quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O arrastãozinho nosso de cada dia

Por André,

Alguns exemplares de negros, favelados e pobres à espera de seu rolezinho

Confesso que não queria falar sobre isso. Sempre tardo a tecer meus comentários. Até pra ver filme ultra-premiado eu demoro, prefiro o silêncio da sabedoria do que a esperteza da Torre de Babel. Mas acho que há questionamentos a se fazer neste exato momento.

O primeiro deles: por que diabos a esquerda está defendendo e instrumentalizando ideologicamente (isto é, usando e abusando de seu marxismo rastaquera pra fazer análise sociológica do caso) uma coisa tão simplória como o "rolezinho" (eufemismo pra arrastão)? Confesso que não consigo pensar numa resposta imediata; pra mim todas as três possíveis fazem sentido: o faz porque é de sua natureza, o faz porque está desesperada e está a abraçar qualquer coisa ou porque está mais confiante de si do que nunca (vale arriscar o custo benefício de fazer papel de idiota).

O FlaxFlu ideológico para o fenômeno logo recobriu a discussão, com apoio, inclusive, dos "jornalões do PIG" Estadão e Folha de São Paulo. Isso nunca tarda a ocorrer, visto que para aquela parcela de sempre da intelectualidade, os males do mundo  se explicam pela existência da elite "conservadoura" e branca de São Paulo, frequentadora de shoppings (inclusive como todos da maioria esmagadora onde o rolezinho foi praticado - tipo Guarulhos, Tatuapé e Itaquera).

Segundo os próprios, os arrastões estariam evidenciando o "apartheid" latente que se passa nessa cidade sem amor. Essa hipótese reforça minha impressão de que é desespero dos intelectuais de botequim. Qualquer ser humano que já tenha 1) ido a shoppings e 2) visto um pobre a menos de 5 metros, sabe que aquilo sempre e foi um ambiente não só de livre acesso para estes, mas feito para os próprios, apenas dando vazão à demanda deles próprios! Pobre quer consumir (as letras dos "funks ostentação" estão aí para provar); quem admira a pobreza (ainda que só de longe) é intelectual.

Levar por mais de três segundos a sério a hipótese de que ambientes cuja praça de alimentação traz seus Habibs, McDonalds e Giraffas é feito pela elite e para a elite para manter os pobres a distância é sinal que nossos intelectuais precisam largar os diplomas e ser pobres por um dia.

Outra coisa que me incomoda é a categorização dos "rolezistas" como a quintessência da pobreza. Por quê? Por que adolescente em bando e unido para fazer sabe-se lá o que num ambiente privado aberto ao público é a representação única e maior dos pobres? Por que não os seguranças do shopping e todos os lojistas, altamente prejudicados pelos eventos? Pobre que trabalha não serve? Será que os gênios da ciência política e social nacional não se dão conta do aspecto "bando" do fenômeno? Entrar em bando em qualquer lugar é um convite a problemas de diversas ordens.

O tal apartheid ocorria com pessoas do mesmo perfil entrando individualmente no shopping JK? Se sim, dica para um protesto legal: documente e processo o shopping. E repita até cansar, até falir um shopping com uma lógica brilhante de mercado (proibir a entrada de clientes ou clientes em potencial). A lei prevê que promover o tal "apartheid" é "recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador"  (Lei 7.716/89). As penas de reclusão variam de um a três anos. Ok, você pode continuar com seu marxismo rastaquera e alegar o fator ideológico da justiça. Mas quem vai conter repetidos processos? Com tanta gente progressista por aí...

Quanto ao rolezinho em si, o aspecto jurídico é escorregadio (tal coisa só podia ocorrer num país que precisa de lei para tudo - o simples bom senso já seria suficiente para mostrar que aglomerações em ambientes fechados e privados não é uma ideia brilhante). Bernardo Santoro, no Instituto Liberal liquidou esse aspecto da questão:
Em tese, um shopping, sendo uma entidade privada, deveria ter o direito de receber quem quisesse e arcar com os prejuízos do custo do preconceito. No entanto, tal conduta é criminalizada pela Lei Caó (Lei no. 7.716/89 – arts. 5o e 8o), dentro da ideia de relativização da propriedade privada, o que levou Pedro Abramovay a declarar, na Folha, que o juiz que expediu uma limitar garantindo o direito do shopping de não ter rolezinhos na sua propriedade estaria promovendo um “direito à segregação”. De fato ele está correto: pelo direito brasileiro, dentro de uma visão sistemática, o juiz errou e o direito de rolezinho deveria ser preservado.

