terça-feira, 5 de agosto de 2014

“Sobre a defesa da Beleza”, Roger Scruton

Da Revista Terminal,


Para o bem ou para o mal, eu fui identificado pelo establishment britânico como a pessoa com quem se pode contar para defender o indefensável e que pode receber permissão para defender o indefensável até em uma televisão estatal (quer dizer, a BBC), desde que a defesa seja suficientemente diluída por outros que defendem o óbvio. No código oficial, “indefensável” quer dizer “conservador”, enquanto que “óbvio” quer dizer “liberal-esquerdista”. Assim sendo, quando a BBC me pediu para participar de uma série de televisão sobre a beleza [exibida em 2009], esperava-se que eu sustentasse que tal coisa realmente existe, que não é só uma questão de gosto, que ela está ligada ao nobre, àquilo a que se deve aspirar e ao que há de sagrado em nossos sentimentos, e que a cultura pós-moderna, que enfatiza a feiura, o desalento e a profanação, é uma traição a um chamado divino. Então, foi isto o que eu disse, já que, afinal de contas, era para isto que eles estavam me pagando. Para alcançar o equilíbrio que a BBC é obrigada por seu regimento a apresentar, dois outros programas foram encomendados, reafirmando as ortodoxias. Eles afirmaram que a arte não tem a ver com a beleza, mas com a originalidade, e que originalidade quer dizer você se exibir, com a língua (ou algum outro órgão apropriado) para fora.
Em Por que a beleza importa, eu falei um pouco sobre arte, mas estava mais preocupado em chamar atenção para o lugar da beleza na vida cotidiana — nas maneiras, nas roupas, na decoração de interiores e nos edifícios comuns em arquitetura vernacular. Eu critiquei tanto a arquitetura funcional de concreto e vidro, que destruiu cidades em todo o mundo, quanto as maneiras egocêntricas que fizeram o mesmo com a vida doméstica. Tentei explicar por que os filósofos do Iluminismo acompanharam Shaftesbury, ao colocarem a beleza no centro do novo código de valores seculares. Para Shaftesbury, Burke, Kant, Schiller e seus seguidores, sugeri eu, a beleza era o caminho de volta para o mundo que eles estavam perdendo com a perda do Deus cristão — o mundo do sentido, da ordem e da transcendência, que deve ser constantemente emulado neste mundo se quisermos que nossas vidas sejam verdadeiramente humanas e verdadeiramente plenas de significado. E afirmei em seguida que desde as piadas pueris de Marcel Duchamp, repetidas reiteradas vezes em toda mostra de faculdade de artes na Grã-Bretanha, um hábito de sarcasmo e profanação tinha se apoderado do exercício das artes visuais.
Daí os artistas britânicos de hoje — pelo menos os reconhecidos pela cultura oficial — não terem muito mais a nos mostrar além do quanto são repulsivos.  Parecia-me óbvio que a pintura de Delacroix mostrando sua cama por fazer (na Maison Delacroix, em Paris) era uma verdadeira obra de arte, que mostra algo sobre a condição espiritual humana, enquanto que a famosa cama de Tracey Emin (na galeria Tate Modern, em Londres) é só uma cama desarrumada. Podemos deduzir, pela visão desta cama, um bocado a respeito da pessoa que a desarrumou, mas isto não a distingue de nenhum outro entulho deixado no rastro de uma vida humana. O sentido superior que é a meta da arte — o sentido que mostra por que a vida importa — é algo que esta cama não alcança nem tem como meta.
Eu recebi mais de 500 e-mails de telespectadores, todos eles (exceto um) dizendo: “Graças a Deus alguém está dizendo o que é preciso ser dito,” metade deles acrescentando, “mas como é que deixaram você dizer isso na BBC?” Enquanto isto, os resenhistas juntaram-se em bando para lamentar o caráter triste, anômalo e reacionário do pobre Scruton, e agradecer à BBC por mostrar o absurdo e o anacronismo das opiniões do professor já idoso. Waldemar Januszczak, que fez um outro dos filmes da série sobre a beleza, preparou um verdadeiro libelo para assassinato de caráter no Sunday Times, a fim de aconselhar seus leitores, antes da exibição de meu filme, a desconsiderarem o que quer que eu pudesse tentar lhes dizer.
O episódio foi, para mim, revelador e instrutivo a respeito de meu país e sua cultura. Eu não digo que meu filme tivesse qualquer outro mérito além de sua honestidade. Mas ele gerou provas esmagadoras de que sua visão da arte e da estética é compartilhada por muitos espectadores britânicos, e de que a cultura oficial não só está divorciada destas pessoas como é profundamente hostil ao que elas acreditam, ao que elas sentem e ao que elas aspiram. A arte niilista de nossa época é repassada ao povo britânico como uma reprimenda, que ele deve aceitar com toda humildade e com um espírito de arrependimento por ter desejado algo de “superior.”  Não existe nada de superior — esta é a lição a ser aprendida com a  Jovem Arte Britânica, e com as pilhas de lixo sem nexo que ela manda para nossos museus e galerias. Só podemos entender a condição humana, ela nos diz, se adotarmos uma postura de grosseria e confrontação e se pusermos a língua para fora.
