domingo, 30 de novembro de 2014

Rodrigo Constantino: "Downton Abbey nos lembra que os chacais selvagens chegaram ao poder"


Terminei ontem a segunda temporada da série britânica “Downton Abbey”, que conta a história de uma família aristocrática no começo do século XX, atravessando mudanças sociais profundas desde o naufrágio do Titanic em 1912, passando pela guerra, febre espanhola e revoluções. É simplesmente maravilhosa, fantástica, e a recomendo a todos que ainda não viram.

A sofisticação da série, seu refinamento, com diálogos inteligentes, com atores e atrizes perfeitos em seus respectivos papéis, sem nenhum tipo de apelação para a baixaria, cenas de sexo ou algum subterfúgio moderno para garantir alguma audiência (de má qualidade), tudo isso mostra como ainda é possível valorizar a civilização na era do sentimentalismo vulgar.

Sob o risco de parecer um saudosista que idealiza o passado – algo que definitivamente não sou, mas deixando meu lado “conservador” falar mais alto, a série nos obriga a encarar, com certa nostalgia, “aquilo que se perdeu”, ou seja, coisas importantes que deixamos para trás nas conquistas modernas e democráticas. Quando o médico britânico Theodore Dalrymple lamenta o excesso de sentimentalismo da atualidade, a ideia de que tudo que é “espontâneo” é melhor e mais sincero, podemos entender bem o que ele quer dizer após “Downton Abbey”. Civilização é conter impulsos.

As tiradas da senhora Violet Crowley, personagem de Maggie Smith, são impagáveis. Uma legítima e refinada aristocrata desdenhando tudo que é “tão classe média”. Não dá para comparar suas ácidas críticas à pequena-burguesia com aquelas de Marilena Chaui, por exemplo. A nobreza de espírito de seu filho, o conde de Grantham e lorde Crowley, é digna de admiração. A elegância da filha mais velha, lady Mary Crowley, é impressionante. E a beleza da feminista mais radical, a filha mais nova lady Sybil, que resolve se casar com o motorista, é um espanto.

Por falar em feminismo, um parêntese: que saudade da época em que a luta pela liberdade da mulher era por direitos básicos e legítimos, como se casar por amor e escolher sua profissão, e não o reclamo infantil de hoje em nome do “direito” de colorir os cabelos do sovaco ou ter a perna cabeluda. O que aconteceu com o movimento feminista? Excesso de conquistas? Fecho o parêntese.

Do lado dos criados, também vemos a elegância, a postura nobre que não depende necessariamente da classe, o senso de dignidade por exercer sua função com esmero, o que dava sentido a suas vidas. A figura de Charles Carson, o corpulento mordomo cioso de suas tarefas, até para além do limite do razoável, é um toque especial na série. Um obsessivo que mede com régua a distância entre os pratos e talheres, pois é preciso colocar um pouco de ordem nesse mundo caótico.

Enfim, não vou me alongar na série em si, até para evitar “spoilers” para quem ainda não a viu. Digo apenas que vale muito a pena investir seu escasso tempo nela, pois nos remete a um passado nem tão distante assim, em que certas coisas tinham mais valor, que a honra e a dignidade eram fundamentais, que tudo não se resumia apenas ao objetivo animalesco de sobreviver e ponto, ou fazer o que desse na telha como se fosse o máximo.

A série, assim como o livro Gattopardo, de Lampedusa, nos mostra o lado ruim da chegada dos chacais e hienas ao poder, ou seja, o que perdemos quando a vulgaridade se impôs pelo peso numérico. Nelson Rodrigues, colocando em termos mais diretos a teoria do filósofo espanhol Ortega y Gasset, dizia que os idiotas se descobriram em maioria e resolveram enaltecer a própria vulgaridade, na “revolução das massas”.

Por falar em Lampedusa, segue, para finalizar, um texto que escrevi para a revista Voto com base em seu excelente livro:
Os vulgares no poder


Não sou um saudosista e jamais idealizei o passado. Longe disso! No mais, acredito que todo saudosista costuma se imaginar como parte da aristocracia no passado, nunca como um dos plebeus, cuja vida era dureza. Dito isso, parece-me inegável que algo se perdeu nessa transição da nobreza no poder para as democracias populares modernas. As conquistas, em minha opinião, compensam de sobra as perdas. Mas estas existem, principalmente se levarmos em conta as promessas anteriores às mudanças. E ao ler o excelente livro O Gattopardo, de Tomasi Di Lampedusa, essa é a sensação que fica.