Então o Brasil acabou por criar uma dessas aberrações jurídicas típicas de um Estado de Direito falido: as leis, que deveriam proteger o direito de propriedade, incentivam a desordem, e o juiz, que deveria aplicar a lei que incentiva a desordem, descumpriu seu papel para proteger o direito de propriedade.
Volto com análises ponderadas sobre o tema adiante, retornemos aos dinossauros comunistas. Praticamente todos analistas ferozes e favoráveis ao arrastãozinho são comunistas. Quer saibam, quer não. Usaram simplesmente TODAS as categorias empoeiradas do repertório marxista de análise social, inclusive a ultrapassadíssima teoria do conflito de classes, refutadas por liberais e alterada o suficiente para não ser um impropério por parte dos marxistas modernos. O amigo Flavio Morgenstern ironizou o fenômeno com seu humor de sempre:
Já compararam o [ASSUNTO DO DIA] com apartheid, nazismo, escravidão e ditadura. Não vi nenhuma comparação com Gulag, com Holodomor, com campo de reeducação para consciência de classe, com paredón, com expurgos, com o Grande Salto pra Frente, com, sei lá, o massacre de Potemkin. Depois vocês não entendem por que eu digo que não existe esquerda não-comunista.
Nem mesmo a análise aparentemente refinada de Rosana Pinheiro Machado, não passa do típico marxismo tupiniquim regurgitado (parece que a estadia de Rosana na Grã-Bretanha não a fez notar que a discussão mudou de nível há tempos), cito primeiro um trecho berrante:
Meu lado pessimista, tende a concordar com Ferguson de que há menos subversão política e mais um apelo desesperador para pertencer à ordem global.
Ou seja, Rosana não está nem um pouco interessada em inserir os pobres onde eles não estão e onde querem estar (fico me perguntando se essa gente sabe que são os massivos impostos governamentais que estratificam a condição do pobre enquanto pobre, impedindo-o de ter todos os eletrônicos e sapatos que só o mauricinho que vai pra Miami pode ter), Rosana quer mesmo é a "subversão da ordem global". Parece até que em pleno 2014 ninguém nunca pensou e tentou algo do tipo. O resultado vocês sabem qual foi, o mais vergonhoso dos séculos, o século dos totalitarismos. Para Rosana mudança pouca é bobagem, o negócio é subverter tudo mesmo. Se isso não for um ideal marxista-comunista, o que é?

No primeiro parágrafo ela fala de um estudo iniciado em 2009, no segundo ela consegue citar DUAS frases de vendedores. Uma amostragem um pouco pequena para um estudo que se pretenda sério, não? Especialmente em ciência social, onde tudo é suficientemente variado para refutar a priori qualquer teoria sociológica determinista. "os vendedores querem X, logo Y", "a classe X pensa/quer/faz Y, logo Z". Nada disso funciona e até hoje só conduziu a resultados perigosos.

No quarto parágrafo ela retoma a reza sobre classes e aquele conto que qualquer um que tenha frequentado a quarta série numa escola já ouviu falar e, como provavelmente nunca ouviu outra coisa, tomou como verdade: classes, conflito de classes, etc. Vale ainda citar isso aqui: "O ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia" e depois a brilhante observação do Guy Franco:
O Facebook tá parecendo uma excursão de crianças para o zoológico - só que no lugar de girafas e dromedários, a atração é ver gente pobre enjaulada fazendo lá o que costumam fazer. Observam e comentam sobre os pobres à distância, anotando num caderninho cada movimento deles: "Um pobre agora tirou o boné aba reta e se coçou; eles parecem atraídos por correntes metálicas e roupas com cores vibrantes; são muito animados, e como se mexem!"

Uma antropóloga que estuda os hábitos de pobres há mais de dez anos tenta explicar por que esses estudos não são corretos: "Esse conhecimento não pode ser adquirido de pobres enjaulados em shoppings, mas sim em seu habitat natural. O comportamento de pobres nesses locais é limitado. Acaba gerando uma visão distorcida da coisa".

O colunista de uma revista política observa um grupinho de pobres gritando: "O ato de gritar é político. Esses pobres estão expressando coisas que a sociedade lhes nega ouvir".

Todo mundo anotando num caderninho suas observações sobre os pobres, à distância. E quando um pobre resolve fazer um movimento diferente, algo inesperado, correm para tentar explicar o que aquele gesto quer dizer, mesmo quando o pobre está apenas se espreguiçando.
Encerro a análise do texto da moça por aqui, não vale muito mais que isso (mas tem mais do mesmo por lá, pra quem quiser conferir)


Um tema desses não merecia tanto. Apenas uma observação assustadora pra essa esquerda oportunista que não perde a chance de instrumentalizar UM FATO sequer (fatos que lhes convenham, é claro, os 50 mil homicídios não, porque esses só dão margem para "pautas reacionárias", vamos falar de adolescentes em férias andando em bando).

Muito, mas MUITO provavelmente mesmo, essa turma toda arruaceira não está NEM AÍ pra sua perspectiva ideológica, seu Marx, sua Marilena Chauí e nada dessas porcarias. Eles querem o que todo mundo quer: dinheiro e conforto. Como disse o Diogo Costa: "É difícil para um marxista aceitar que, em vez de ler Das Kapital e assistir às palestras da Marilena Chauí, os pobres brasileiros estão abrindo seus próprios negócios. E essa insubordinação ao status proletário está acontecendo nas regiões mais pobres das cidades brasileiras".

 E pra quem acha que o caminho do livre mercado tá fechado aos pobres e que não é a solução para gerar riqueza e desenvolvimento (pode emendar com um "é tudo culpa do neoliberalismo tucano" pra ficar bonito e simpático):
Poucas pessoas, hoje, podem dizer que compreenderam as margens da cidade. Quem a entendeu com tino comercial fez dinheiro com ela muito anos antes de qualquer pessoa falar da classe C. Uma delas é Samuel Klein: criou as Casas Bahia e descobriu, quando todo mundo dizia que pobre era caloteiro, que assalariados e remediados pagam prestação em dia. Um Samuel Klein jornalista, acadêmico ou especialista faz muita falta nesse debate sobre os rolezinhos. Eles existem, mas ainda estão quietos. É hora de falar. É preciso mudar os termos do debate antes que os pobres sejam humilhados mais uma vez: perdendo a própria humanidade.
Do texto: "Rolezinho e a desumanização dos pobres" (outro texto que foge da idiotia ideológica).

Um comentário:

  1. Muito bom! Vou citá-lo no meu blog, ok? Com o link para essa página, claro! :)

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