quarta-feira, 21 de maio de 2014

Artigo implacável de André Lima: "Arrogantezinhos e estridentes"


Se um grupo de música possui alguns integrantes que, no lugar de música, querem fazer propaganda política, se esse grupo é moderado em demasia e não levanta sua voz para condenar e humilhar em público os fanfarrões, a fama da imperícia se espalhará ao conjunto inteiro, efetivando a sua irrelevância. Mutatis mutandis, é o que temos visto acontecer há muito tempo nos departamentos de humanas da USP: um punhado de arrogantezinhos, doutrinados por sindicalistas entrincheirados nos diretórios acadêmicos, a manchar a reputação da universidade ano após ano com a estética e a falta de ética típicas do oitocentismo bronco, enquanto a maioria silenciosa tenta ignorá-los para se concentrar nos estudos. Mas a acédia, nesse caso, funciona como abre alas para que a arrogância impere, e o desejo de não se igualar termina por alcançar exatamente o resultado inverso, já que, à distância, o departamento é uma coisa só. Jon Elster evoca justamente esse argumento para refutar o imperativo categórico kantiano: as consequências podem ser desastrosas se formos bem-sucedidos em generalizar nossas boas intenções, pois se desconsidera aí que o caminho fica livre para o free rider, o burlador das regras, o sujeito que corre pela contramão; uma eficiente campanha de desarmamento, por exemplo, fará com que fiquemos todos desarmados, mas bastará que haja um único espertalhão entre nós para sermos todos rendidos a seu jugo. De modo que, a despeito de nosso amor pelas regras e de nossas boas intenções, o eco da estridência só faz se prolongar, tanto mais quando lhe concedemos o conforto do silêncio cúmplice.
Há sempre um projeto de revolucionário à espreita pelos corredores da FFLCH, pronto para aderir a qualquer causa que o afaste da letargia insuportável do cotidiano burguês. Mas, a não ser que se trate de um raro espécime de bolchevique genuíno, na realidade não passa disso, de projeto, de pastiche; esse esquerdismo que nasce junto com os primeiros fios de barba costuma inclusive fazer troça daqueles que o acusam de ensejar a revolução; isso porque a quase totalidade de sua bagagem filosófica foi adquirida de oitiva, isto é, de orelhada; mal se alcança, desse modo, o significado concreto das teses defendidas; são consumidores compulsivos de oitivas, com que logo alcançam a certeza da onissapiência, e passam então a produzir a espuma da arrogância. Espuma é a sua argumentação em todo debate, sempre pontuada por tiradas sardônicas destituídas de qualquer estofo moral. Alguns são bastante talentosos nesse particular, mas a grande maioria é apenas tacanha; no geral, nem desconfiam que a ironia cabotina e as piadinhas miseráveis dão eco a outro riso, mais antigo e mais perverso: o riso que escarnece da pilha de milhões de mortos no altar do outro mundo possível. Mas nada, absolutamente nada evidencia com maior nitidez a profundidade da ignorância em que estão metidos do que a confusão que fazem com o argumentum ad hominem, estratagema retórico o qual insistem em esgrimir sem ler o manual de instrução; terminam brandindo cabos de vassoura, qual Quixotes que sonhassem ser Sócrates. É sem dúvida escandaloso que tenham distorcido e reduzido o ad hominem a mera crítica ou ofensa pessoal, como se acusa reiteradamente nos debates espumosos de que participam. Outro dia mesmo, um rapaz, achando-se muito esperto em criticar um comentário eivado de erros propositais de concordância (os quais emulavam a fala de um esquerdista bronco), respondeu à questão proposta e na sequência se saiu com a seguinte pérola: “E tem mais: seu comentário está cheio de erros de português. Francamente. Eu não ia mencionar isso, pois sei que é um ad hominem óbvio, mas tem horas que não dá para deixar passar”. Quer dizer: além de não ter compreendido a ironia nos erros propositais, ele conseguiu a proeza de transformar o apontamento desses erros em argumento ad hominem!
