quinta-feira, 27 de março de 2014

Breve Bibliografia em Filosofia da Ciência


Infelizmente quando me mudei para cá deixei quase a totalidade dos meus livros para trás e à época não os tinha no meu computador, então reconstruir uma bibliografia partindo do que eu li e posso recomendar pessoalmente fica mais complexo dado que primeiro preciso me lembrar do que eu li. :-)

Seja como for, periodicamente recebo pedidos de recomendações sobre o que deve ser lido em filosofia da ciência. Bem, embora eu tenha decidido dedicar minha vida profissional à academia, não é com filosofia da ciência que eu gasto a maior parte dos meus esforços, então qualquer lista que eu proponha terá provavelmente grandes e importantes lacunas. Me reconforto um pouco em saber que isso provavelmente é verdade de qualquer lista desse tipo, dada a vastidão do tema. Enfim, essas são algumas das recomendações bibliográficas pessoais minhas sobre o assunto.

Para começar, eu gostaria de apontar que alguns dos grandes cientistas ao longo da história – aqueles que propuseram idéias tão importantes e revolucionárias que alteraram a própria forma de fazer ciência – se viram forçados eles mesmos a considerarem as implicações filosófica e metafísicas do que estavam dizendo, assim como a olharem para o próprio processo científico e questionarem sua natureza e validade. Então tendo eu sempre sido interessado em ciência, antes mesmo de consumir qualquer literatura exclusivamente sobre filosofia da ciência, já havia lido diversas discussões do assunto por acadêmicos hoje reconhecidos por vezes primordialmente por seu trabalho científico e não por suas discussões de filosofia. Entre eles estão notavalmente Galileu Galilei, René Descartes, Isaac Newton, Ernst Mach, Henri Poincaré, Albert Einstein, Bertrand RussellWerner Heisenberg.

Digo notavelmente não apenas em termos de sua relevência intrínseca mas também em termos da influência que tiveram sobre minha opinião sobre filosofia da ciência como sendo um assunto importante. Poucos textos li no original da maior parte deles; na maior parte das vezes li *sobre* o que eles pensavem ao invés de diretamente o que escreveram, tanto pela inacessibilidade das fontes primárias quanto pela sua inescrutabilidade quando lidas contemporaneamente. Mas digo já de saída que é um equívoco gigantesco imaginar que os grandes cientistas desconheçam, não considerem, ou não discutam as implicações filosóficas do que estão fazendo assim como o que os autorizaria no final das contas a afirmar o que quer que seja sobre a realidade objetiva. Inclusive, repito, nas obras científicas mais revolucionárias e relevantes, a ciência esbarra diretamente com filosofia, e na expansão das fronteiras mais avançadas da ciência é necessários discutir explicitamente questões filosóficas. Isso fica claríssimo ao examinarmos o que todos os cientistas acima de fato disseram sobre filosofia da ciência. Infelizmente hoje em dia existe – possivelmente domina – o conceito do cientista não como vocação intelectual mas como “somente um emprego”, caso em que o sujeito está em geral muitíssimo pouco preocupado em questionar paragidmas ou revolucionar qualquer coisa e sim, muito pelo contrário, interessado em investir seus esforços nas direções menos controversas que for possível, receber seu salário e ser deixado em paz.

Uma exceção na lista acima quanto a eu ter consumido primordialmente fontes secundárias é no caso de Einstein. Não que eu não tenha lido muito do que se escreveu tanto sobre ele quanto sobre sua obra científica e seu significado (além de quando estudante de engenharia ter sido submetido à versão-para-universitários da teoria da relatividade especial presente em livros texto de física moderna), mas além disso também li diversos textos escritos pelo próprio, como a coletânea The World As I See it (que na verdade não tem muito sobre filosofia da ciência) e Relativity. Este último de fato fala sobre filosofia da ciência, interessantemente não como um tópico em si, mas como uma necessidade para fazer a ciência da qual o livro trata. Uma parte substancial do livro é gasta discutindo conceitos, como justificá-los, e seu significado.

Outra grande exceção na lista acima quanto a eu ter consumido primordialmente fontes secundárias é no caso de Russell. Autor extremamente prolífico, várias de suas obras permanecem não apenas legíveis como relevantes ainda hoje. O primeiro livro que li dele foi Introduction to Mathematical Philosophy, um clássico absoluto que se por um lado hoje em dia está academicamente um pouco datado, por outro lado permanece perfeitamente acessível e retrata um momento de transição de importância fundamental tanto para filósofos quanto para matemáticos – e de forma mais ampla para cientistas em geral. A única contra-indicação que eu talvez possa ter a esse livro é que possivelmente seja difícil gostar dele para quem por algum motivo se convenceu de que odeia matemática.