O livro, único romance escrito pelo italiano, ele mesmo de família nobre, retrata com ares autobiográficos a decadência da nobreza siciliana, durante a revolução liderada por Garibaldi em meados do século XIX. O Príncipe Fabrizio Salina, personagem principal, encarna o pessimismo de quem “contemplava o ruir da sua casta e do seu patrimônio sem nada fazer e sem nenhum desejo de remediar o desastre”. Ele sabia que as mudanças em seu tempo eram inevitáveis. E, com um misto de desprezo e curiosidade, ele observava tudo de cima de sua arrogante sabedoria aristocrática.

A passagem mais famosa do livro é também uma de suas mais importantes lições. O sobrinho querido de Don Fabrizio, Tancredi, ao decidir se alistar nos exércitos garibaldinos, explica ao tio sua lógica: “Se nós não estivermos presentes, eles aprontam a república. Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. No primeiro momento, estas palavras ficariam registradas na memória de Don Fabrizio, mas somente com o tempo ele teria uma compreensão mais clara de seu completo significado. A promessa de “tempos gloriosos” para a Sicília já durava algum tempo, e muitos tiros tinham sido disparados por tal objetivo. Mas nenhuma mudança estrutural ocorreria de fato.

As palavras enigmáticas de Tancredi adquiriam maior clareza: “Muita coisa ia acontecer, mas seria tudo uma comédia, uma comédia ruidosa e romântica com algumas manchas de sangue no traje burlesco”. O resultado da “revolução” seria apenas uma “lenta substituição de classes”. E as novas classes que subiriam ao poder não seriam melhores que as antigas; pelo contrário: “Nós fomos os Gattopardos e os Leões; os que vão nos substituir serão pequenos chacais, hienas; e todos, Gattopardos, chacais e ovelhas continuaremos a crer que somos o sal da terra”.

A sensação de asco que o nouveau riche Calogero Sedàra despertava em Don Fabrizio era total, sinal dos tempos modernos. A insensibilidade à graça de objetos ilustres no palácio era diretamente proporcional à atenção ao valor monetário dos bens. Don Fabrizio, de repente, sentiu que o odiava; “era ao afirmar-se dele, de cem outros semelhantes a ele, às suas obscuras maquinações, à sua persistente avidez e mesquinharia que se devia a sensação de morte que agora pesava sobre esses palácios”.

Na resenha que Mário Vargas Llosa fez do livro de Lampedusa, merece destaque o contraste do autor frente ao modismo de sua época, na década de 1950, quando a literatura estava impregnada de ideologia e todos deveriam seguir a posição moral e politicamente correta a favor do progresso da humanidade. As utopias estavam no auge da fama, e muitos sonhavam com as revoluções socialistas que trariam o paraíso à Terra. O livro, com mensagem mais pessimista – ou realista, diriam alguns –, faria um alerta contra o romantismo destes que pensam ser possível atingir alguma perfeição quando se trata de modelo social.

Vargas Llosa resume: “Em vez de um lustroso gattopardo, o símbolo do poder será uma flâmula tricolor. Mas, sob essas mudanças de nomes e de rituais, a sociedade se reconstituirá, idêntica a si mesma, em sua imemorial divisão entre ricos e pobres, fortes e fracos, senhores e servos. Variarão as maneiras e as modas, porém para pior: os novos chefes e donos são vulgares e incultos, sem os refinamentos dos antigos”. E não acabaram quase sempre assim todas as revoluções redentoras, que iriam colocar um fim nas divisões de classes?

Podemos pensar no último trecho de A Revolução dos Bichos, de Goerge Orwell: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. O destino daqueles que acreditam nas promessas de barbudos “salvadores da pátria” será invariavelmente o mesmo: trocar seis por meia-dúzia na melhor das hipóteses; e por algo muito pior, por causa de sua vulgaridade total, na mais provável delas. Sai um arrogante aristocrata, e entra um metalúrgico ignorante com mais sede ainda pelo poder, mais corrupto ainda que seu antecessor. Os chacais estão no poder.

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