segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Breve análise do resultado eleitoral e perspectivas futuras

Por André,



Muitos amigos estão literalmente tristes. Eu diria que estou decepcionado. Decepcionado porque nunca estivemos tão perto de tirar o PT do poder. Mas sigo com uma tese que carrego desde 2006 e cansei de expor no finado Orkut: o verdadeiro momento de derrotar o PT era aquele. Em verdade, era antes, em 2005, com o mensalão - o investigado, julgado e condenado mensalão, que faz nomes históricos do PT comemorarem a vitória direto da Papuda. A oposição preferiu a estratégia do "deixar sangrar até as eleições" e um Geraldo Alckmin sem apoio pleno do tucanato perdeu as eleições para Lula (com uma massa eleitora de votos maior que a de Aécio no primeiro turno, frisamos).

Deixar isso passar foi um erro estratégico impagável e imperdoável. É ele que até hoje dá vazão para petistas de carteirinha, gente com medo de perder a boquinha, petralhas e simpatizantes flertarem com o argumento que se tornou o carro chefe do posicionamento pró-PT entre gente parcialmente esclarecida:  "o PT rouba mas faz, rouba mas (sic) ajuda os pobres". É a clássica estratégia dos fins justificando os meios aplicada à realidade política nacional.

Já também em 2006 eu alertava para o terrorismo eleitoral do PT: a ideia que seus oponentes acabariam com o Bolsa Família se eleitos. Em 2006 e 2010 ninguém falou praticamente nada a esse respeito, o PT consolidou a prática e seria ilusório achar que não o fariam novamente este ano. A oposição deixou sangrar e ela que morreu de hemorragia. Também já nessa época eu chamava o Bolsa Família de uma "máquina legal de compra de votos". Com ou sem terror muita gente votaria no partido que lhe garante algum trocado todo mês. O programa neoliberal vingou. Nenhum oponente acabaria com o mesmo porque seria suicídio eleitoral. Talvez algum membro da oposição trabalhasse para que 1/4 do país DEIXASSE o programa por não precisar mais dele. Talvez. E é claro, caso o PT tivesse perdido agora e o próximo presidente NÃO acabasse com o BF (ou talvez expandisse o programa, como era a proposta do Serra em 2010).

É inegável que a campanha de 2014 foi a melhor da oposição. Mas ainda com diversas falhas. O marqueteiro do PT conseguiu a proeza de fazer o governo Dilma ter a melhor avaliação dos quatro anos apenas manejando cacoetes e slogans durante o período de campanha. É um feito e tanto.

Contudo, o PT sai derrotado em alguns sentidos: o congresso, até prova em contrário, tem uma oposição larga e bem estabelecida. Os governos estaduais continuam razoavelmente bem distribuídos, Dilma foi bastante mal votada nas regiões mais ricas e desenvolvidas do país (e isso tem mais que apenas um significado simbólico ou regionalista, mas também em termos de investimentos e oposição ao longo dos quatro anos). O PMDB estava a plenos pulmões para mudar de lado e isso pode ser útil em eventual CPI da Petrobrás e no desenrolar dos depoimentos de Alberto Youssef.

Estrategicamente falando, embora me mantenha extremamente cético quanto a possibilidade disso efetivamente acontecer, o que deve ser feito é o seguinte: toda essa massa que se cansou do PT e de seu projeto e pretendia tirá-lo do poder precisa ser capitaneada em torno de um líder (que poderia ser Aécio Neves, mas a julgar pelo seu discurso de derrota não é o que ele pretende ser) e formar uma militância que vai trabalhar pelos próximos 4 anos no mínimo e não aparecer na véspera da eleição a trancos e barrancos. É claro que isso é tarefa difícil, principalmente quando a oposição da concorrência é profissional, bem remunerada e especializada em fazer apenas isso. Mas esse quadro é indispensável para quem pretende concorrer com o aparelhamento das instituições, da cultura, das universidades, das escolas e de tudo mais que dita as regras do debate (por exemplo: quando você culpa o Nordeste pela vitória de Dilma, você debate no terreno do adversário, é impossível sair vitorioso dessa discussão, entrar nela é perder).

É isso que a direita americana faz melhor, muitas ideias não passam ao debate público antes de serem crivadas por experts de think tanks conservadores. O debate deixa de ser um monólogo e deixa de ser categorizado pelo adversário (ou você é um paulista preconceituoso ou um nordestino recebedor do BF, ou você vota no PT ou vota no partido do Herodes etc etc.). É isso que precisamos fazer.

Alexandre Borges, em texto na sua página no Facebook mostrou como a esquerda profissional age quando sofre uma derrota, ela junta os cacos e funda o Foro de São Paulo:
Não custa lembrar que a reação de Fidel Castro ao ver a queda do Muro de Berlim foi fundar o Foro de São Paulo com Lula. Nada de chororô, nada de dar cabeçadas na parede e em 12 anos Lula foi eleito presidente no Brasil, que vai para o quarto mandato consecutivo. 
Lembre disso: o outro lado já perdeu e feio. O que eles fazem quando perdem? Juntam os cacos, sacodem a poeira e voltam pra briga. O que fazem quando ganham? Dão um jeito de usar o estado para continuar no poder. Eles sabem que política é uma guerra e quando apenas um dos lados está guerrando o resultado final será sempre o mesmo.
A estratégia é essa, a pergunta é: há tempo, interesse, coragem, habilidade e competência para fazer isso ou o debate continuará sendo em meio a uma troca de tapas para dizer se a culpa pelo PT no poder por 16 anos é ou não do Nordeste? 

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