domingo, 5 de janeiro de 2014

Quem tem medo do "determinismo" geográfico?

Por André,

Rodrigo Constantino perguntou ontem em seu blog se é possível produzir um Schopenhauer a 40ºC. Na hora lembrei do problema do "determinismo geográfico", tão imediata e assustadamente rechaçado pela intelectualidade esquerdista.

Será que o clima realmente é um fator determinante nas produções culturais e nas condições biológicas dos povos? Muita gente pensava que sim (Constantino traz outras citações em seu texto):

“A excelência das criaturas pensantes, sua rapidez de apreensão, a clareza e a vivacidade dos seus conceitos, os quais chegam a elas pelas impressões do mundo externo, a capacidade de combinar esses conceitos e, em suma, toda a extensão da sua perfeição tornam-se mais altas e mais completas na proporção direta da distância do seu lugar de moradia até o Sol” Kant
"“entre as circunstâncias externas pelas quais a influência da educação é modificada, as principais são aquelas agrupadas sob a rubrica do clima”. Ele acrescentou: “Nos climas quentes, a saúde do homem tende a ser mais precária que nos frios; sua força e rijeza, menor; seu vigor, firmeza e constância mental, menor; e portanto, indiretamente, sua quantidade de conhecimento é também menor. O pendor de suas inclinações é diferente, e isso de modo mais notável no tocante à sua maior propensão para os prazeres do sexo e à precocidade da etapa da vida em que essa propensão começa a se manifestar: suas sensibilidades de todos os tipos são mais intensas; suas ocupações habituais mais para a lassidão que para a atividade; a constituição básica de seu corpo é, provavelmente, menos forte e menos rija; a constituição básica de sua mente é menos vigorosa, menos firme e menos constante” Jeremy Bentham
Conta-se que o pianista Arnaldo Cohen, carioca que morou em Londres por 21 anos e atualmente mora nos EUA, apesar de entusiasta do Rio, disse que no Rio abria a janela e se distraia com as mulheres que desfilavam pela orla. Já no típico frio londrino, a janela permanecia fechada e Cohen corria ao piano e estudava as sonatas de Beethoven

O Pullitzer Jared Diamond, em sua pérola "Armas, germes e aço" também apresenta correlações interessantes. Um fator influente do sucesso econômico e tecnológico da Europa seria a preparação que o ambiente físico obrigou os europeus a adquirir:


Hans Herman Hoppe também trata do tema em alguns artigos de seu livro "The Great Fiction".

Enfim, o fato é que existem DIVERSOS estudos que indicam a INFLUÊNCIA do ambiente na cultura (e até na biologia, a explicação evolutiva para a variação de melanina em seres humanos também caminha pela quantidade de Sol recebida nos polos e nas regiões equatoriais).

O erro, penso eu, é mais semântico que qualquer coisa. Não há nenhum determinismo. Existem fatores múltiplos e, naturalmente, o livre-arbítrio do ser humano. Contudo, é inegável e evidente que o clima do lugar onde se vive influencia ou até CONDICIONA posturas, hábitos e comportamentos. Um exemplo: se você vive em um ambiente frio e escuro boa parte do ano, a reclusão não é uma opção, é questão de sobrevivência. Em estado de reclusão, o número de atividades possíveis está largamente reduzido. Se o clima é árido ou tropical, a reclusão se torna um tormento.

Muitos mencionaram que hoje temos o fator "ar-condicionado". É verdade. Contudo não podemos limitar nossa visão ao presente e ao passado recente, por milhares de anos o homo sapiens esteve à mercê do climas das regiões que habitava. Citar exceções também não é algo brilhante, visto que devemos falar de condicionamento "geográfico" e não em necessidade.


O que me chamou a atenção, na verdade, foi que esse é um tema que deixa a esquerda com os pelos da nuca eretos. Para eles definitivamente não há qualquer forma de influência geográfica na biologia, cultura ou hábitos das pessoas. O "determinismo geográfico" é rechaçado num piscar de olhos - sim, aquelas mesmas pessoas que não hesitam em proclamar um muito rasteiro determinismo econômico: pobre de direita é uma aberração, o proletariado crê em Deus porque suas condições materiais precárias o levam a projetar um futuro paradisíaco, clássicos da literatura mundial só escreviam sobre burgueses brancos machistas porque eram assim e viviam em sociedades brancas, burguesas e machistas.

Embora esquerdistas façam carinha de nojo para o fenômeno, o próprio são Marx acreditava na influência do clima sobre as populações, dizendo que o clima tropical é avesso ao capitalismo e:

"Uma natureza pródiga demais 'retém o homem pela mão como uma criança sob tutela'; ela o impede de se desenvolver ao não fazer com que seu desenvolvimento seja uma necessidade de natureza. A pátria do capital não se encontra sob o clima dos trópicos, em meio a uma vegetação luxuriante, mas na zona temperada. Não é a diversidade absoluta do solo, mas sobretudo a diversidade de suas qualidades químicas, de sua composição geológica, de sua configuração física, e a variedade de seus produtos naturais que formam a base natural da divisão social do trabalho e que excitam o homem, em razão das condições multiformes ao meio em que se encontra situado, a multiplicar suas necessidades, suas faculdades, seus meios e modos de trabalho" Das Kapital

Fica evidente, uma vez mais, que a fé ideológica vem à frente dos fatos (tal como na discussão acerca dos gêneros humanos).

Respondendo à pergunta de Constantino: é claro que é possível gerar um Schopenhauer a 40ºC, isso só ainda não aconteceu. Quem sabe nos próximos 300 anos?


P.S.: José Osvaldo de Meira Penna faz alusões interessantes ao tema em seu Utopia Brasileira, especialmente no primeiro capítulo "Don Juan e o Bandeirante: psicologia do tipo utópico".

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