quarta-feira, 3 de junho de 2015

João Pereira Coutinho sobre o novo livro de Houellebecq

Por André,

João Pereira Coutinho escreve brilhante coluna sobre o livro submissão do francês Michel Houellebecq, o qual também já escrevi minhas impressões.


Quem tem medo de Houellebecq? Li algures que Michel Houellebecq, depois de publicar "Submissão", nunca mais viveu em paz: tem segurança 24 horas por dia para o caso de um jihadista islâmico ajustar contas com ele.

Caí do céu. Um jihadista islâmico? Li "Submissão" quando o livro aterrou nas livrarias. E, se a minha memória não me atraiçoa, não me lembro de ver na obra uma única referência ofensiva ao islã e ao profeta.

O contrário talvez seja mais exato: Houellebecq trata a religião islâmica com um respeito que ele nunca dedicou a nenhuma outra religião. Se Houellebecq cometeu uma blasfêmia, não foi contra o islã. Foi contra quem?

Antes de responder –no fundo, a pergunta decisiva sobre o livro–, um breve resumo da história: a França vai a eleições no futuro próximo. Espantosamente, os dois candidatos que podem vencer o pleito presidencial no segundo turno são Marine Le Pen, da Frente Nacional, e Mohammed Ben Abbes, o criador da Fraternidade Muçulmana. Vence Ben Abbes e a França começa a transformar-se em República islâmica.

Tudo isso é relatado por um professor universitário de meia-idade, especialista na obra do crítico francês Joris-Karl Huysmans (1848""1907), com a alma mergulhada no torpor existencial que é Houellebecq "vintage".

É através desses relatos –factuais, enfadados, de um antissentimentalismo brutal– que Houellebecq conta ao mundo como a pátria da "liberdade, igualdade e fraternidade" se entrega nos braços do islamismo.

E a explicação, a sinistra explicação para o fato, encontra-se numa palavra que os franceses conhecem bem: colaboracionismo. A vitória de Ben Abbes só foi possível pelo colaboracionismo dos guardiões da República.

Começa por ser o colaboracionismo dos próprios partidos do regime: empatada com Marine Le Pen, a Fraternidade Muçulmana vai comprando, com poder e ministérios menores, a esquerda socialista e a direita do UMP (União por um Movimento Popular), que se agarram à legenda para não desaparecerem do mapa.

Mas o carrinho de compras não se limita aos partidos. O colaboracionismo continua com os jornalistas, que endeusam Mohammed Ben Abbes e nunca lhe colocam as perguntas difíceis. Será verdade que o novo governo irá acabar com turmas mistas? Será verdade que os docentes terão que fazer a sua conversão ao islã? Silêncio. Covarde silêncio.

Finalmente, e depois dos jornalistas, dá-se a "traição dos intelectuais", um desporto que eles gostam de praticar com regularidade: no caso, professores universitários que aceitam colaborar com o governo porque o dinheiro do petróleo paga três vezes mais –e, além disso, com a poligamia instituída, é sempre possível ter mais uma aluna para casar.

E quando nós, leitores, esperamos que os resultados da nova República criem uma distopia como nas narrativas de Zamyatin ou Orwell, não encontramos nada disso. Só paz e sossego.

O desemprego cai (as mulheres, relembro, saem do mercado de trabalho para lides domésticas). As famílias, preocupadas com a correta formação espiritual das crianças, sentem-se tranquilas com a "decência" promovida pelo governo. E a sociedade descobre, apesar da Revolução de 1789, que a verdadeira liberdade só vem com a "submissão" às leis divinas, não com o laicismo militante.

O próprio narrador de Houellebecq resume tudo na mais gélida sentença do livro. Acontece quando Myriam, a namorada judia, deixa a França em busca da salvação em Israel. "Não há um Israel para mim", conclui o professor.

E, não havendo esse Israel, que caminho resta a um homem solitário, com "o coração ressequido e endurecido pela farra" (palavras do seu herói Huysmans), que teme o envelhecimento e a morte –e já ficaria feliz com uma mulher (ou, corrigindo, duas) para os prazeres do palato e da glande? Obviamente, colaborar.

O livro de Houellebecq, como todas as obras anteriores, é mais uma meditação irônica e brilhante sobre o esgotamento espiritual do Ocidente. Sobre a ausência de "crença" em qualquer coisa –e "crença" no sentido lato do termo. Pode ser em Deus. Pode ser na simples liberdade humana –e na importância de a defender– contra todas as tentativas de a destruir.

Se a mensagem de Houellebecq incomoda algumas almas "humanistas", o problema não está em Houellebecq. Está nos espelhos que essas almas têm em casa, onde todos os dias contemplam os seus rostos covardes e vazios de qualquer sentido.

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