domingo, 12 de janeiro de 2014

Ainda sobre funk

Por André,

"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário."
George Orwell

Comentei ontem o veto do prefeito Haddad ao projeto que previu proibir bailes funk, o amigo Flavio Morgenstern fez o mesmo, só que com a maestria que lhe é característica. Quero retomar o tema para fazer mais alguns adendos de ordem filosófica e antropológica.

O especialista em música Régis Tadeu participou de um "debate" sobre o funk com as "Tequileiras" e com "MC Rodolfinho" num programa da Redetv. Não conheço o trabalho de Régis, mas o sujeito claramente é um entendedor do assunto música, tanto do ponto de vista técnico quanto histórico, ele segue o estilo "jurado linha-dura", marrento, exigente e de poucos sorrisos, esse é o estilo que ele faz quando trabalha como jurado no show de calouros do Raul Gil (ele é o Simon brasileiro do British Got Talent - a plateia vaia, xinga, mas os candidatos entram lá para impressioná-lo e saem de lá felizes quando recebem elogios dele). Régis é dono de um acervo pessoal de mais de 2.000 discos, certamente um estudioso da matéria.

Pois bem, ao "debate":


Vamos ignorar a total e completa falta de articulação e capacidade de argumentar dos convidados e partir para o que interessa. Após muito esforço, o que sobra dos "argumentos" em defesa do funk?

1) "mas as pessoas gostam" ou "temos público" - subjetivismo coletivo.

Isso certamente é verdade, mas de forma igualmente certa não depõe em favor da beleza estética do funk. Aliás, qualquer manifestação artística que precise recorrer ao apoio da voz popular, como se a Beleza/Arte/Cultura fosse algo decidido por maioria de votos, está num péssimo caminho.

Ademais, a maioria numérica das pessoas já gostou de muitas coisas admitidamente ruins. Por que no caso do funk isso serviria como critério de prova?

2) subjetivismo individual: "essa é a sua opinião, eu tenho a minha".

Num nível ainda inferior ao 1, apela-se ao puro sentimento individual de que sua opinião própria, mesmo que desprovida de argumentos sólidos, traz algum significado positivo à discussão.

É um argumento "imbatível", porém aplicável a QUALQUER coisa! Alguém que afirme que matar judeus é moralmente justificável porque estes são judeus não pode se defender da sua afirmação alegando que esta é apenas "sua" opinião e ponto final. O subjetivismo nada prova e legitima qualquer coisa.

3) apelo ao sensualismo e estetismo rasteiro.

Esse é um argumento com que os 'intelectuais' costumam flertar bastante (impossível não me remeter ao texto de Alexandre Borges "Mais uma jabuticaba brasileira: o sociólogo de entrevista" - 99% da classe intelectual "defensora" do funk é oriunda de alguma área das humanidades, cheio de fala malemolente e teorias mirabolantes - mas quantos experts em música do gabarito de Régis são convidados a opinar?).

No fundo, o funk é "lindo" porque é "agradável" aos olhos/ouvidos de alguns que o veem/ouvem. Por que é agradável? Porque ativa as áreas animalescas, do prazer sexual, daqueles que o assistem - ou tem, ou alega-se ter, uma "batida" agradável. Como os que assistem são, usualmente, pobres, é natural que o revolucionário que afirmar a verdade em duas frases ganhará uma empolada crítica dos intelectuais de boteco de plantão e causará críticas do tipo "fascista", "nazista" e "reacionário" aos que ousarem criticar o sensualismo que causa prazer nos pobres.

Hipnotismo sensualista
Está implícito no argumento que o funk não é grande coisa mesmo. Provavelmente não é belo nem possui qualquer outra virtude estética. Mas é agradável aos sentidos e nada mais importa. É a apoteose da sensação. Qualquer um deveria ver problema nisso, pedófilos sentem-se bem ao estuprar crianças, nazistas sentiam-se bem ao matar judeus. Desde quando o "sentir" pode ser critério racional para alguma coisa? Desde Aristóteles que sabemos que agir de maneira correta, isto é, moral, é justamente, não dar vazão às nossas "inclinações".

O defensor desse argumento é o mais perigoso de todos. É um "Stalin filosófico". Para ele as coisas não guardam qualquer valor por elas próprias, só o que importa é o que as pessoas depositam nela (que pode ser algo bom, algo ruim, hoje algo bom e amanhã algo ruim e assim sucessivamente). Se todos gostam, é bom.

Se você é incapaz de notar como esse argumento poderia municiar simplesmente QUALQUER coisa, inclusive, por exemplo, o nazismo (não, eu não estou comparando o funk ao nazismo, apenas mencionando que o argumento utilizado para defender um poderia tranquilamente ser usado para defender o outro), você está em sérios problemas.