ESTE É SÓ UM ASPECTO DE algo que os americanos em visita à Grã-Bretanha notam cada vez mais. Nos anos 50 e 60, quando minha geração estava crescendo, os britânicos eram ativamente engajados pelo sistema educacional e os mundos da arte e da religião a uma cultura da aspiração. Esta foi a época de Henry Moore e Benjamin Britten, de Graham Sutherland e Michael TippettW. H. Auden era uma voz importante, assim como era o ex-americano T. S. Eliot. A Grã-Bretanha era um lugar de grande significação histórica e religiosa. Era um privilégio pertencer a esta terra, e por toda a parte a história nacional tinha deixado as marcas e os prodígios de um modo de vida superior. Correndo o risco de exagerar, pode-se dizer que meu país, naquela época em que a geração do baby boomavançava em direção a uma perpétua imaturidade, era um ensaio da redenção. Sua arte, cultura e religião eram devotadas ao ideal de uma comunidade na qual a decência, a curiosidade e a abnegação tinham o domínio de tudo. E nela restava, como uma espécie de sobra da propaganda do período da guerra, a crença no gentleman, que encara a vida com uma postura de devoção auto-sacrificial a ideais sem sentido – quer dizer, sem sentido segundo o ponto de vista do observador cínico, mas que não eram sem sentido de forma alguma, dado o espírito com que eram aceitos.
O americano em visita à Grã-Bretanha hoje, e sobretudo se ainda tiver lembrança daquele mundo extraordinário no qual a decência, a autocensura e o queixo duro eram os princípios dominantes, muitas vezes recua com horror diante do que encontra. A cultura pública é a do apetite e da sátira, e o país inteiro parece querer escandalizar, como se estivesse com uma língua coletiva para fora. Muitos amigos americanos me dizem isto e falam sentidos a respeito da mudança, daquela Grã-Bretanha que eles costumavam visitar com uma sensação de voltarem para casa, para a  Grã-Bretanha que eles visitam hoje, que é uma terra de estranhos. O interessante, entretanto (e a reação a meu filme parece confirmar isto), é que muitos dos britânicos concordam com eles. Os britânicos estão numa terra de estrangeiros, e a cultura que os governa é de uma natureza à qual muitos de meus compatriotas não podem pertencer de coração.
ethos oficial que predomina nas escolas e universidades, e também no Partido Trabalhista, é de desprezo e repúdio aos antigos ideais. A cultura oficial britânica é retratada com exatidão pela cama de Tracey Emin. É uma cultura de caos emocional e simpatias aleatórias, na qual lealdades tradicionais não desempenham nenhum papel. A própria Emin é filha ilegítima de um cipriota turco e sua situação é típica de sua geração. Incapaz de identificar-se com um país ou um modo de vida, educada por um currículo de contos de fada multiculturalistas e aprendendo na escola de arte que você encontra seu lugar no mundo através da transgressão e da autoexibição, ela teve o bom-senso de ser um verdadeiro caos visível ao público. Seus trabalhos podem não ser obras de arte, no sentido em que minha geração foi educada a compreender este selo honorífico, mas eles mostram um mundo que a cultura oficial da Grã-Bretanha optou por endossar.
A prova circunstancial da reação a meu filme não demonstra nada. O que eu sei é que muita gente por aí sente o que eu sinto. Eles concordam comigo em que a beleza importa, que a profanação e o niilismo são crimes e que deveríamos encontrar um modo de elevar nosso mundo e dotá-lo de uma significação mais do que mundana. Mas talvez outros tantos ou até mais acreditem na fábula “multicultural” oficial, que nos diz que não há nada de especial na Grã-Bretanha, que os antigos ideais e dignidades são meras ilusões e que o objetivo da arte é cobrir de desprezo os valores das pessoas antiquadas. E se a impressão dos visitantes americanos estiver correta, não é só a cultura oficial, mas também a geração ascendente de neobritânicos que se decidiu pela zombaria à dignidade e pela transgressão às normas da vida social. Se for assim, então, foi feita justiça a pelo menos uma parte de meu filme: a saber, que a beleza importa e que não se pode cobri-la de desprezo sem se perder de vista o sentido da vida.

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