sexta-feira, 7 de novembro de 2014

11 dicas para escritores iniciantes por Rodrigo Gurgel


Para alguns escritores novatos, o mais difícil é começar. E não me refiro à primeira palavra na folha em branco ou na tela do processador de texto, pois a angústia do jovem escritor — ou daquele que fica esperando a “melhor ocasião” — está ligada, muitas vezes, à idéia inicial e ao argumento.

Pensando nesse escritor, elaborei 11 dicas. Ficou um pouco longo, mas espero que ajude vocês:

1. Acredite no poder das sinapses. Os neurônios conversam entre si, criam conexões inusitadas a cada milésimo de segundo. Mas precisam ser estimulados. Não, você não precisa se submeter a um tratamento de eletrochoques, mas deve estar aberto à realidade. Certa música, certa obra de arte, uma situação, uma frase solta que você escuta no ônibus ou no balcão da padaria: tudo pode desencadear a imaginação. Todos nós temos gatilhos emocionais que liberam ondas de fantasia. Não despreze nenhum deles — inclusive os que parecem infantis ou óbvios. Lembre-se do exemplo sináptico de Victor Hugo, que já se tornou clássico: no prefácio de “O Corcunda de Notre-Dame”, o escritor conta que o livro nasceu quando ele encontrou, ao explorar a Catedral de Notre-Dame de Paris, a palavra “fatalidade” gravada à mão numa parede. A forte impressão causada por essa descoberta fez com que começasse a imaginar a história.

2. Todo escritor é, antes de tudo, bom observador. Mas não se trata apenas de espreitar. É preciso dialogar, em silêncio, com os fatos, com as pessoas. Coloque-se na pele delas e tente compreender suas reações. Depois, imagine como você reagiria. E imagine como um escritor descreveria você. Esse exercício constante — analisar o real e você mesmo — aperfeiçoará seu poder de observação.

3. Abandone a idéia de que a vida é simples e de que tudo é evidente. Nada é simples. Por trás de cada gesto feito de maneira impensada há centenas de influências, escolhas, certezas, temores, dúvidas, interesses, desejos.

4. Anote tudo. Sempre. Não se preocupe se, no fim do dia, as anotações parecem incoerentes, sem nexo. Guarde-as em algum lugar. No final de trinta, quarenta dias, coloque-as sobre a escrivaninha: você descobrirá semelhanças — ou uma tendência. Por que não segui-la?

5. Leia. Leia muito. E não tenha receio, inclusive, de se inspirar no que lê. Eu disse “inspirar”, não “copiar”.

6. Não tenha medo de contar histórias. Não tenha medo, inclusive, do que pensarão sobre suas histórias. Comece com tramas simples e poucos personagens. Pode ser um único personagem. Mas evite cair na tentação do discurso em primeira pessoa, pois ele tem uma aparência de facilidade completamente enganosa.

7. Repito: apenas conte uma história. Deixe as invencionices vanguardistas e os malabarismos lingüísticos para mais tarde, quando estiver seguro(a) do que é capaz. Lembre-se: “Ulysses” não foi o primeiro livro de James Joyce.

8. Tenha um plano, ele ajudará você. Mas sinta-se livre para mudá-lo. Nenhum escritor sabe, com todos os detalhes, o começo, o meio e o fim da sua história. “O som e a fúria”, de William Faulkner, começou, segundo o próprio escritor, “com uma simples imagem mental: os fundilhos enlameados da calcinha de uma menina pequena trepada numa pereira, de onde podia ver, por uma janela, o local onde se realizava o funeral de sua avó e descrever o que estava acontecendo aos seus irmãos, no chão, embaixo”. Depois, Faulkner tentou contar a história que nasceu dessa imagem utilizando quatro narradores diferentes — e, ainda insatisfeito, adicionou um apêndice 15 anos depois de o livro ter sido publicado.

9. Ao escrever, não se preocupe em seguir a ordem lógica — ou cronológica — do seu enredo. Você tem poder absoluto sobre sua criação: pode matá-la e, sete meses depois, contar seu nascimento.

10. Não seja passivo(a) em relação à escrita — não espere a fada-madrinha dos escritores entrar pela janela. Escolha um local, crie seu ambiente. (Minha vizinha, quando eu era menino, estudava com o rádio ligado e tirava ótimas notas. Eu, ao contrário, sempre precisei de silêncio.) Depois, estabeleça um horário e cumpra-o. Não importa se você apenas ficar olhando para o papel em branco.

11. Voltando ao primeiro ponto, não despreze a realidade. Mas lembre-se do que Henry James escreveu: “A experiência nunca é limitada e nunca é completa; ela é uma imensa sensibilidade, uma espécie de vasta teia de aranha, da mais fina seda, suspensa no quarto de nossa consciência, apanhando qualquer partícula do ar no seu tecido. É a própria atmosfera da mente; e quando a mente é imaginativa — muito mais quando acontece de ela ser a mente de um gênio — ela leva para si mesma os mais tênues vestígios de vida, ela converte as próprias pulsações do ar em revelações”.

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