MC Rodolfinho é quase um filósofo pós-moderno: é relativista, sensualista e adepto do estetismo rasteiro que denuncio aqui, quando Regis afirma que ele é destonado, o MC replica "eu não acho". Oras, estar fora do tom não é uma questão de "achar ou não achar", é um dado objetivo da realidade teorizado pela análise técnica da música.

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Que um certo grupos de intelectuais está empenhando em avançar contra a realidade ostensiva e pragmaticamente desde, no mínimo, a década de 60, é evidente. Mas pergunto aos mais desavisados que podem não ver "nada demais" em toda a história: se sabidamente o funk é esteticamente ruim e também é ruim do ponto de vista estritamente técnico da teoria musical, qual o interesse subjacente dos sociólogos e "senhores das humanidades" (mesmo que, muitas vezes, as letras de funk tenham teor machista e de "ostentação" - coisas que deveriam deixar a intelligentsia esquerdista de cabelo em pé) em defender o ritmo, senão algum ardil puramente ideológico?

2 comentários:

  1. Acho que você está dando muito valor a quem defende funk em "alto nível" - o pessoal da esquerda, os sociólogos, etc (alto nível entre aspas pq, bem, é o nível universitário, né, seja lá como for).
    Será que eles realmente têm esse "ardil puramente ideológico"? Eu acho que eles estão apenas se aproveitando pra aparecer. Pra capitalizar um pouco.
    Funk não é nem um movimento de massas. É coisa adolescente, pra zoar na balada, e nada mais. E é uma minoria que só tem ares de maioria por causa do volume do celular sem fone de ouvido no trem. Eles parecem uma legião pelo barulho, nem pela quantidade.

    E eu quase parei de ler quando você escreveu que essa merda ativa áreas animalescas, de prazer carnal, e é agradável aos sentidos. Em mim, só se for a parte animalesca referente a destruição.

    É uma pena que um debate (debate não, né. Talvez fosse um debate se o manipulador das cordas estivesse no lado funkeiro, e não as marionetes) desse tenha acontecido num canal secundário e em um horário onde só a tia Cotinha esteja assistindo televisão (ainda bem que existe a internet pra podermos assistir a isso). Eu acho que um debate desse deveria acontecer antes do Esquenta, da Globo. Ou do The Voice, que todo mundo assiste. Ou pelo menos no programa do Ratinho, que tem uma audiência razoável e um certo apelo popular (apesar que há o risco de virar tudo uma zona e aí favorecer o funk - e o engraçado é que quando há debates entre o Silas Malafaia e similares x algum deputado favorável à causa gay, o Ratinho claramente favorece o pastor, mas desconfio que, nessa situação entre um técnico musical e um funkeiro é capaz que o funkeiro se sairia melhor...)

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    1. Olha André, eu acho que como esses intelectuais de boteco sempre são uma minoria (ainda que uma minoria que sempre está em grandes programas pra falar sobre simplesmente TUDO - inclusive coisas que nada sabem), então posso estar sim supervalorizando a opinião dos caras. Mas a convivência com os caras não me deixa calar. Esses caras tão nesses centros de cultura financiados pela prefeitura, tão nas escolas e sempre estão em alguma entrevista falando sobre o que não sabem.

      Já estão saindo muitos trabalhos de pós-graduação sobre o tema, inclusive. E as teorias sociológicas mais mirabolantes para explicar por que os jovens gostam, porque as pessoas normais não gostam e, é claro, trazer o debate pro FlaxFlu ideológico: quem não gosta de funk são os reacionários, quem gosta e defende são os progressistas do bem.

      Por mais que o fenômeno seja isolado a jovens, ainda que alguns, a coisa tem ganhado contornos ideológicos claros (saca o debate sobre os "rolezinhos" que tá rolando agora) e desmascarar esse pessoal pro público honesto é importante.

      Quanto ao animalesco, dá uma olhada no link do Flavio Morgenstern, ele coloca umas imagens que ilustram a ideia. Aquela coisa do despertar nossa sexualidade atávica de cachorro no cio que simula sexo com a primeira perna que vê: uma bunda e vinte caras "secando" a bunda.

      Olha, também acho que o "debate" deveria ter ocorrido em melhor ocasião. Conversei com alguns alunos que estudam música a sério e o Régis é um sujeito muito competente no que faz, um estudioso do assunto. Achei importante ele opinar como opinou porque uma coisa é nós dizermos o que ele disse, por simples bom senso e ele, que tem condições técnicas de avaliar.

      Enfim, sei que as postagens do site tem assumido um tom conspiratório, mas acho importante esclarecer certos pontos e muitas vezes o pano de fundo fica apenas implícito.

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