente com a violência. Mas, se alguém se distancia para abarcar todo o leque em que se encontram essas posições, poderá argumentar que a direção que se alinha com a inteligência é também aquela que historicamente apontou para a pacificação. Pensar como economista é aceitar do liberalismo clássico a teoria do comércio gentil, que advoga a soma positiva dos resultados do intercâmbio e o benefício por tabela de redes expansivas de cooperação. Isso se opõe às mentalidades populistas, nacionalistas e comunistas, que enxergam a riqueza do mundo como sendo de soma zero e inferem que o enriquecimento de um grupo tem de ser feito às custas de outro. O resultado histórico da ignorância econômica frequentemente tem sido violência étnica e de classe, quando as pessoas concluem que os sem posses só podem melhorar de vida confiscando pela força a riqueza dos possuidores e punindo-os por sua avareza."

** a palavra liberais (liberals, em inglês) têm uma conotação diferente nos EUA (é surpreendente como muitos "especialistas" da área ainda não sabem disso, as gafes de Safatle em seu debate com Molyneux demonstram a ignorância brasileira acerca do mais elementar do debate político atual). Todas as características que você imputa, no Brasil e na Europa, a um esquerdista, representa um "liberal" nos EUA. O partido democrata é "liberal", Obama é um "liberal". Para distinguir (Pinker faz isso ao longo do texto) pode-se usar "liberal clássico" ou "libertário" (que também são coisas diferentes).

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