Não obstante a incompreensão, vivem incorrendo justamente na canalhice do argumento ad hominem. Um sujeitinho que costuma se passar por moderado e esclarecido nas redes sociais, uma espécie de Montaigne bolchevique, vive os distribuindo sem ter a menor noção disso. Usa sempre a mesma tática: aproxima-se do adversário com certo enfado, buscando com isso se declarar fora da contenda, distante de ambos os extremos; faz então algumas investidas periféricas, sempre distantes do mérito, quase gentis; de repente, o golpe: “Ah, descobri: você é leitor de Olavo de Carvalho. Descobri o seu mentor!”. Acta est fabula: às favas o mérito, o debate se encerrou. Tivesse o pobre diabo a dignidade de ler sobre o assunto, descobriria que está incorrendo nitidamente no argumento ad hominem, isto é, está tentando desqualificar o oponente sem refutar seus argumentos, apenas atacando seu caráter e apontando alguma particularidade sua que supostamente o tornaria equivocado já de saída. Mas o que terá lido da obra de Olavo de Carvalho esse que tenta interditar o debate evocando seu nome como sinônimo de nódoa intelectual? Pouquíssimo. Também aí, não mais que a tosqueira das oitivas. Assombrado com a força de um dos homens mais lúcidos de nosso tempo, limita-se a reproduzir os muxoxos que, em última instância, originam-se da boca de alguns medalhões ali do departamento, os mesmos que foram humilhados por Olavo há duas décadas e que nunca lhe esboçaram uma resposta digna, dando a entender que isso é impossível. Não deixam de dar razão ao filósofo quando ele diz que o ativismo desses acadêmicos diminuiu devido à chegada da esquerda ao poder político no país; o ativismo na academia, diz Olavo, foi legado então aos estudantes, e é assim que se chega ao quadrante tragicômico atual. O que dizer, por exemplo, de outro rapazola que ousou adentrar um debate recentemente com o seguinte anúncio: “Sou pelo partido de que as pessoas são vítimas do meio, o que vai contra Sartre e Aristóteles. Vou aqui primeiro explicar a minha tese, e depois, mais tarde, irei desconstruir as falácias sartreanas e aristotélicas passo a passo, porque acabei de acordar”. Como no clipe de “It’s Only Rock ’n Roll (But I Like It)”, dos Rolling Stones, o ambiente se encheu de espuma, e de imediato tivemos todos de nos retirar.
Mas o que faz afinal um projeto de revolucionário se tornar um projeto de revolucionário? Convém, aos que pretendem opor-se ao maquinário que os fabrica, investigar esse processo. Por exemplo, imaginemos um sujeito que se declara esquerdista deitado em um divã, sendo instado a responder “Por que você é esquerdista?”. Como se trata de um brasileiro, após algumas formulações esparsas, inevitavelmente se cai em um dos temas quentes e que mais induzem a esse posicionamento político: ditadura militar. Ficamos então sabendo que é um esquerdista pois, de acordo com o que aprendeu com algum professor bacana de geografia política, ser de direita é ser simpático ao período em que o Brasil foi governado por uma junta de militares; mais do que isso: ser de direita implica, segundo ele, apoiar os abusos cometidos pelo Estado no período, como sessões de tortura, perseguições e assassinatos.
Bem, aceitemos, por um momento e hipoteticamente, os termos dele. A se utilizar esse critério, seríamos praticamente todos esquerdistas. De fato, ninguém em sã consciência é capaz de defender atos violentos perpetrados arbitrariamente pelo Estado; não se veem multidões nas ruas a defender a volta dos militares ou a defender seus crimes, e é notório que o assunto se tornou motivo de vergonha íntima para o Brasil e para cada brasileiro que aprendeu o básico da história recente do país. Até aqui, portanto, somos quase todos esquerdistas, tirando um contingente ínfimo de antidemocratas. Ocorre que a questão enseja um segundo critério, e este efetivamente diferencia o homem deitado no divã, tornando-o um legítimo esquerdista: sua sensibilidade é seletiva. Assassinatos, perseguições e torturas não constituem, para o esquerdista, procedimentos necessariamente condenáveis, pois tudo depende de qual lado da contenda está recorrendo a eles. Os 475 mortos e desaparecidos vitimados pelo regime militar o sensibilizam a ponto de levá-lo às lágrimas, mas os 119 mortos em atos terroristas praticados à época por grupos de esquerda não o fazem sequer piscar. Tecnicamente, segundo seus parâmetros, tais mortos não pesam nas costas da esquerda; sua justificativa é a de que se tratava de uma guerra, e, como se sabe, não há guerras sem vítimas; mas o Bem e o Justo estavam com os rebeldes, e só a morte deles deve ser lamentada, já que buscavam implementar a democracia no país. Mas espere: evidências históricas comprovam que grupos terroristas de esquerda já atuavam no Brasil em 1961, em plena democracia, bem antes do golpe de 1964; atuavam, aliás, desde muito antes – ou não houve a intentona comunista em 1935? Objetivavam, isto sim, instalar por aqui um regime comunista aos moldes da revolução ocorrida em Cuba em 1959; tudo em consonância, hoje sabemos, com as resoluções dos encontros de dirigentes comunistas de várias partes do mundo, ocorridos em Moscou em 1957 e comandados pelo ditador Kruschev, nas quais se estabeleceram novas metas para distender o comunismo pelo globo. Tais fatos, porém, jamais serão admitidos pelo sedizente esquerdista, pelo simples fato de que ele os desconhece; se alguém tenta alertá-lo, ele recusa de pronto a verdade, estabelecendo uma barreira psicológica decisiva para o funcionamento de seu sistema moral; por meio dessa prodigiosa operação é que consegue dar vazão a sua sensibilidade seletiva.
