sábado, 20 de setembro de 2014

Príncipe Charles e o Islã


O Príncipe Charles da Inglaterra é conhecido pela sua proximidade com o mundo islâmico. Além das suas constantes viagens aos países de maioria muçulmana, especialmente Turquia, encontra-se a sua intimidade com autores da filosofia perene, como Fritjof Schuon, Martin Lings e Seyyed Hussein Nasr, os dois primeiros convertidos ao islamismo. Também já declarou que estudou o árabe buscando ler o Corão em sua língua original, o que não é, de fato, comprovação de conversão ao islã. Contudo, o que soa mais estranho é o modo como compartilha dos axiomas do perenialismo, ou seja, que a restauração do Ocidente se encontra na adesão aos fundamentos místicos, espirituais e humanos da religião fundada por Muhammad. Ainda que não seja um convertido ao islã, e qualquer afirmação sobre isso entraria no campo da suposição, é incontestável que a sua cosmovisão está amplamente fundamentada nos pressupostos da gnose muçulmana.

O filho da Rainha Elisabeth, em diversas declarações públicas, coloca-se como o mais importante difusor das ideias da filosofia perene. O islamismo, dentro dos ensinamentos de Guénon e Schuon, seria a resposta mais eloquente aos males espirituais e culturais do Ocidente. Tanto como uma resposta ao secularismo, como também ao próprio cristianismo “caduco”, incapaz de conduzir a uma experiência de transcendência. Essa “restauração” espiritual, ponto fundamental do pensamento perenialista, encontra-se na reconstrução da elite espiritual, fundamentada nos pressupostos da gnose islâmica. Grande parte do ideário da filosofia perene está baseado na mística muçulmana, seja no seu aspecto estrutural-hierárquico como nos ensinamentos a respeito do conhecimento de Deus. O Príncipe Charles, ao que parece,endossa partes desses ensinamentos.
“Islam can teach us today a way of understanding and living in the world which Christianity itself is poorer for having lost. At the heart of Islam is its preservation of an integral view of the Universe. Islam-like Buddhism and Hinduism-refuses to separate man and nature, religion and science, mind and matter, and has preserved a metaphysical and unified view of ourselves and the world around us.”
Além desses aspectos filosóficos-gnósticos, o futuro Charles III demonstrou a sua proximidade com o mundo islâmico em realidades mais concretas. Em 1989, quando Ayatollah Khomeini emitiu uma fatwa contra Salman Rushdie, por conta do seu livro “Versos Satânicos”, o Príncipe inglês se recusou a interceder pelo escritor indiano, alegando que a sua obra atacava as profundas convicções dos muçulmanos. Contudo, em visita aos EUA depois do “11 de setembro”, foi ele o intercessor do mundo islâmico junto ao Presidente Bush, numa tentativa de fazê-lo compreender a riqueza cultura e humana dessa Civilização. 

Obviamente que um interesse intelectual não é atestado de conversão. Muitos são os estudiosos do mundo islâmico – islamólogos – que não professam a fé muçulmana. O cerne da questão não está em reconhecer a riqueza cultural e espiritual do islã. Apenas islamofóbicos enxergam dificuldades em afirmações como esta. Tampouco há grandes problemas em entender o esforço do Príncipe em propiciar uma maior integração entre os imigrantes muçulmanos e a sociedade britânica. Alguns encontram provas da conversão do Príncipe Charles na fundação do Centro de Estudos Islâmicos, na Universidade de Oxford, em 1985. Contudo, todas as grandes universidades têm centros dedicados a esta temática, dentre os quais se encontra o Centro de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres, fundado em 1916 e por onde passaram muitos dos grandes islamólogos contemporâneos. No Brasil existem centros similares, como Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia. A Igreja Católica também mantém um instituto exclusivamente dedicado ao estudo do islamismo, o Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos

O interesse acadêmico pelo islamismo, portanto, não é prova de adesão de consciência à fé islâmica. Contudo, o Príncipe Charles, conhecedor da filosofia perene, parece ter encontrado na religião muçulmana um substrato teórico para grande parte dos axiomas modernos, como o ambientalismo e o multiculturalismo. A origem da crise moderna, seja no campo ambiental como social, é uma crise espiritual, de desintegração da unidade pisco-espiritual do homem contemporâneo. Assim, a solução estaria na recuperação do sentido transcendente, da integração do homem consigo mesmo e com a natureza. Ainda que a leitura seja feita de modo correto, a resposta encontrada pelo Príncipe Charles está na experiência esotérica islâmica. 
“The inconvenient truth is that we share this planet with the rest of creation for a very good reason - and that is, we cannot exist on our own without the intricately balanced web of life around us (...) Islam has always taught this and to ignore that lesson is to default on our contract with creation.”
Por mais que a proximidade do futuro Rei da Inglaterra com o islamismo seja notória, e mais do que um interesse intelectual, nunca saberemos se de fato o seu coração e os seus lábios professam a “shahada”. Ao ver na fé islâmica a chave de transformação da realidade corrente britânica, o filho da Rainha Elisabeth fortalece os teóricos da conspiração que afirmam que a sua conversão é um fato. Contudo, o que é facilmente detectável é que o Príncipe Charles, em grande medida, endossa e fortalece o coro de agentes culturais promotores do islamismo no Ocidente. Entretanto, nunca saberemos se a sua atuação é fruto de um esforço orquestrado ou apenas reflexo da típica inocência de um homem educado sob os paradigmas do relativismo europeu.

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