quarta-feira, 12 de março de 2014

Jean (isso, sem flexão) e o pensamento adolescente

Por André,

Jean (sem a flexão, pode ficar estranho...) ficou bravo com Rodrigo Constantino. Este último, supostamente, enxergaria o mundo de maneira bicolor, dividido clara e distintamente entre bem e mal. Jean, como bom progressista que é, se julga para além do bem e do mal, já subiu de patente, está acima dessas categorias. Mesmo sendo esquerdista e orgulhoso disso, ou seja, mesmo compartilhando de uma visão de mundo que, essencialmente, é binária (e onde os pares estão em constante conflito): tese e antítese, opressores e oprimidos, ricos e pobres, negros e brancos, patriarcado e mulheres, coletivo e indivíduo, homossexuais e heterossexuais, reacionários e revolucionários, pais e filhos, Igreja e Estado etc. etc - Jean se sente confortável de acusar os outros de pensamento binário.

A quizumba se deu pelo texto de Constantino comentando o fato de que, em Uganda, homossexuais serão presos e estão proibidos de se casar. Comento a posição de Constantino na sequência. Wyllys fez uma réplica recheada de chistes sentimentalóides, no melhor estilo esquerda de ser, só que na Carta Capital, aquela revista que você pode assinar a partir do site do PT.

Antes disso, quero registrar que não curto muito esse tipo de texto que vou escrever. Questão pessoal mesmo. Como dizem Constantino e Wyllys, "dá preguiça". O nível é rasteiro demais e a ignorância impera sobre o desejo de busca pela verdade. Como comentei no Facebook recentemente, a vontade de algumas pessoas quando temas como esses estão em discussão é pura e simplesmente "parecer legal". Ser flexível quanto a questão gay é legal, cola bem nos "jantares inteligentes". Só se realiza uma discussão séria sobre o assunto (o casamento civil para homossexuais, por exemplo, do qual sou favorável) saindo desse senso comum atroz em que o debate se encontra. É preciso separar a demanda pelo simples direito individual civil de se casar, da militância gay atrelada ao movimento revolucionário mundial. E quem, na ânsia de parecer legal pros amigos, defende o pacote todo (desde um simples direito civil até "pegar em armas"), acaba comprando gato por lebre. Tudo isso só se resolve com estudo sobre o tema. Usualmente ignorado por quem quer posar de progressista e estudado pros colegas.

Falava com o amigo Octávio Henrique, que comentou um texto de Cynara Menezes parecido com o de Jean em forma e conteúdo, que ele deve ser descendente de Jó pela paciência por produzir tantos (e tão bons) textos, fazendo o escrutínio apropriado da inteligentsia canhota nacional. Portanto, este texto terá um quê um tanto octaviano.

Eis a fala de Jean, que reclama da infantilidade do discurso alheio:
Em desenhos de super-heróis animados destinados às crianças, a vida é dividida de maneira simples e esquemática: há o Bem e o Mal; heróis e vilões: de um lado, Esqueleto; do outro He-Man, ou, de um lado, a Legião do Mal; do outro, a Liga da Justiça. Nesse esquema montado para estruturas cognitivas de uma criança em formação, o mundo é o cenário de uma guerra entre dois lados perfeitamente definidos, sem contradições nem interseções.
Ora, além dessa ser a essência mesma do pensamento esquerdista: dividir, em resumo, entre "bem" e "mal", para em seguida monopolizarem a virtude, Jean Wyllys tem experiência própria na área.

Para ele é assim: se for negro e gordo tem que concordar com ele; o contrário é burrice. Ele também deve achar que todo gay tem de ser militante e votar nele e que toda mulher tem que ser feminista. Ou seja: o mundo se divide em quem é de esquerda e quem não é. Em quem pensa como Jean Wyllys e quem não pensa.

Sério mesmo, Jean? Sério mesmo que você vai encher o peito pra falar sobre dividir o mundo entre bem e mal e depois postar-se, por definição, do lado do bem?

