quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Paulo Prado e o caráter nacional. Resenha de "Retrato do Brasil"

Por André,


Em seu mais recente artigo no Corrieri Della Sera, Diogo Mainardi menciona o ensaio "Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira" do sociólogo e historiador Paulo Prado. Fui imediatamente surpreendido pela afirmação de que o brasileiro seria um povo triste. Até minha mente avessa a toda patotada patriótica (o apresentador do ensaio afirma que o texto de Paulo é, entre outras coisas, uma resposta aos tratados patrióticos que pululavam à época) se assustou com tal afirmação. Nossa característica marcante não seria justamente as tão aclamadas "alegria" e "irreverência"?

Paulo remonta ao período colônia para esmiuçar o caráter nacional e mostrar como, na verdade, o brasileiro é um povo triste. Tudo começa com o tipo de colonizador que recebemos aqui: o colono americano rapidamente se identificava com o pedaço de terra em que morava - o inglês da Virgínia ou de Massachussets rapidamente chamava tais províncias de "sua terra" (PRADO, 1981, p. 96), ao passo que o português "brasileiro" vinha à colônia com a mente habitando a metrópole, "O português transplantado só pensava na pátria d'além-mar: o Brasil era um degredo ou um purgatório" (id, p. 95). Segundo Prado, dois sentimentos principais caracterizavam tanto o colono ou índios e negros que vieram a habitar o Brasil: tanto um desejo ávido por riquezas, ouro e pedras preciosas em especial (daí os dois primeiros capítulos do ensaio de Prado se chamarem Luxúria e Cobiça), quanto um sensualismo desinibido: pelo relato de Prado, índios, negros, portugueses e até membros do clero constantemente se rendiam aos pecados da carne, inclusive em público:

A parte sadia e sólida da emigração - homens de estado de valor, artistas de fama, bom senso atrasado mas útil na desordem colonial, aspectos inéditos de uma vida mais requintada, toda a súbita surpresa dessa invasão - veio acordar a mandranice brasileira apodrecendo nas delícias da mestiçagem, nas intrigas da carolice, num desleixo tropical, entre mulatas, lundus e festas religiosas (PRADO, 1981, p. 119).

As duas primeiras partes do ensaio de Prado foram um clarão de purificação; sempre nutri a impressão, oriunda da experiência do dia-a-dia, que o brasileiro é um povo "dinheirista" (muito mais que o americano, para surpresa dos experts nacionais): para brasileiro dinheiro é o meio e também o fim, da vida intelectual, da vida moral, da vida como um todo. Restava explicar as origens disso. A postura do brasileiro diante das coisas do intelecto é evidência mais gritante do fenômeno, do presidente Lula, que julga que ler livros é como andar de esteira até aos pais e filhos em escolas que encaram a vida acadêmica única e exclusivamente como um trampolim para um "bom emprego" (= emprego que ganha muito dinheiro e trabalhe pouco); para o brasileiro em geral a sabedoria é o seguinte: ir pra escola porque os pais mandam para aprender alguma coisa e "ser alguém na vida" e depois que "for alguém na vida" (= ter dinheiro) comprar um livro do Cortella e ter o que falar em "jantares inteligentes". A exposição de Prado dá fôlego a esta visão, embora caibam outros estudos.

Mas e a tristeza? Nossa tristeza, de acordo com Prado, está atrelada ao sensualismo mencionado, à nossa sexualidade atávica. Prado cita um preceito médico para suportar sua tese "post coitum animal triste, nisi gallus que cantat" - todo animal fica triste após o coito, exceto o galo, que canta. Uma sociedade que tenha por objetivo maior o coito, terá, invariavelmente, propensões melancólicas - por definição efêmero, todo o período (maior parte do tempo) de ausência de gozo será preenchido pela tristeza.

Tanto o desejo por riqueza rápida (os colonos americanos também queriam riqueza, só que a gerariam em sua nova terra, não queriam obtê-la dela), quanto o sensualismo atávico eram as duas características que uniam todos os grupos étnicos do Brasil: "esse característico na formação da nacionalidade é quase único na história dos povos. Os agrupamentos étnicos da colônia - os mais variados, de Norte a Sul - não tiveram outro incentivo idealista senão esse de procurar tesouros nos socavões e montanhas (PRADO, 1981, p. 68 e 69) e também:

Como da Europa do Renascimento nos viera o colono primitivo, individualista e anárquico, ávido de gozo e vida livre - veio-nos, em seguida, o português da governança e da fradaria. Foi o colonizador. Foi o nosso antepassado europeu. Ao primeiro contacto com o ambiente físico e social do seu exílio, novas influências, das mais variadas espécies, dele se apoderariam e o transformariam num ente novo, nem igual nem diferente do que partira da mãe-pátria. Dominavam-no dois sentimentos tirânicos: sensualismo e paixão do ouro. A história do Brasil é o desenvolvimento desordenado dessas obsessões subjugando o espírito e o corpo de suas vítimas. Para o erotismo exagerado contribuíam como cúmplices - já dissemos - três fatores: o clima, a terra, a mulher indígena ou a escrava africana. Na terra virgem tudo incitava ao culto do vício sexual. (PRADO, 1981, p. 90)
Nada mais importava além de gozar e obter riqueza de maneira rápida e fácil: "na luta entre esses apetites - sem outro ideal, nem religioso, nem estético, sem nenhuma preocupação política, intelectual ou artística - criava-se pelo decurso dos séculos uma raça triste" (PRADO, 1981, p. 91 e 92).

O último capítulo do ensaio intitula-se "romantismo", a aura romântica, de tipo rousseauniano e byroniano teve sua contribuição na formação do imaginário e caráter brasileiro: os jovens minimamente letrados viviam uma vida "romântica".

Por suspeita que possa parecer a tese de Prado, a busca nas nossas raízes deixa pouco a duvidar que sua explicação é, no mínimo, válida. O ensaio é de leitura agradável e é curto (150 páginas). Recomendo a todos interessados pela sociologia nacional. Subscrevo a exortação de Paulo Prado que encerra seu texto: "a confiança no futuro não pode ser pior que o passado".

PRADO, Paulo. Retrato do Brasil. São Paulo, ed. Ibrasa, 1981.

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