É preciso, no entanto, ir um pouco mais fundo no subconsciente do rapaz estirado no divã: o que terá dito o professor bacana de geografia de tão extraordinário, a ponto de arrebatá-lo pelo resto da vida? Certamente não foi apenas a falsificação da história pelo maniqueísmo chulo entre rebeldes bonzinhos e militares malvados; essa é só uma das raízes do salgueiro. Alguma outra mensagem foi forte o bastante a ponto de cair na corrente sanguínea e ir direto para o coração, para nunca mais sair de lá. O triunfo do professor, como em toda ocasião em que o conteúdo conta menos do que a forma, se dá por meio da simplificação: nada pode ser mais providencial a um jovem confuso e cheio de angústias (considerando-se o plano da consciência em seu dilema existencial) do que um mestre que se expressa em uma linguagem compreensível, e que – melhor – traz notícias instigantes de certa realidade secreta, de operações realizadas nas sombras com o intuito de construir um mundo melhor. Além de se sentir acolhido, agora o jovem se sente importante, depositário de um segredo que o insere em um plano maior; torna-se parte de um sistema complexo que o arranca, enfim, da letargia insuportável do mundo burguês. São os hormônios. E isso é tudo: a disseminação da doxa esquerdista se dá por meio desse prosaico método de simplificação de conceitos. Prova inconteste disso é o sucesso do vídeo em que o sujeito conhecido como PC Siqueira explica aos incautos o significado político dos termos esquerda e direita: em sua ótica vesga, ser de esquerda é defender a distribuição de renda (“distribuir o dinheiro entre todas as pessoas”), ao passo que ser de direita é defender o acúmulo de capital (“ser a favor de que as pessoas possam ficar ricas, não importa se isso faça as outras pessoas ficarem pobres”). Como se vê, é muito mais fácil se contentar com essa bandeja de danoninho ideológico do que estudar a teoria dos jogos ou a crítica da razão pura de Kant. Vá agora explicar aos dois milhões de usuários inscritos no canal de vídeos de PC Siqueira que o liberalismo não é um jogo de soma zero, para ficar na teoria dos jogos; que, para fazer sentido a suposição de que uns ficam ricos à custa de outros ficarem pobres, seria preciso considerar a absurda hipótese de que a riqueza contida no mundo é constante e imutável. A esse respeito, o economista Flavio Morgenstern sintetizou recentemente tanto a teoria e os fundamentos do liberalismo quanto os equívocos primários de seus críticos no excelente artigo “Uma única lição de economia”:
“A riqueza não existe na terra ou no ar como algo que alguém simplesmente toma para si: ela é criada, e criada através do trabalho. (…) Crê-se que os ‘ricos’ apenas são ricos por terem, num passado remoto, usado de força para tomar tal riqueza, ‘explorando’ os pobres para tomarem seu quinhão, deixando-os mais pobres no processo. É como se no mundo existissem sempre 100 moedas de ouro, e se, entre 100 pessoas, alguém possui mais de uma moeda, foi por ter ‘roubado’ do outro. (…) Se a fé da riqueza estanque possuísse credibilidade, não haveria crescimento econômico, nem diferenciação no PIB que não passasse exatamente para outro país. Os homens das cavernas, raros que compartilhavam o mundo inteiro, seriam muito mais ricos do que Bill Gates.”
