terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O problema da definição. Como a política de cotas pode colapsar

Por André,

O dia da "consciência" (aposto uma bagatela que o pessoal que arrota essa palavra a torto e a direito por esses dias não sabe uma linha sequer sobre o que é a consciência, conhecendo apenas seu significado mais pobre e ideológico) negra. Também circulou por esses dias na internet um vídeo de um sujeitinho muito tosco (custei a acreditar que a história do vídeo era real) chamado Craig Cobb e tido como "supremacista branco", onde o mesmo está num programa de TV e após ser submetido a um teste de DNA, o sujeito descobre que tem uma porcentagem razoável de ascendência africana:


A despeito da imensa estupidez do indivíduo, pensemos na seguinte conclusão, perfeitamente legítima e razoável: na medida em que este tem em torno de 20% de ascendência africana, pode ser considerado um "afrodescendente", certo? O depoimento genético é ainda mais firme que uma mera impressão visual ou uma declaração subjetiva.

Richard Dawkins em seu The Ancestor's Tale afirma uma obviedade: para um visitante alienígena não há diferença étnica visível entre Colin Powell ("afrodescendente") e George Bush ("caucasiano").
Enquanto asseguradamente afrodescendente, Craig Cobb poderia se beneficiar das políticas sociais e de ações afirmativas para negros?

Se não, qual seria a justificativa OBJETIVA para tanto? É afrodescendente e isso é um fato objetivamente atestado.

Se sim, por que simplesmente TODOS não podem se declarar afrodescendentes e se beneficiar das ações afirmativas? O percentual da população com 0,0% de ascendência africana deve ser mínimo; no Brasil talvez nulo (a composição étnica oferecida pela wikipédia indica 50,7% de negros e pardos, ou seja, afrodescendentes. Considerando as origens brasileiras e o caso Cobb, certamente a metade dos 47% de brancos "restantes" poderiam se declarar afrodescendentes de forma legítima).

E na verdade a coisa é ainda pior: se tudo é uma questão de se DECLARAR afrodescendente, sob quais bases (objetivas) seria rejeitada uma declaração em massa de afrodescendência? Qual a definição objetiva de "afrodescendência"? Colin Powell se encaixa nela? Obama? Os mulatos?

Como acredito que todas essas políticas são criadas com o exato propósito de falhar, pois seus proponentes são especialistas numa velha estratégia política: criar um caos e uma desordem tal que só o aumento de poder na mão deles próprios será capaz de sanar o problema, após anos de suas políticas, os problemas se mantém, só que muito mais graves que antes - as soluções são: mais Estado e o poder nas mãos dos "gênios" recém saídos dos departamentos de Humanas. Como afirma Thomas Sowell, exceto para exceções que confirmam a regra, um sujeito que recebe uma péssima educação a vida inteira, invariavelmente fracassará numa universidade de elite.

Um dos tentáculos dessa estratégia malévola é justamente esse: relativizar o direito o máximo possível. Ao fazer isso, o corredor para a corrupção se abre. Favores, indicações e coisas do tipo. Se o texto das leis for dúbio, a decisão passa exclusivamente para a mão dos juízes, que podem ser cooptados. É o caos instaurado.

Ver o implante de uma política evidentemente fadada ao fracasso separado de um quadro estratégico maior vai além da própria burrice: tanto de proponentes quanto de militantes.

Para quem quiser sair do senso comum universitário brasileiro sobre o tema, nunca é demais recomendar:

Thomas Sowell, que fez um estudo ÉPICO sobre o tema "ação afirmativa" ao redor do mundo:


E também Walter Williams, outro perito americano na matéria:




ADENDO DE 16/06/15:

Estourou na mídia americana o curioso caso de Rachel Dolezal, uma professora e militante do movimento negro que até então era considerada ela própria uma negra, mas que os pais resolveram revelar o verdadeiro genótipo da mulher. Segue a foto do antes e depois de Dolezal:



De certa forma meu texto inicial dessa postagem alertava que esse tipo de histeria se instalaria muito em breve. Na medida em que SENTIMENTOS passaram a ser o critério absoluto para questões como gênero e raça, o que impede qualquer um de se declarar membro da raça/gênero que bem desejar? Uma gorda parcela de cientistas sociais fez crescer essa bobajada pseudocientífica, o que se somou a uma longa marcha militante, particularmente da beatiful people - e também saída dos escritórios de "cientistas" sociais, para convencer a sociedade que no fundo no fundo todos nós somos racistas e preconceituosos e que devemos respeitar todo e qualquer sentimento das ditas minorias, inclusive sentimentos que firam a lógica, a razão, a física e a biologia.

No Brasil a discussão sobre cotas em universidades já está ultrapassada, as discussões hoje circulam muito mais em torno da hipótese da existência de cotas para praticamente todo e qualquer cargo público, o que implica a criação de um possível caos jurídico sem precedente. Se a exigência é por auto-declaração de pertencimento à raça X ou Y, quem vai contraprovar a auto-declaração (o que já destrói a própria noção de auto-declaração, se o critério for esse, cada um é livre para se autodeclarar o que bem entender) e como?

Conforme venho dizendo, pra mim isso é só a ponta do iceberg. Caso as coisas eventualmente melhorem (algo que não apostaria muitas fichas), ainda vão piorar bastante. Os casos dos chamados "justiçamentos sociais" estão apenas começando a emergir do mundo universitário para a realidade cotidiana. Como disse G.K. Chesterton, chegará um dia em que precisaremos provar às pessoas que a grama é verde. Esse dia chegou.

Um comentário:

1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.