terça-feira, 11 de novembro de 2014

Desconstruindo o mito sueco

Por André,


A Suécia é frequentemente citada como exemplo de país onde o "socialismo funcionou". Será mesmo? Será mesmo que é o forte poder do Estado que explica o aparente sucesso da Suécia e de outros países escandinavos?

Vejam o texto que circula pelo Facebook, com mais de trinta mil compartilhamentos:
Tentei ficar quieto, mas não me aguentei. 
Sou de uma família tradicional e de classe média alta brasileira, e fui o único a votar na Dilma. 
Nos últimos anos tive o privilégio de morar por 2 anos em Estocolmo, trabalhando e estudando. E digo o que pouca gente imagina: na maior parte da Suécia não existe luxo. 
Eu morei num prédio onde moravam médicos, lixeiros, músicos, advogados, e atendentes de super mercado. Juntos. Eu vi pessoas muito ricas andando de bicicleta no inverno, e aproveitando a vida comendo sanduíche sentado no chão de um parque (não num shopping). Donos de agências que atendem Pepsi, NBA, RedBull almoçando comida feita em casa num tupperware sentados na mesma mesa que eu que era imigrante e o Estagiário Assistente de Escritório. 
Eu vi meninas como essas da foto andando sozinhas às 3h da manhã em áreas vazias, olhando o mapa no iphone usando shortinho meia bunda e regatinha que mostra o lado do peito ouvindo a música nova da Lykke Li no último volume e cantando. E passaram do meu lado na mesma calçada sem nem atravessar a rua. Sem medo.  
Sem.  
Medo. 
Tudo isso, que nós brasileiros invejamos tanto e dizemos que ‘lá fora é muito melhor’ só se consegue com uma coisa: igualdade social.
A Suécia não chega a ter 10 milhões de pessoas, e a igualdade lá vem sendo praticada desde o início. 
O Brasil tem 200 milhões e a desigualdade aqui vem sendo praticada desde o primeiro instante. O que isso implica? 
Implica que se você, pessoa que gosta tanto da Europa, quer que o Brasil fique um pouco mais parecido com lá, abraçar a causa da igualdade social é uma necessidade. E ela pode acontecer de duas formas: rápido ou devagar.
Rápido está fora de questão, mas devagar é sim possível. Eu pergunto: Qual é o problema se o país precisa crescer 1% ao invés de 6% para que o Brasil saia do mapa mundial da fome? Ou para que o analfabetismo acabe? Ou o saneamento básico?
Você se preocupa mais com o quanto cai na sua conta do que com quantas pessoas conseguem comer, escrever o próprio nome ou defecar em um lugar decente? 
Crescimento de economia é uma coisa, é cálculo do PIB que soma em valores monetários todos os bens e serviços finais produzidos no País.  
Já o IDH mede expectativa de vida, analfabetismo, educação, padrão e qualidade de vida e entre outras coisas também o PIB per Capita. 
‘O país tem que voltar a crescer’, foi slogan de uns e é opinião de todos, mas o que é ‘crescer’?  
Crescer é PIB para poucos como sempre foi no Brasil? 
Ou crescer é IDH, com PIB mais distribuído para todos?
O Brasil não tem meios de gerar mais dinheiro do que o que já circula dentro dele (seria lastro para controle) ou seja, a riqueza que existe dentro do Brasil precisa sim ser melhor distribuída para que você possa ter aqui, aonde suas netas e netos irão nascer, uma qualidade de vida mais parecida com a da Europa. Sem medo.
Sem.
Medo.
Mas como dinheiro não cresce em árvore, pra que isso aconteça, tem que mexer no que é teu.  
Só que quando alguém fala em mexer no que é teu, ninguém mais quer igualdade social, e todo esse papo vai por água a baixo. Certo? 
Certo. 
Amigo, a verdade é: egoísmo não combina com igualdade social. Ninguém gosta de dividir as duas últimas preciosas bolachas favoritas. 
Se você quer ser egoísta, ao menos seja sincero e diga que está pouco se fodendo para os humanos aqui do Brasil do sul ou do norte que torcem junto contigo pro Neymar Jr. na Copa do Mundo. Que tanto faz se eles sabem ler, escrever ou tem o que pôr na barriga. Então faça sua trouxinha de dólares e ajude a sustentar alguma ONG que ajuda algum 'vagabundo' na África. Não vou te julgar ou tentar te convencer. Mas é isso o que penso.
Focarei na questão sueca mesmo, sem tratar especificamente do petismo disfarçado de intelectualismo da postagem. 

