sexta-feira, 18 de abril de 2014

As lições políticas de Capitão América 2 - o Soldado Invernal: liberdade em troca de segurança e a nova ordem mundial

Por André,

[CONTÉM SPOILERS]

Quem ainda não assistiu o novo filme do Capitão América está perdendo muita coisa. A segunda versão é incrivelmente superior à primeira - o blog do Nerd Pai disse que esse é o melhor filme da Marvel que ele já viu (não arrisco dizer o mesmo pois não sou um entendedor, apenas um apreciador esporádico de filmes de super-herói).

O que me interessa, mais uma vez, é a mensagem política que subjaz o filme - tal como foi com O Homem de Aço e com Batman. Porém, acho que dos três filmes, nenhuma mensagem é tão atual quanto a de Capitão América. Ela diz muito sobre a atual situação dos EUA, sobre o futuro e sobre os inimigos da nossa era.

A mensagem do filme é clara: o inimigo está entre nós. Não se trata mais dos soviéticos (não no mesmo sentido, pelo menos) ou dos nazistas. O inimigo é um parasita relacionado aos antigos inimigos, mas que age desde dentro.

A Hydra deixou de ser um conjunto de místicos malucos locados do outro lado do oceano, ela sobreviveu por 70 anos no interior da própria SHIELD por meio da figura maléfica de Arnim Zola, a mente científica por trás das maluquices da Hydra. Mesmo morto, os bites do cérebro de Zola sobreviveram todo esse tempo. E de certa maneira, o maior experimento da Hydra, o Soldado Invernal, embora um vilão de peso, à altura do Capitão América, não pode ser considerado o inimigo real, dado o enredo do filme.

O inimigo real, no próprio entender do Capitão América, é o planejamento central, dos burocratas da SHIELD e em certa medida do próprio Nicholas Fury, parceiro do Capitão Rogers, que deixa Steve furioso por não lhe fornecer todas as informações e se julgar o único com direito a saber todas elas ('compartimentando' apenas as partes mais convenientes).

A SHIELD foi sitiada pela Hydra e há um projeto em andamento, o "projeto Insight". Resumo da ópera: acesso ilimitado a informações pessoais e armamento pesado, suficiente para matar 1000 pessoas por minuto e para localizar um terrorista a partir do espaço com base em seu DNA, eliminando a ameaça antes mesmo dela cometer qualquer crime (exatamente esse excesso de poder depositado na mão de tão poucos deixa o Capitão América descontente com o andamento do projeto). E esse é um dos aspectos do filme onde podemos ver uma referência e crítica à atual situação e medidas políticas do governo Obama: drones, invasões injustificadas e espionagem em níveis nunca antes vistos. Esse foi um movimento intencional dos diretores do filme, em entrevista, confessaram ter colhido problemas políticos atuais para preencher o filme pois eles revelam preocupações e ansiedades do povo americano agora, como um alerta para que protejamos nossas liberdades civis.

A desculpa no filme (e no governo Obama) é que a troca de um pouco de liberdade por um pouco de segurança é moral e permitida. Mas você vai mesmo depositar sua confiança no governo ou em instituições dominadas por ele? Essa barganha é realmente justa - e pior - é possível?

O autor americano Dinesh D'Souza faz análise semelhante do filme em seu site, e relaciona o filme do herói americano ao seu próprio - "América: imagine o mundo sem ela" - a ser lançado ainda este ano.

Embora toda essa discussão seja interessante, a reflexão política mais urgente e ainda mais importante é oriunda do discurso de Zola na metade do filme. Como disse, o inimigo não é mais a União Soviética (embora a bala que atingiu Fury seja de origem soviética e ainda que o político mais importante da terra no momento seja um ex-agente da KGB). A política secreta soviética contou com centenas de milhares de membros e, à parte dos dissidentes, o que aconteceu com todos eles após a dissolução do bloco? Foram trabalhar no campo e plantar batatas ou dar continuidade a seu projeto em outras frentes de batalha?

Muitos dos dissidentes afirmaram sem medo que o objetivo da KGB segue sendo destruir a América, só que agora, desde dentro (Yuri Bezmenov, Ian PacepaAnatoliy Golitsyn e Cleon Skousen quer com toda credibilidade do mundo quer não, documentaram a veracidade dessa afirmação). É o que se dá com a Hydra no filme. E Zola expõe sua estratégia que age como um vírus:

A SHIELD havia recrutado cientistas alemães para fins estratégicos. O lema "corte uma cabeça, aparecerão duas" se mostrou eficaz. 

Era uma crença essencial da Hydra que a liberdade NÃO PODE ser confiada a todos os seres humanos. Na segunda guerra, a estratégia era tirar a liberdade das pessoas por meio do conflito bélico. Mas essa se mostrou uma estratégia ruim, pois levava as pessoas a lutarem por sua liberdade.

A guerra não é o meio adequado para tal objetivo. ELES DEVEM ENTREGÁ-LA POR VONTADE PRÓPRIA.

Por 70 anos, desde o fim da guerra e da mudança estratégica, a Hydra ALIMENTOU CRISES e se BENEFICIOU DE GUERRAS. Quando a história não cooperava, ela era alterada.

A Hydra criou um mundo tão caótico que a humanidade está disposta a entregar sua liberdade em troca de segurança.

QUANDO O PROCESSO DE PURIFICAÇÃO FOR CONCLUÍDO, A NOVA ORDEM MUNDIAL DA HYDRA SURGIRÁ.

Quando ouvi a última afirmação, foi impossível não me reportar a frase semelhante proferida por J.D. Rockfeller:

'Estamos à beira de uma transformação global. Tudo que precisamos é da crise certa e as nações vão aceitar a Nova Ordem Mundial'

Quem conhece um pouca da estratégia da Nova Ordem Mundial reconheceu tanto as ações como a linguagem utilizada. Ademais, a estratégia de fomentar o caos ou escravizar a realidade para depois se arrogar o único capaz de resolver os problemas causados é uma estratégia revolucionária velha (bem como a matança organizada que é a consequência inevitável do processo revolucionário da Hydra e do armamento disponibilizado pelo Projeto Insight).


3 comentários:

  1. Finalmente achei o discurso completo do Zola xD

    Aina procurando o discurso completo o Capitão, quando ele invade a Shield e se comunica co todos os funcionários.

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  2. Os melhores e mais divertidos filmes de ação do mundo. Eu adoro assistir os atos atriz Scarlett Johansoon, sem dúvida, o melhor filme em que ele participou.

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  3. André, a tua frase "... a humanidade está disposta a entregar sua liberdade em troca de segurança" está quase que reproduzida em reportagem do globo do dia 17 de novembro. Os franceses já aceitarem.

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1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.