terça-feira, 19 de novembro de 2013

Oito dicas para um humor respeitoso ou '"como praticar 'humor do bem'"

Por F5,

Já falei mal de stand-up brasileiro aqui muitas luas atrás, e minha opinião não mudou. Acho que o subdesenvolvimento de um país pode ser medido pela qualidade dos "comediantes em pé" e até vejo relação direta entre falta total de saneamento básico e falta absoluta de graça (quando não é canalizado, o cocô sai boiando por aí e se transforma em stand-up). Também não entendo gente que paga mais que uma corrida de táxi pra ouvir, sem sair do lugar, opiniões de taxista bronco em show de "humor" --o taxista pelo menos não se diz vítima do "politicamente correto", desculpa favorita de muito humorista ruim. 

Por outro lado, entendo quem se sente atraído pela perspectiva de uma carreira milionária fazendo humor. Quem não quer, como naquele desenho do Pica-Pau, uma vida cheia de "mulheres, automóveis, mulheres, iates, mulheres, mansões e mulheres"? Mas cuidado, amiguinho que quer ganhar a vida sendo engraçaralho: vivemos num país em que "Piada em Debate" deixou de ser um quadro da "TV Pirata" e acontece de verdade, e algumas pessoas parecem se indignar mais com piadas sobre crimes do que com os crimes em si. 

Sem nenhuma pretensão, aqui vão algumas dicas para que você faça humor respeitoso e não fira a sensibilidade de ninguém. Nem precisa me agradecer pelos honorários de advogado que você vai poupar. 

1. Para sua receita, você vai precisar de: a) um pesquisador do IBGE; b) uma planilha de Excel; c) o alvo da piada. Chame o pesquisador, com a planilha, e peça que ele entreviste o alvo de sua brincadeira. É preciso ter certeza de que ele não é pobre: os pobres já são suficientemente sacaneados pela vida. Se, porém, o alvo tiver renda mensal acima de R$ 291 --o limite definido pelo governo para a classe média-- não só pode como deve ser zoado sem dó. Classe média, essa gentalha que lê a "Veja", é a fonte de todos os males do país. 

2. Piadas com quem já foi pobre também estão proibidas. Para efeitos de humor, Lula, por exemplo, não é um líder político poderoso, chefe de um dos maiores partidos do país: é o garoto pobre que chegou de Garanhuns ontem. Por motivo semelhante, piadas com coisas como o álbum de casamento do Naldo com a Moranguinho estão vetadas (se bem que o Naldo, certamente, ri bem mais que vocês quando consulta o saldo bancário). 

3. Piadas com generalizações étnicas ou envolvendo comunidades: proibidíssimas. Aquelas que começam com "aí chegaram o português, o americano, o judeu, o turco e o brasileiro" têm de terminar, obrigatoriamente, com "e se reuniram na ONU para discutir a reforma do Conselho de Segurança", ou qualquer coisa assim. 

4. Piadas com papagaio: sem consulta prévia ao Ibama, nada feito. 

5. O humor tem que ser uma "ferramenta contra os poderosos". Mas, se a poderosa for a presidente do Brasil, também está proibido: piadas com a Dilma são sexistas por definição, mesmo que seja outra mulher fazendo. Está permitido, porém, fazer Twitter fake para bajular a mandatária: humor a favor é do bem, respeitoso e brasileiríssimo (mais brasileiro do que jabuticaba, falta de saneamento básico e esquistossomose). 

6. Se você insistir nessa coisa de humor político, tem que ser igual ao tempo de TV da propaganda eleitoral. Tirou sarro da Dilma? Dedique o mesmo tempo ou espaço de piada a algum tucano (molezinha: só pegar alguma daquelas fotos patéticas do Serra tentando se equilibrar sobre um skate, chutando bola e fazendo o sapato voar etc. E, claro, TODOS os políticos do Bananão merecem surra de saco de areia, ainda que verbal). 

7. Além das mulheres, negros e homossexuais também não devem ser alvo de piada, por razões óbvias. Mas veja que interessante: se por acaso eles não forem de esquerda (e se você for), essas características todas se anulam. Nesse caso, estão liberadíssimas tanto a piada como a esculhambação ampla, geral e irrestrita. 

Pode dar risada da morte da Thatcher (afinal, a Dama de Ferro nem era muito "mulher" mesmo), pode escrever que a colunista do jornal X é chata por "falta de homem", pode tratar o rival político supostamente gay como se essa condição fosse vergonhosa ("é casado? Tem filhos?"), pode chamar o ministro Joaquim Barbosa --aliás, eleitor de Lula-- de "capitão do mato". Afinal, você é um PROGRESSISTA, e todos têm plena consciência de que, se você está sendo racista, sexista e homofóbico, só pode ser de brincadeirinha. Não é? 

8. Por último: seja o Louis CK, que tem, além do óbvio talento, a grande vantagem de fazer piadas em outra língua e num país bem longe daqui. Recomendo nascer de novo e tentar reencarnar nele. Boa sorte!

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