sexta-feira, 27 de março de 2015

Greve dos professores: não apenas uma novela, mas uma novela que ninguém acompanha pois todos sabem o final

Por André,



Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avaliação e uma classificação hierárquica dos instintos e dos actos humanos. Essas classificações e essas avaliações são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: é aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe é útil em primeiro lugar - e em segundo e em terceiro -, que serve também de medida suprema do valor de qualquer indivíduo. A moral ensina a este a ser função do rebanho, a só atribuir valor em função deste rebanho. Variando muito as condições de conservação de uma comunidade para outra, daí resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes (Friedrich Nietzsche e o instinto de rebanho).

Hoje completam-se 14 dias de greve de parte dos professores das escolas do Estado de São Paulo. É uma epopeia repetida: faz-se manifestação, assembleia, o início da greve é decidido "democraticamente", bandeiras do PT, do PSTU e de outros partidos totalitários de esquerda frequentam os eventos, pautas coerentes e pautas absurdas surgem, a greve é encerrada "democraticamente" (leia-se: dado o ordenamento do sindicato), com sorte 1/3 de algum tópico da parte coerente da pauta é aceito (ou simplesmente nenhum) e as partes absurdas são relegadas à memória de alguns e ao lixo da realidade humana, professores que entraram em greve retornam para seus postos com o rabo no meio das pernas (em caso de algum conquista esfregam na cara dos colegas da "classe" que tanto amam a conquista "graças a eles"), a rotina volta ao normal, uma próxima greve ocorrerá quando for necessário algum novo assassinato de reputação de algum possível candidato à presidência. A educação precisa melhorar, a aula de muitos segue meia-boca.

Não sou a priori contra a greve. Digam a respeito da minha pessoa o que quiserem. Sou um indivíduo portador de uma consciência racional que decide por si só e não de acordo com a manada (leia-se: classe) a que supostamente pertenço. Não sirvo de capacho de sindicato nem de massa de manobra de partido de esquerda. Olho para as greves passadas e vejo que eles acabaram como se encerraram: sem nenhum avanço concreto sequer para a dita "classe". Qual a razão de abaixar a cabeça para um sindicato que vai encerrar uma greve sem garantir conquistas razoáveis para a classe que alega defender? O final da novela é repetido: Volta o cão arrependido / Com suas orelhas tão fartas / Com seu osso roído / E com o rabo entre as patas.

Sou a posteriori contra a greve. Sou contra essa greve. Sou contra as greves de professores nos formatos que assumiram nos últimos tempos. Sou contra decisões "coletivas", pela "classe", pelo "todo". Essas coisas são abstrações que não existem e truques linguísticos para enganar trouxas predeterminados a acreditar nelas. Tudo que conheço são indivíduos. Indivíduos que podem se comportar como rebanho, como malta, mas sempre serão indivíduos agindo em bando, em malta, "no todo".

O maior prejudicado nessa história? O aluno. Que tem excluído seu direito à aula ruim de sempre. Aula nenhuma é pior que aula ruim. Professor ruim é melhor que professor nenhum. Além dos demais ônus gerados pela greve (perda de salário e benefícios atrelados a frequência, salas com os poucos alunos que topam ir à escola quando em greve etc), quem perde é o aluno que fica sem a aula DO PROFESSOR QUE NÃO ESTÁ EM GREVE. E não necessariamente de um professor ruim.

O clima entre grevistas e não grevistas é o mesmo que impera numa discussão entre alguém de esquerda e alguém de não-esquerda (alguém de direita, de bom senso etc): o monopólio da moral se sobrepõe aos fatos. Quem está de greve quer o bem, luta pelo bem, busca o bem, empunha a bandeira do bem; aqueles que não estão em greve, mesmo diagnosticando os mesmos problemas, ganhando o mesmo salário, expondo suas razões para a não adesão, são do mal, são pelegos, estão de conluio com o governador, querem salários piores, aulas piores e estrutura ruim para suas escolas. Nada de novo no front do debate público sobre "ativismos", sobre "militância". 

Eu não estou em greve. Semana que vem viajo a um congresso internacional sobre Lógica e Religião (Uni-log), gozarei das míseras faltas a que tenho direito para isso. Ministrarei minha apresentação em inglês (nunca pisei num curso de inglês em minha vida). Sentarei na mesma mesa que o prof. Richard Swinburne, professor emérito de Oxford (confira arquivo da programação). Não dou aula para meus alunos há duas semanas. Não darei na(s) próxima(s) e sabe-se lá quando novamente. Quem realmente sai ganhando e quem sai perdendo?

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