quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Dois critérios que utilizo como medidores de honestidade intelectual

Por André,

Costuma usar dois critérios para medir a seriedade e a honestidade intelectual daqueles que se propõem a participar de discussões públicas e usualmente classifico como picareta sem qualquer peso na consciência aqueles não cumprem a algum deles. São:


A) o sujeito em questão acertou alguma coisa sobre a área em que se pronuncia publicamente? Uma vantagem concreta de se servir de raciocínios lógicos é ver alguns passos a frente na concatenação de fatos, tal como prever jogadas posteriores no xadrez. Se você realmente entende do que está falando é natural que "preveja" coisas com exatidão; também é perfeitamente legítimo que seja cobrado que o faça. Se sobra palavrório e faltam acertos, sinal que é muita idealização e pouco conhecimento da realidade concreta - ou é simples desonestidade mesmo. Uma teoria científica que não faz predições é uma péssima teoria científica.
Não se trata de um critério absoluto, mas é interessante. Muito antes da mídia oficial dizer que o duguinismo é a doutrina diretora da mente de Putin e Dugin é o mais proeminente defensor do eurasianismo, Olavo de Carvalho já havia debatido com o próprio Dugin, ainda anteriormente lido os autores que fazem a cabeça do sujeito e antecipado que o eurasianismo é uma das perigosas doutrinas políticas vigentes no planeta. Este é apenas um exemplo; em 2006 Olavo foi acusado de ser agente da CIA, pois só um agente da CIA poderia "saber dessas coisas". Este é apenas um exemplo de tantos possíveis. Checar se seus "gurus" acertaram algo ao longo de suas carreiras pode ser um primeiro exercício para rever quem merece continuar a ser lido*.


B) o sujeito em questão está disposto a debater as ideias que defende? Exceto em casos pontuais (em que debater pode ser prejudicial ou simplesmente inútil), não creio que um honesto conhecedor de algum assunto se negue a debater algum tópico relacionado ao conhecimento que supostamente domina. A crítica livre e pública é essencial para o aperfeiçoamento das ideias caso sejam boas ou para o abandono delas caso sejam ruins. Se o indivíduo se furta ao debate, sinal que algum tipo de fraqueza há aí. Não pôr ideias à prova vai contra toda a lógica da pesquisa científica atual, a própria noção, ao menos em tese, do "peer review article" gira em torno de submeter duplamente qualquer artigo ao escrutínio de dois pesquisadores.

Não que esses sejam os únicos critérios possíveis, mas quando percebo que um dos dois não é atendido, rapidamente dispenso o falante em questão. 
Praticamente todo filho das Humanidades brasileiras que se julga conhecedor o bastante para propalar sua opinião por aí sobre a mais variada gama de assuntos não sobrevive aos testes A e B. Não sobrevive a A porque é um bostinha que no máximo leu dois livros na vida e jamais poderia ter previsto qualquer coisa. "A" requer erudição, informação e tempo. Tampouco sobrevive a B porque ainda que inconscientemente sabe que um debate público apenas exporia contradições latentes e constituiria vergonha histórica.


E quando falo debate falo daquilo que tradicionalmente se entende pelo termo e não no encontro de comadres que convencionou-se batizar de debate em nosso país. Por debate entendam o que ocorreu, por exemplo entre Vladimir Safatle e Stephan Molyneux, onde cada um se localiza praticamente a 180º da posição do outro (e apresentando como resultado o opróbrio que mencionei) e não o piquenique feliz entre Marilena Chaui, o mesmo Safatle e outros em arremedo de debate na USP.

*No lançamento de seu "As ideias conservadoras", em 4 desse mês, João Pereira Coutinho estabeleceu uma distinção interessante: pensadores que erram no essencial e acertam no marginal e aqueles que acertam no essencial e erram no marginal. Marx foi classificado pelo próprio Coutinho como um pensador do primeiro tipo. As previsões essenciais de Marx se mostraram vastamente equivocadas: as revoluções socialistas ocorreram apenas em países agrários e não nos mais ricos, é uma questão de tempo para que o capitalismo se auto-destrua (quando na verdade, usando exemplo do próprio Marx, na Holanda onde ele primeiro chegou segue firme e forte), entre outras (sem mencionar que a obra magna de Marx - O Capital - é uma descrição boa do capitalismo, é preciso ter cuidado para não contar descrições como previsões. Em geral, Marx errou suas previsões decisivas e essenciais.

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