Até o momento, porém, venho citando os contatos que tive com filosofia da ciência como efeito colateral de estar interessado em ciência. O primeiro contato que tive com pensadores que se dedicaram mais extensamente a abordar filosofia da ciência como um assunto em si mesmo foi através do curso obrigatório de filosofia da ciência que fiz na PUC-Rio. Um parêntesis aqui para que não sabe – a PUC tem como um de seus princípios a idéia de que todos os seus alunos devem ter uma formação não apenas técnica mas também minimamente humanística e moral, e para satisfazer esse requisito o aluno tem que escolher uma certa quantidade de cursos em filosofia, religião e ética para cursar de forma a poder se graduar. Entre esses cursos, eu fiz o de filosofia da ciência, e isso acabou sendo razoavelmente interessante, por vários motivos. Um deles é que eu parecia ser praticamente o único ser humano na sala de aula remotissimamente interessado nos tópicos sendo discutidos, então as aulas viraram por vezes um diálogo entre mim e o professor com a classe presente assistindo. Outro motivo é que por total coincidência revelou-se que o professor morava exatamente no mesmo prédio que eu, e não tinha carro, e ia para a PUC de ônibus, algo que levava da ordem de 40 minutos. Assim sendo, eu passei a dar carona para ele regularmente, e no caminho já íamos falando de filosofia da ciência, com o resultado de que quando a aula começava a turma estava de fato meio que se juntando a um diálogo pré-existente. Finalmente, como mencionei, foi a primeira vez em que de fato fui apresentado de forma minimamente organizada à literatura da filosofia da ciência como um assunto em si mesmo.

O professor adotou como referência recomendada o autor Alan Chalmers, especificamente o livro What Is This Thing Called Science, que eu concordo que é uma boa introdução ao assunto. Um outro livro do Chalmers que pode valer a pena é Science and Its Fabrication.

Bem, só que a partir daí se abre todo um universo do estudo da filosofia da ciência não da parte dos cientistas mesmos e como parte do processo científico, mas sim partindo de filósofos, e como um assunto em si mesmo ao invés de aplicado ao desvendamento de uma determinada questão científica. É completamente impossivel sequer começar a resumir aqui todas as posições e questões envolvidas, mas posso citar alguns dos autores e livros que considero mais essenciais – ou pelo menos que eu pessoalmente acho que vale a pena examinar. Entre eles (forçosamente incompleta esta lista) : Charles Sanders Peirce, Karl Popper, Thomas Kuhn, Paul Feyerabend, Willard Van Orman Quine, Daniel Dennett. Ressalva : nem todos eles têm igual relevância ou importância e essa lista expressa fortes preferências pessoais. Naturalmente que em qualquer lista deste tipo temos que incluir também Platão e Aristóteles, mas isso além de óbvio eu considero como pré-requisito fundamental para qualquer um que queria falar seriamente seja de ciência, seja de filosofia. E como dizer que “ah, e para discutir filosofia você precisa saber ler e escrever”. Isso sendo dito, não é discutindo Platão e Aristóteles que vamos compreender o que ocorre modernamente seja em ciência seja em filosofia da ciência.

Peirce em particular teve uma vida infernal e é na minha opinião um pensador que se não tivesse sido assolado por circunstâncias adversas teria hoje muito mais relevância do que lhe é concedida. Karl Popper é figura obrigatória em qualquer lista, e seu livro The Logic of Scientific Discovery é um clássico. A obra correspondente de Kuhn é The Structure of Scientific Revolutions, e para quem gostar deste, a continuação obrigatória é Feyerabend, com Against Method. Quine figura nesta lista em grande parte por minha simpatia pessoal :-). Ele nunca realmente escreveu um grande clássico sobre filosofia da ciência. Mas isso não quer dizer que não tenha escrito nem tido influência sobre o assunto, e uma possível sugestão seria From a Logical Point of View.

Finalmente, temos Daniel Dennet, um prolífico e ativo filósofo contemporâneo que se ocupa entre outros assunto com filosofia da ciência, e que acrescento a esta lista em parte porque ele de fato escreve sobre o assunto de forma geral mas mais especificamente porque ele tem a coragem de discutir abertamente religião de forma crítica como não estando de forma alguma à parte do processo científico. A idéia de que a religião possa querer por vezes se colocar como uma “forma de conhecimento” separada da ciência e imune à lógica ou a todas as considerações que (por vezes os próprio religiosos!) fazem ao processo científico é completamente insustentavel. Ou a religião está de fato dizendo algo sobre a realidade, algo com pretensões a ser objetivamente verdadeiro, e nesse caso a filosofia da ciência é relevante e precisa ser levada em conta, ou não está, e nesse caso, importantes que as idéias religiosas sejam, pertencem ao reino da mitologia, arte, literatura ou fantasia, mas não são uma investigação coerente da realidade objetiva. Para quem gostou dessa descrição, eu recomendo o livro Breaking the Spell.

Outros livros que eu aleatoriamente gostaria de mencionar que de alguma forma discutem criticamente como a ciência de fato funciona assim como os fundamentos filosóficos da nossa própria capacidade de compreender qualquer coisa são : Beyond The Hoax (Alan Sokal), Godel, Escher, Bach (Douglas Hofstadter) e Are Quanta Real?.

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