Ou seja, o que escapa a PC Siqueira é que os homens precisam se empenhar para produzir riqueza, ela não está simplesmente disposta na natureza pronta para ser repartida. Mas, pensando bem, qual o significado concreto da proposição que, segundo ele, é o lema da esquerda (distribuir o dinheiro entre todas as pessoas)? De que dinheiro se trata aí? Se uns produzem riqueza, nada mais justo que fiquem com ela; terão de distribuir uma parte por meio dos impostos e dos empregos que serão gerados; ora, se ao invés disso essa nova riqueza for simplesmentedistribuída, será muito mais cômodo então ficar sentado em casa esperando o seu quinhão nas próximas riquezas criadas e repartidas; e, se quem fica em casa recebe o mesmo quinhão que o sujeito que se empenhou e forjou a riqueza, quem diabos vai querer ter o trabalho de se empenhar em novas ideias, esforços corporais, noites mal dormidas, tudo para levar adiante algum projeto mirado no progresso? Ora, o progresso nesse caso pode ser alcançado sem um pingo de suor, apenas contando com a benemerência dos que preferem o esforço ao ócio. Mas, uma vez que o conjunto de situações atenta contra o mais básico senso de razoabilidade, simplesmente nada disso acontece. O ideal socialista surge para suprimir especificamente essa dificuldade, ao propor que cabe ao Estado efetuar a distribuição, de modo a desestimular o ímpeto desbravador dos indivíduos e extinguir a desigualdade com um método radical: para que não haja mais desigualdade entre os homens, fica estabelecido que ninguém mais poderá criar riquezas; esta será uma prerrogativa exclusiva do Estado. Todas as nações que sucumbiram aos encantos da mágica socialista foram a pique, como atestam os registros históricos; provou-se que a burocracia estatal é incompatível com a eficiência própria do giro da economia, e na ausência do espírito desbravador dos indivíduos livres, às voltas com a produção de riquezas, qual um tiranossauro tentando esculpir vasos de cristal, resta ao Estado tão somente distribuir a miséria igualmente e impor a necessidade equânime. E, diante do colapso, muros são erguidos para impedir que os cidadãos fujam do experimento, num lance diabólico que ainda hoje é tolerado pela comunidade internacional, como mostram nações-presídio como Cuba e Coreia do Norte.
É o socialismo, portanto, que anima os pruridos de justiça de todos esses arremedos de revolucionários. Mas aqui estamos muito além do plano de sua consciência. Eles próprios não são capazes de fazer essa genealogia: estão ali no ponto em que o professor de geografia os deixou, entusiasmados com a missão e a mensagem social de que se sentem imbuídos, mascando os fiapos de oitivas, atormentados pelos hormônios. Se dissermos que a matriz e a consequência lógica de suas proposições é o socialismo, se sairão com as mesmas piadinhas e as mesmas acusações de paranoia. São vítimas da própria desídia; no sentido de que, pela espuma, demonstram a debilidade de sua capacidade cognitiva, resultado tão somente da falta de iniciativa, além do orgulho que os impede agora de reconhecer a própria estupidez.
Serão eles, os fanfarrões entediados, os próximos professores bacanas de geografia. Nessa perspectiva, a operação toda se assemelha a um encantamento que impede uma geração de amadurecer, a qual deverá, por sua vez, impedir o desenvolvimento intelectual da geração seguinte, e assim sucessivamente. O encantamento, como já se viu, não passa de um punhado de ideais equivocados de justiça, refutados vinte vezes pelos fatos e pela história, condensados em uma linguagem simples e assimilável, de modo produzir no cândido ouvinte o efeito de uma brisa. É uma sina que atualmente acomete especialmente as tantas vezes trevosas nações latino-americanas. Mas essas são questões já muitas vezes tratadas, destrinchadas por analistas muito mais competentes. Faltava apontar com mais vigor o quanto isso tudo está presente em alguns corredores de nossa melhor universidade, a ponto de a voz estridente do atraso às vezes ser a única a soar. Se não serve como oportunidade para que se opere a purgação revigorante de uma autocrítica, posto que o orgulho talvez já os tenha tornado irrecuperáveis, que a análise sirva de estímulo para que a maioria saia da zona de conforto. Ou que sirva à posteridade como registro de que o coro dos irrelevantes não era unânime.

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