A Suécia, ao menos hoje, em 2014, dá certo. Como explicar? Será que essa condição toda maravilhosa da Suécia é realmente explicada pelo 1) welfare state e 2) igualdade social? Será que o welfare state é autossustentável ou requer condições passadas e futuras para ser mantido e é, no limite, uma política perecível?

Na Suécia, o imposto de renda pode chegar a 58,2% e a carga tributária é a 41ª maior do mundo, porém, 122 horas de trabalho por ano de um sueco são suficientes para custear os impostos, ao passo que nós, brasileiros, como ganhamos muito menos que os suecos, precisamos de 2.600 horas de trabalho para custear todas as taxas (todas essas informações podem ser colhidas no estudo "Paying Taxes 2014").

Isso é bastante significativo, pois mostra que boa parte da renda dos suecos permanece em suas mãos para que gastem como bem entender. Além disso, a economia sueca, como todas as demais economias escandinavas são extremamente abertas, levando menos de uma semana para se abrir uma empresa lá, por exemplo. Ou seja, o mesmo Estado que se engrandece na cobrança de impostos e ao prover serviços custeados com esses impostos, não se posta como empecilho à livre concorrência empresarial, tudo isso conforme já documentei aqui.

Portanto, o quadro econômico sueco e escandinavo não é exatamente de tipo de intervencionismo infantil que os defensores do PT pretendem levar os outros a acreditar com seus textos afetados. Mas é certo que se o Estado sueco não intervém na economia, intervém na vida dos cidadãos. Proibiu que pais dessem "palmadas" em seus filhos e outras infindáveis ações-babá (inclusive ditando as regras que devem reger atos sexuais), conforme documenta Janer Cristaldo em seu "O paraíso sexual democrata".

Ainda assim, é perfeitamente sabido que o estado de bem-estar social não dura eternamente. Dura enquanto o dinheiro que o custeia durar. Muito da riqueza dos países escandinavos, especialmente a Noruega, é oriunda do petróleo (petróleo este que foi protegido pelas EUA na 2ª guerra) e não exatamente do poder econômico nas mãos do Estado.

Países escandinavos também não tem histórico de envolvimento em guerras, o povo é tradicionalmente empreendedor e a liberdade econômica tem mostrado aumento ao longo dos anos e é consideravelmente superior ao resto do mundo, conforme demonstra o excelente artigo do sueco Stefan Karlsson "The Myth of Sweden".

Ainda assim, gostaria de destacar aspecto usualmente escanteado na explicação da harmonia social escandinava: a coesão cultural. A explicação para lixeiros e médicos compartilharem o mesmo prédio ou para que as filas sejam respeitadas não está no estado-babá, mas sim na coesão cultural do povo escandinavo. Todos se entendem por um porque todos são, de fato, cultural e socialmente, um. As tradicionais divergências entre norte e sul (EUA, Brasil, Itália etc) não existem por lá porque os países são pequenos, pouco populosos e culturalmente coesos (muito embora isso esteja perto do fim se as coisas caminharem como hoje caminham. Também por lá já se formam guetos islâmicos onde a taxa de natalidade é vastamente superior à dos nativos).

Quanto ao estado de bem-estar social, ele é uma forma de política que ignora o futuro (afinal, segundo Keynes, no futuro estamos todos ferrados). Como o dinheiro dos outros não dura para sempre, a Suécia vem apontando uma tendência definitiva de declínio no IDH e estudos apontam que ela será um país de terceiro mundo em 2030!

Circula nas redes um texto semelhante a esse da Suécia citando uma série de intervencionices do estado australiano na vida das pessoas e a suposta prova que devemos aplaudir as mesmas políticas aqui no Brasil, mesmo sabendo que o Brasil é um dos piores do mundo em termos de retorno de impostos cobrados em serviços de qualidade.

O que falta citar é que todos esses supostos paraísos do bem-estar social tem uma economia aberta e liberal (o aspecto curioso a respeito da Austrália é que as reformas liberais na economia foram implementadas pelo partido trabalhista local). Encabeçam os rankings de liberdade econômica, lideram os rankings educacionais e estão entre as nações menos corruptas do mundo. Desassociar estes fatos do Estado supostamente intrujão é desonestidade completa, especialmente para aqueles que pretendem com isso introduzir o petismo pela porta dos fundos da argumentação séria.

Sugestão: "Como o laissez-faire enriqueceu a Suécia?".

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Segue ai um grande músico sueco que foi para os EUA, acredito que o breve comentário dele corrobora com a desmistificação do mito sueco, a visão que ele possui de seu país de origem é semelhante à documentada por Janer Cristaldo.
    https://www.youtube.com/watch?v=3ZiWIdgLS-Y
    Continue com este trabalho sensacional.

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