Vou tentar ser didático e espero que dessa vez ele consiga compreender. E passarei ao largo de suas referências ao BBB, porque estas são frutos de sua inveja mal-disfarçada do sucesso alheio. Deve ser mesmo frustrante para alguém criado a Toddy e Ovomaltine em bairros nobres e formado em escolas papai-pagou-filhinho-passou ter de ver um gay assumido, mestiço, nordestino, sem apadrinhamentos nem capitanias hereditárias, vindo das camadas mais pobres da população na posição que eu ocupo hoje.
Mas eu acho ótimo que o deputado mais "eficiente" do país seja o Jean Wyllys, ex-BBB. Da mesma forma que acho perfeitamente coerente que Paulo Freire seja o patrono da educação nacional. Quem mais seria apropriado para representar as sovas anuais no PISA, o desempenho ridículo do Brasil em ciências e matemática, em suma, a tragicomédia da pedagogia nacional, que Paulo Freire? Miriam Joseph e Mortimer Adler certamente não preenchem a vaga.

Ninguém melhor que Jean Wyllys, ex-BBB, para encabeçar o congresso e política nacional, de seus Tiriricas e Marquitos. Ainda por cima eleito à custa dos votos alheios. Você ocupa a mesma posição que o Tiririca, Jean. Com a diferença que ele foi eleito com votos próprios.

Depois Jean volta a seu binarismo bicolor: no mundo existem os pobres e os ricos, os que estudam em escolas caras e boas e os que estudam em escolas ruins, os malvadinhos e os coitadinhos. Rodrigo é um malvadinho, Jean um coitadinho.

Tentei que ele compreendesse que as primeiras leis homofóbicas desse continente (as chamadas leis “antissodomia”) foram levadas pelo Império Britânico quando dominava vastos territórios por ali; e que a onda de preconceitos anti-homossexuais que infelizmente tem se espalhado por lá nos últimos anos não tem raízes nas culturas africanas, como o colunista imagina, mas na religião dos conquistadores e, mais recentemente, na ação política de igrejas evangélicas fundamentalistas dos EUA que investem milhões de dólares na “evangelização” desses povos, usando o preconceito contra os homossexuais como estratégia de marketing e financiando campanhas de políticos homofóbicos.

O caldo entorna mesmo é aqui. Comentei com colegas de trabalho que esse caso de Uganda era uma baita bugada na matrix progressista, a situação é a seguinte: ou os habitantes da matrix criticam os negros e sua cultura ou tem de ser coniventes com as leis homofóbicas locais. E agora, o que você faz quando cafetina uma minoria que chama de sua e ela sai da linha do seu trem?

A alternativa que restou a Jean foi a saída clássica: é tudo culpa dos outros (por outros, entendamos: o homem branco, ocidental e europeu). Fato que constantemente incomoda o Rodrigo, a mim e a qualquer um de bom senso.

Se a culpa das leis homofóbicas LOCAIS é das velhas metrópoles, por que isso não se repete nas outras colônias? Ou pior: por que isso não ocorre nas próprias metrópoles, já que estas são tão ardorosamente homofóbicas?

Por que o Ocidente, com seu direito e suas democracias liberal-burguesas, foram os primeiros a acolher os gays e porque este lado cultural do globo é incessantemente atacado pelas esquerdas? Há caroço nesse angu. Por que o único país do Oriente onde um gay certamente pode andar com seu parceiro a vontade é Israel (justamente um país culturalmente ocidental), igualmente odiado por Wyllys e seus pares? Será porque como disse Ahmadinejad, amigão de Lula, defender gays é coisa de capitalistas?

Por que tanta hostilidade contra aqueles que, justamente, abriram-se aos homossexuais (e não apenas a eles, mas ao fim da da escravidão também, aos direitos das mulheres, etc) antes do demais?

E o binarismo de que Jean reclama segue: o grande Satã EUA segue sendo culpado pelos males, até mesmo aqueles em pequenos países africanos. Os comentários críticos à ditadura castrista, maior exterminadora latina de gays, são bem mais reservados. Sem falar na "cura gay" soviética, para os russos, o homossexualismo era uma doença que seria extirpada com o fim do capitalismo e da burguesia.

Os países do mundo mais amigáveis a gays são ocidentais. Quando não católicos ou ex-metrópoles. Na Grã-Bretanha, a página do partido conservador (Tory) de lá tem tantas curtidas quanto a versão LGBT do partido trabalhista.

Esse último ponto vale um intermezzo ao comentário, por que o movimento revolucionário mudou de postura quanto aos gays? Por que, quando e como estes passaram de infectados por uma doença da burguesia a reis da cocada preta, a ser defendidos com unhas e dentes?

Mero desencargo de consciência ou mudança de estratégia? Tanto este tópico, quanto o do ódio da esquerda pós-moderna atual pelo Ocidente merecem post a parte, mas vale um comentário breve.

