sábado, 29 de novembro de 2014

Sobre conhecer o mundo e outras brasilidades

Por Lucas Mafaldo,


Grifos meus.

Reflexões que vão ofender quase todo mundo:

1. Como a maioria dos nordestinos, conheci o resto do mundo antes de conhecer o Brasil. Presumi que o sudeste era diferente. Não é. É quase misterioso como o Brasil é culturalmente uniforme. E com isso quero dizer: uniformemente ruim.

2. Não conhecemos o resto do mundo. Ou melhor: achamos que conhecer o resto do mundo é fazer compras no resto do mundo. Como se comprar um Starbucks em Londres magicamente nos revelasse a essência do parlamentarismo inglês.

3. A raiz do problema é simples: falta inteligência. Inteligência envolve capacidade de abstração. Pensamos que diferenças culturais são pequenas variações na sonoridade do sotaque e ingredientes diferentes na comida. É como se a alma francesa estive na sopa de cebola e não em uma certa revolução. Se não pode ser visto ou tocado presumimos que não existe.

4. Como não conhecemos o resto do mundo, pensamos que somos ricos porque o vizinho é ainda mais pobre. Falta senso de proporção. Exemplo: o PIB per capita do Canadá é quase dez vezes maior que o de Minas gerais. Vou repetir: dez vezes.

5. Mas isso não é nem de longe o pior. Todos confundem dinheiro com cultura. Pensamos que existem lordes brasileiros que, por possuírem "berço", cresceram lendo romancistas russos. Se existem, ainda não os conheci. Na minha experiência, compensamos a nossa prodigiosa desigualdade de renda com uma sensacional igualdade intelectual: todas as classes econômicas são igualmente ignorantes. As raras exceções estão igualmente espalhadas por todas as camadas da sociedade. Nossa inanidade econômica se agiganta perto da nossa inanidade intelectual.

6. Eu pensava que a confusão entre entretenimento e educação se restringia aos cursinhos e vestibulares. Errei: é quase universal. Corolário: pare de estudar e faça um curso de entonação vocal.

7. Questão pouco compreendida: há uma racionalidade no argumento de autoridade em lugares de baixo nível intelectual. Se o sujeito não entende nada da teoria, precisa de indícios externos para saber em quem confiar (quanto ganha? onde estudou? fala com convicção? como se veste?). Corolário: comece toda argumentação dizendo que alguém mais importante do que seu interlocutor pensa diferente dele. Eça de Queiroz acertou pela metade: estamos sempre tentando impressionar o indígena. Só não percebemos que os verdadeiramente impressionáveis somos nós.

8. Em outras palavras: feitas as ressalvas de sempre, praticamente não existe debate intelectual. É tudo pose e ocupação de posições. Passo meses estudando um assunto e posso ver nos olhos do interlocutor: "Por um lado ele tem sotaque nordestino, por outro lado estudou no Canadá... Por um lado tem um diploma em filosofia, por outro lado dá aula em uma faculdade cara... Será que ele está acima de mim ou abaixo de mim na hierarquia social? Como posso concordar ou discordar dele sem ter essa informação essencial?". Preguiça eterna. Não sabemos a diferença entre submissão à autoridade (que não pode existir no meio intelectual) com respeito (que deveria existir em todas relações). Não entendemos nada, temos medo dos mais fortes e tratamos os mais fracos como lixo.

9. E aí começo a entender melhor porque os debates intelectuais deixam as pessoas tão afetadas emocionalmente. As pessoas estão interessadas em proteger seu território e demonstrar autoridade. As opiniões pessoais são parte da persona social e não etapas de um esforço de entender a realidade.

10. Precisamos recomeçar do zero: explicar que ser um estudioso é o contrário de ser uma autoridade; é ser alguém que decidiu continuar aprendendo pelo resto da vida. O catedrático tem sempre as mesmas disciplinas para continuar se aprofundando nelas -- e não porque já esgotou o assunto. Se alguém mostra que estou errado em um ponto, admito imediatamente e agradeço por ter me poupado tempo e me ajudado a avançar na pesquisa.

Conclusão: sinto-me muito mais estrangeiro em qualquer estado brasileiro do que me sentia entre canadenses -- e menos ainda entre os sábios quebecois. Ser um alienígena tem muitas vantagens existenciais. Recomendo entusiasticamente. O único problema é o risco constante de ser enviado pelos nativos para a fogueira.

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