segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Crátilo e o dilema do relativista

Por André,

O antigo filósofo grego Crátilo - nome que ocasionou diálogo platônico homônimo - era um ferrenho seguidor da crença heraclitiana no devir universal, tanto que levou a doutrina às suas últimas consequências lógicas. De acordo com Aristóteles: "[Crátilo] acabou por pensar que não devemos dizer nada e se limitava a apenas mover um dedo, criticou Heráclito por dizer que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, pois pensava que não era possível entrar nem mesmo uma vez sequer" (ARISTÓTELES, Metafísica, 1010a, trad. nossa). Crátilo acreditava, portanto, que devido a constante mudança do ser, era impossível dizer algo verdadeiro. No intervalo de tempo necessário para que as coisas sejam ditas, elas já mudaram, portanto já não são mais as mesmas e, portanto, não há correspondência entre ente e logos. As palavras falsificam a realidade pois introduzem permanência onde ela não existe. Daí o dever de nada dizer.

Platão, segundo Aristóteles, quando jovem vinculou-se à doutrina do fluxo universal e à conclusão que, devido à condição de mudança constante do mundo, nenhum conhecimento "científico" é possível (Metafísica, 987a). No diálogo homônimo, Platão atribui as ideias de Crátilo a Heráclito e aborda os problemas erigidos pela doutrina do fluxo universal à linguagem.

Não incorro aqui em qualquer anacronismo ao comparar Crátilo aos relativistas modernos, os problemas do relativismo moderno guardam pouca relação com a temática envolta na personagem de Crátilo; a intenção é apenas aludir às consequências apropriadas para certos tipos de doutrinas radicais (caso os proponentes de fato acreditam no que afirmam).

Crátilo e os relativistas compartilham a ideia de que um conhecimento objetivo sobre as coisas é impossível. O problema de Crátilo era ontológico e ele certamente não negava a existência de uma realidade, mas pelo contrário, a realidade existe só que é constante mudança. Para muitos modernos, talvez, a própria existência da realidade esta(ria) em disputa (irracionalistas, solipsistas, niilistas etc).

Contudo, os relativistas modernos, se de fato creem no que alegam crer (algo que este que vos escreve coloca em disputa) deveriam seguir os passos de Crátilo e se calar. Se a linguagem nem qualquer outra coisa guardam ou podem guardar qualquer valor de verdade objetivo, por que falar desde o princípio? O que sustenta as palavras? E se nada as sustenta, insisto, por que falar?

Um certo senso comum relativista vaga pelas vielas das discussões públicas. Outro dia mesmo me deparei com alguém que pretendia encerrar um debate na base do "ninguém está certo ou errado". Ué, se ninguém está certo, antes de mais nada, o próprio sujeito que afirma essa frase não está nem certo e tampouco errado e não há qualquer motivo concreto para levá-lo a sério. Mas se ninguém está certo ou errado ou se é impossível chegar a conclusões seguras, por que abrir a boca desde o princípio? Me parece uma atividade um tanto quanto tola agir com consciência prévia que não se chegará a lugar algum.

É claro que, penso eu, o relativismo deve ser entendido menos como uma doutrina intelectual que almeja ou já almejou alguma seriedade e mais como um embuste retórico que visa encerrar (shut down) debates a meio caminho de ser perdidos. Pretender que uma discussão se encerre sob a alegação que não existe certo e errado é equivalente à tentativa de anular uma partida de futebol perdida afirmando que "vitórias e derrotas não existem" (ou talvez que o próprio futebol não exista ou que todos são vitoriosos e é muito feio dizer que alguém perdeu).

Ref. bibliográfica

ARISTÓTELES. Metafísica. Trad.  Hernán Zucchi. Buenos Aires: Debolsillo, 2004.

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