Dentro da teologia marxista há(via) uma profecia: que o proletariado invariavelmente se revoltará e, justamente nos países com um capitalismo consolidado, promoverá a revolução socialista, rumo ao comunismo.

Essa é só uma das muitas profecias furadas do marxismo. Os países capitalistas consolidaram sua posição e com trabalho e realidade, passaram a proporcionar condições de vida cada vez melhores aos trabalhadores. E vocês sabem, gente satisfeita não se revolta.

A estratégia teve de mudar: o que sobrou para os engenheiros sociais comunistas foi o até então desprezado lumpemproletariado, os que estavam à margem da margem. A minoria da minoria. O discurso de ódio não era mais apenas ou necessariamente classista, mas baseado na raça, na sexualidade. É uma questão de qual massa será arregimentada para promover a revolução.

E é nesse momento que é necessário separar uma discussão sóbria e racional sobre a questão das "minorias" do pastiche velho e ideológico que gente como Jean Wyllys tenta vender.

E tudo isso não são coisas que percebamos só naquela vontade básica de parecer progressista e prafrentex na mesa do bar do lado da faculdade com os amigos (mas que você prefere guardar pra você no almoço de domingo na casa da vó). Você só chega a essas conclusões estudando muito, e não fazendo leituras seletivas, mas lendo gente que discorda de você (para Jean Wyllys e outros isso pode ser uma descoberta brutal, existe gente inteligente, que escreve livros e que não é de esquerda).

Sobre a guinada em direção ao lumpemproletariado, leiam: Adorno e Marcuse, Lucáks e boa parte da turma "neomarxista". Se quiserem um resumo da ópera (recheado de referências pra se aprofundar no assunto), leiam o livro "Explicando o pós-modernismo" de Stephen Hicks, lá ele elabora uma genealogia do fato.

Sobre o Ocidente, sua decadência e a esquerda, leiam: aqui a literatura não poderia ser mais vasta. O nome mais velho que já li e me recordo que trata do tema é Ortega y Gasset. Mas tratam do tema: Oswald Spengler, Roger Scruton, Niall Ferguson, Theodore Dalrymple, Roger Kimball, mas não menos Michel Foucault, Derrida, Guattari e a turma relativista pós-moderna em geral.

E para encerrar, um outro assunto, também para outro post, mas que resvala nesse assunto:

Quem quiser derrotá-los e construir uma sociedade mais justa e mais livre, precisará se livrar dos dogmatismos e deixar de ver o mundo como uma guerra entre o Bem e o Mal, como o vêem as crianças e os indigentes intelectuais (tenho pena dos conservadores que adotaram o enfant terrible como seu mentor intelectual). Precisará fazer política, no melhor dos sentidos, que é o que eu tento fazer cada dia da minha vida.
Percebam: as categorias de Bem e Mal são (ou deveriam ser) de propriedade das religiões. Hoje quem dá lições sobre o tema é o Jean Wyllys, nosso exemplo maior da política nacional. A salvação vem pela política, o final dos tempos está na História e não após ela, a Cidade de Deus se imanentizou com a Cidade dos Homens. Como dizia Scheller, só há duas opções para o homem: Deus ou um ídolo. Deus ou Che Guevara (ou Jean Wyllys, não sei o que é pior).

O bem e o mal são medidos pela política. A partir do século XVI (ao menos com força), a partir da modernidade, as ideologias políticas se propuseram a ser substitutas das religiões - algo que materializou-se com exatidão no século XX, século de comunismo, nazismo e fascismo (e não a toa, século mais assassino da História). Todas com seu deus, sua soterologia e sua expiação de pecados próprias.

Eric Voegelin trata do assunto com maestria, em suas Reflexões e nas Religiões Políticas. Ernst H. Kantorowicz também lança luz ao debate com o seu Os Dois Corpos do Rei (Kantorowics trata da noção medieval que o rei tinha dois corpos, o natural e outro místico, vinculado ao seu poder político).

Para encerrar em definitivo, o vídeo abaixo traz informações preciosas sobre Jean Wyllys (nada de incrivelmente novo, apenas o bom e velho socialismo quando chega na praça: corrupção, luxo à custa do Estado etc). Se souberem de mais alguma coisa sobre Jean, tomem cuidado caso decidam divulgar, Jean investigou Bruna Luiza, autora do vídeo, de cima a baixo:



Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto! Didático, objetivo e cheio de referências para aprofundar a discussão!

    Abraços!

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