sábado, 2 de maio de 2015

Acerca da distinção entre estilo e moda e a (re)ascensão do dandismo

Pelo excelente Contra Mundum,

Esta proliferação de blogs do tipo do Sartorialist traz boas e más notícias. As boas são que existe uma geração aparentemente mais interessada no estilo do que na moda - um passo em direcção a um estádio mais refinado de civilização. Não precisamos de ir a Chanel (ou a Simmel, como o Pedro Mexia foi este fim-de-semana, no Expresso) para sabermos que uma coisa é a moda, outra - bem diferente - é o estilo. A moda é uma mania quasi-fascista de uniformização. O estilo, quando é verdadeiro, vem de uma pulsão individualista, de diferenciação: é um exercício da liberdade.

As más notícias são que muita gente - pelo que se vê nesses blogs - tende a abusar da liberdade, sacrificando a elegância no altar da bandalheira. O traje como exercício de estilo e liberdade tem sido historicamente ligado ao dandismo, e este a Oscar Wilde. Daí uma certa glorificação do vestuário afectado. Mas a verdade é que o dandismo, quando nasceu (um século antes de Wilde ser celebrizado), representou tudo menos o cultivo do adorno inconsequente e da decoração excessiva. Ian Kelly explica-o bem na sua espantosa biografia de George “Beau” Brummell (o arbiter elegantorum da Regência Inglesa e o dandy seminal): o dandismo foi uma reacção à imoderação de Setecentos, que se tornara vulgar, e um regresso aos ideais clássicos de forma, proporção e bom corte, de subtileza e prudência cromática. Os historiadores do vestuário chamam a esse momento a Great Masculine Renunciation - quando no início do século XIX os homens deixaram às mulheres o hábito da roupa elaborada. Desde então, a utopia do vestuário masculino é a ideia de coolness. E essa espécie de audácia despreocupada, de indolência estilosa, de adequação sem esforço, necessita mais da simplicidade do operário (style under pressure) que da heterodoxia do aristocrata. É percorrer o Impossible Cool para compreender do que estou a falar.

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