quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Andrei Pleșu e o "intelectual abnegado"

Por André,

Descobri, por intermédio do grupo editorial É Realizações o autor romeno Andrei Pleșu. Texto preciso, agradável e com um senso estranho a muitos leitores. A qualidade da produção dos romenos é incrível (particularmente, até então, eu conhecia apenas Emil Cioran). O amigo William Campos da Cruz deu a dica deste trecho do filósofo, deveras curioso e ilustra bem boa parte da minha visão quanto a intelectualidade e a postura do intelectual diante do conhecimento:
O que temos de ter em mente, então, é que o funcionamento relativamente normal da vida intelectual sob as condições da marginalidade imposta pela ditadura comunista ocasiona uma experiência de marginalidade que, no caso dos países pequenos, não depende do comunismo, mas o precede. De qualquer forma, a partir desta combinação sui generis de dois tipos de marginalidade, surgiu uma espécie de intelectual que, nas sociedades ocidentais, já há muito saiu de moda e que, provavelmente, está prestes a desaparecer também no Leste Europeu. Eu o chamaria de “intelectual abnegado (nonprofit)” – um intelectual que faz seu trabalho sem nenhuma motivação externa, sem nenhuma finalidade palpável. Não delimita sua vocação de acordo com as prioridades do momento, não regula seus esforços sob a pressão de cronogramas fixos, não formula questões de maneira que garantam generosos patrocínios. Sob a influência alucinatória da especulação pura, livre da obsessão de ser competitivo e do ritmo mecânico da promoção acadêmica, este tipo de pesquisador não se integra facilmente na vida institucional. Ele é sua própria instituição. Na pior das hipóteses, ele se perde em brilhantes apresentações retóricas e corre o risco de se tornar um fracasso pitoresco. Mas, se for bem sucedido, seu sucesso é o sucesso da livre investigação, da abordagem pouco convencional, do imprevisto. O intelectual que tenho em mente não tem inibições quanto às fronteiras das disciplinas. Uma vez que aprendeu a sobreviver sem apoio oficial, não se sente responsável perante autoridades externas; sente-se justificado por seus dons e sua eficiência e não tem de prestar contas a respeito de sua “originalidade”. É um economista, mas se interessa por Edmund Husserl e Ludwig Wittgenstein; é um erudito classicista, mas também estuda a economia de mercado nos países pós-comunistas; é um físico muito interessado em literatura mística. Tem um critério e um motivo apenas: curiosidade, a curiositas que Cícero considerava a fonte do conhecimento desinteressado, nulla utilitate obiecta. O estudioso de hoje corre o risco de ser um erudito e deixar de ser curioso. O intelectual abnegado é mais fiel à tradição socrática, segundo a qual a pergunta é mais consistente que a resposta, o caminho é mais certo que o fim.
Andrei Pleșu

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