domingo, 23 de novembro de 2014

Dois exemplos práticos do que convencionou-se chamar "marxismo cultural"

Por André,


Muito se discute sobre o que seria o tal "marxismo cultural". Seria pura e simplesmente marxismo? Delírio neoconservador? Conceito imaginário?

Pois bem, já me posicionei sobre o assunto e disse que, do meu ponto de vista, o fenômeno que chamamos de marxismo cultural é mais importante que o nome que recai sobre ele. O próprio Olavo de Carvalho já disse que a expressão conceitual é uma nomenclatura conveniente que representa certo conjunto de ideias.

Os "adeptos" do marxismo cultural certamente são herdeiros de Marx, admitam isso ou não, muito embora seja fato que há pouco eco do conceito da obra do próprio Marx. Marx via na cultura um elemento de prova das suas teorias (que predomine certa cultura sobre aquela é sinal que a ideologia predominante é a ideologia da classe exploradora etc) e não um campo de ação revolucionária.

A ideia que a cultura não apenas é campo de ação revolucionária, mas é o PRINCIPAL campo de ação remonta a Antonio Gramsci (1891-1937), para quem as ideias do partido só serão alçadas à condição de imperativo categórico depois de sitiadas com intelectuais comunistas escolas, igrejas, universidades, instituições, jornais, editoras etc. Após esse primeiro quadro teórico, temos posteriormente a Escola de Frankfurt, que percebeu a pobreza do reducionismo econômico do marxismo tradicional. A discussão marxista abandonou a retórica sindicalista inflamada e o debate sobre exploração do trabalho, mais-valia etc (discussão econômica) para adentrar o terreno da cultura, juntando as ferramentas oferecidas tanto por Marx como por Freud. Podemos, ainda, ver essas ideias culminando no que hoje chamamos de "french theory" e outros referenciais ideológicos admitidos por feministas radicais, militância racialista (com esses grupos se torna ainda mais evidente que o debate abandonou o terreno da economia e se estendeu para o elástido e indefinível terreno da cultura - o ódio de grupos racialistas e feministas não se volta contra o "patrão explorador", mas contra a cultura "patriarcal" ou "racista" que aí está, isto é, a cultura ocidental) etc.

Isso posto, vejamos dois exemplos práticos, cotidianos e nitidamente pautados naquilo que podemos chamar de "marxismo cultural". Primeiro, vejamos o depoimento do médico psiquiatra dr. Valentim Gentil Filho, relatando sua experiência com a ideia de que pessoas com problemas psiquiátricos são "vítimas da sociedade" e que seu encarceramento só pode ser justificado em algum tipo de preconceito calcado na divisão entre "gente sã" e "gente louca", "gente racional e gente irracional", uma clara reprodução - fora do contexto econômico - da dicotomia "explorador versus explorado":



A ideia que problemas psiquiátricos não representam qualquer problema concreto que justifique o encarceramento, a bandeira pela abolição de manicômios etc remonta às reformas citadas pelo dr. Valentim, em muito pautadas nas ideias de Michel Foucault. A discussão é pura e simplesmente uma extensão da noção de "conflito de classe" para o terreno da psiquiatria. A sociedade burguesa ocidental não consegue/quer lidar com problemas psiquiátricos, então encarcera seus malucos em manicômios para evitar o problema (que só pode ser resolvido com uma vasta revolução na cultura ocidental tal como conhecemos).

O que é isso se não a transposição do marxismo para um terreno distinto da economia? Se chamamos ou não isso de marxismo cultural é mero detalhe, o que importa é documentar o fenômeno e mostrar suas bases intelectuais.

O "louco" digno de internação no manicômio é apenas um "oprimido" e as bases que justificam sua opressão é a cultura vigente. A solução para o fim dessa opressão é prima e necessariamente uma revolução que subverta as bases dessa cultura. A discussão foge e muito do terreno psiquiátrico e passa a ser exclusivamente ideológica.

Como exemplifica Roger Scruton, em seu "Thinkers of the New Left" de 1993:

Em História da Loucura (1961), Foucault dá o primeiro vislumbre desta tese. Ele toma o confinamento de loucos em sua origem no século XVII, associando esse confinamento com a ética do trabalho e com a ascensão das classes médias. O idealismo de Foucault - sua impaciência com explicações que são meramente causais - leva-o constantemente a engrossar sua trama. Assim, ele diz, não que a reorganização econômica da sociedade urbana trouxe o confinamento, mas que "foi em uma certa experiência de trabalho que a demanda indissolúvel por confinamento moral e econômica foi formulada". Mas isto poderia ser visto amplamente como um embelezamento das categorias da explicação histórica que derivam, em última instância, de Marx" (SCRUTON, 2014, p. 61). 

O segundo exemplo é fornecido por Theodore Dalrymple em seu excelente A Vida na Sarjeta (É Realizações, 2014). Trata-se do ataque dirigido ao inglês culto e exaltação do inglês periférico e recheado de gírias:

"A BBC, que até poucos anos insistia, com muito poucas exceções, na "received pronunciation" de seus locutores, agora está correndo para assegurar que a fala enviada pelas ondas de rádio seja demograficamente representativa. A ideologia política por trás da decisão dessa mudança é clara e simples, um remanescente do marxismo: as classes altas e médias são más; o que era tradicionalmente considerado alta cultura não é nada mais senão algo usado para esconder o jugo das classes média e alta sobre a classe trabalhadora; a classe trabalhadora é a única cuja dicção, cultura, modos e gostos são verdadeiros e autênticos, pois são valorados por si mesmos e não como um meio de manter a hierarquia social. A utopia comunista pode estar morta na Rússia, mas é modelo na BBC - exclusivamente entre as pessoas de classe alta e de classe média, é claro" (DALRYMPLE, 2014, p. 104).

A classe opressora não é mais a detentora dos meios de produção, é aquela que se serve da received pronunciation. Quem fala corretamente é opressor e oprime quem fala errado. A regra deve ser a dos oprimidos e não a dos opressores. O ataque é à alta cultura, não à burguesia endinheirada.

Dessa maneira, o marxismo - cultural  ou como quer chamemos o fenômeno - é um pensamento que forma um tipo de ácido universal que pretende corroer todas as bases da civilização ocidental. Seus tentáculos são claros e visíveis, exorto para que não percamos tempo discutindo como chamamos o fenômeno, mas sim que analisemos e combatamos o mesmo.

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