quarta-feira, 7 de maio de 2014

Downton Abbey: impressões

Por André,

Castelo onde Downton Abbey é gravada. O castelo também funciona como hotel e é possível passar algumas noites nele em visita a Inglaterra

Há cerca de um mês comecei a assistir a série Downton Abbey. O seriado é nomeado a partir de uma propriedade onde habitam nobres ingleses da época vitoriana. O dilema inicial é o casamento, e respectiva manutenção da propriedade com a família (que depende, justamente, do matrimônio) da primogênita de Lorde Grantham, Lady Mary.

Para um admirador da Grã-Bretanha, da englishness e de tudo mais relacionado à Grã-Bretanha como eu, inclusive a cultura local, Downton Abbey é uma série de época extraordinária. A série data do período vitoriano e passa pela primeira guerra mundial, o que dá uma tônica interessante a alguns episódios e uma noção do clima vivido pelos habitantes das nações em conflito. Embora as primeiras temporadas sejam superiores às últimas, os romances são núcleos mais fortes do enredo nas temporadas iniciais, o que particularmente não me agrada tanto.

Há diversos aspectos curiosos em Downton Abbey, que embora não possa ser considerado um documento histórico, tem sua fidelidade guardada à época:

- O conflito entre a tradição, o conservadorismo e até a monarquia e a modernidade, o "liberalismo" e a crítica ao republicanismo e aos motins de independência da Irlanda.

- A distinção entre os empregados e a aristocracia é bastante nítida na época representada pela primeira década do século XX, porém, não há empregado que se vista mal ou não demonstre decoro. Se as fronteiras que separavam as classes eram mais nítidas, as que separam as boas maneiras e  bom gosto eram praticamente imperceptíveis.

- Os empregados de uma residência grande como Downton Abbey vivem em eterno conflito. Disputas, inveja, tentativas - fracassadas ou não - de impressionar a realeza. Nem sempre esses conflitos foram interessantes.

Um defeito da série são as pequenas histórias não-resolvidas, que simplesmente surgiram abruptamente e saíram de cena da mesma forma: o pretendente da sra. Hughes, o suposto primo morto no naufrágio do Titanic, que aparece desfigurado alegando ter sido atingido por uma bomba na guerra e alega ter sofrido de amnésia, o affair do lorde com uma empregada também foi mal explorado. Me pareceram histórias criadas pelos roteiristas para preencher espaços vazios ou que os mesmos simplesmente se arrependeram imediatamente após criadas.

A despeito disso, a série é muito interessante e o elenco é muito bom e desperta no espectador atento aquela sensação de que perdemos algo no meio do nosso percurso ruma à ultramodernidade. Certamente meus personagens favoritos não são os de muitos fãs, mas explico meus motivos abaixo.

Condessa-viúva Grantham, magistralmente interpretada por Maggie Smith
A Condessa-viúva é a única conservadora prudente em Downton Abbey. Não abre mão do que crê, mas sempre é capaz de manejar a situação de forma que culmine na melhor e mais inteligente solução para todos. Suas trocas de farpas com sua prima Isobel são sempre motivo de risadas (sempre torço e aposto em Violet).

É um exemplo excelente da englishness que falei, no primeiro episódio dantesco da série, a morte do sr. Pamuk, um diplomata turco que visitou Downton Abbey, Violet afirmou "um homem inglês jamais morreria na casa de outra pessoa". Até mesmo a aventura de Lady Mary com o mesmo sr. Pamuk foi contornada com razoabilidade pela Condessa.

Sr. Carson, o mordomo, é outro dos meus personagens favoritos
Carson é mordomo da mansão e é responsável por todos os empregados, inclusive por resolver as intrigas dos mesmos. Se orgulha de jamais ter sido chamado de "liberal" na vida. Embora goste muito de Carson, falta-lhe a prudência da Condessa-viúva. Espantou-se com a chegada de diversas novas tecnologias na mansão, especialmente o telefone. Ao que parece, é a tônica da profissão que os mordomos sejam reacionários, Carson, Pratt e Molesley são.

Tom, o chofer do Conde que se casa com uma de suas filhas
Tom não é exatamente um dos meus personagens favoritos, mas ele é uma boa ilustração de uma personalidade. Na série é o chofer do Conde Grantham, irlandês, católico e revolucionário "do bem". Tom é versado, segundo o próprio Conde, em "Marx e Stuart Mill". Mas não é o típico revolucionário mal caráter, precisa quebrar a cara com a realidade senão para mudar de opinião, para relaxar seu radicalismo. Leva sua esposa Sybil para um motim político (ainda que por engano), onde a mesma termina agredida e se envolve numa depredação de propriedade da aristocracia na Irlanda, onde a família de nobres acaba quase morta. Tom não é capaz de linkar seu desejo por um "mundo melhor" com as inevitáveis consequências nefastas de sua ideologia política. Se mostra surpreso quando a família real russa é morta à beira da revolução bolchevique.

Sybil é caçula do lorde Grantham, de uma beleza peculiar, grande coração e também é um ponto de inflexão na família. Disposta a abrir mão dos títulos de da família para se casar com o chofer. Vítima da falta de habilidade médica.

A Condessa é muito simpática, o Conde é um sujeito admirável, embora em diversos momentos muito confuso em suas ações e em pelo menos metade das vezes é repreendido por sua mãe, esposa ou filhas. Sybill tem um grande coração e Lady Mary é a mais bela de todas, em minha opinião.

Quem quiser ouvir uma série de observações com as quais concordo sobre a série, o pessoal do blog e podcast "Desconstruindo" fez um episódio sobre a série (eles começam a falar depois do minuto 17).

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