segunda-feira, 31 de agosto de 2015

“A realidade brasileira é ainda pior do que a argentina”, diz analista


A Argentina, maior emissora de turistas para o Brasil e terceira principal parceira comercial do país, perdeu o status de “uma das mais prósperas economias do mundo”, que ostentou no início do século 20, e passou a amargar um processo de deterioração, com mais da metade da população vivendo abaixo da linha de pobreza, além de problemas como altos níveis de violência e corrupção. O diagnóstico é traçado em “Kirchner era Argentina”, monografia do analista de investimentos Fernando Klein Rocha, 23, um dos herdeiros do grupo potiguar Guararapes - dono da maior indústria de confecções da América Latina e da marca Riachuelo. 


O texto examina a Argentina atual, pós crise, e foi apresentado em junho, como trabalho de final de curso, na Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. De acordo com Rocha, os resultados do trabalho revelaram uma economia severamente problemática e disfuncional em praticamente todos os aspectos analisados e apontam que “o declínio econômico da Argentina, em grande parte, pode ser atribuído a traços culturais”. 

“Dificilmente a trajetória da Argentina pode ser atribuída a determinado modelo econômico, uma vez que tanto governos mais populistas e estatistas quanto governos mais liberais economicamente fracassaram ao longo da história do país, além de terem se caracterizado por extrema corrupção”, escreveu ele, no trabalho, em que defende como solução “uma reforma de orientação de livre mercado, de caráter radical”. De acordo com o analista, isso incluiria uma redução drástica do tamanho do estado, a abertura completa do país ao investimento estrangeiro e outras reformas liberais.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ele detalha as ideias e também compara o atual quadro político e econômico do país vizinho com o do Brasil. Classifica, ainda, o ambiente de negócios brasileiro como “hostil ao empreendedorismo”.

Por que abordar a situação econômica da Argentina, neste trabalho? 

Acredito que padrões de desenvolvimento econômico são objetos de estudo de extrema importância, pois eles determinam a prosperidade de sociedades humanas. Dentro desse contexto, a Argentina surge como um dos casos mais notáveis. Enquanto países como os tigres asiáticos (Coréia do Sul, Singapura, Taiwan e Hong Kong) servem como exemplos de extremo desenvolvimento econômico em cerca de 50 anos, de altíssimos níveis de pobreza para a prosperidade absoluta, a trajetória da Argentina foi oposta. Nas primeiras décadas do século 20, o PIB per capita Argentino estava entre os dez maiores do mundo, e superava o Alemão e o Francês, era o dobro do Italiano e Espanhol e o triplo do Japonês. Já em 2002, o PIB per capita Argentino era metade do mexicano, a taxa de pobreza urbana atingiu 57% e a taxa de indigência (extrema pobreza), 25%. 

Quais foram os principais impulsos a essa deterioração econômica?

O mais óbvio impulso foi o persistente desrespeito aos mais básicos princípios morais da sociedade ocidental. O direito humano mais fundamental é o direito à propriedade. Uma sociedade que não respeita esse direito não pode se proclamar civilizada. O governo Argentino, reiteradas vezes, atentou contra esse direito; às vezes de maneira direta, através de confiscos, outras de maneira indireta, através da inflação, que é o mais dissimulado e cruel mecanismo de transferência de riqueza da sociedade para o estado. Estamos falando de um desrespeito que, na Argentina, veio travestido de Peronismo, mas essa conduta reincidente de desrespeito ao direito à propriedade já ocorreu em diversos países em diferentes circunstâncias e momentos históricos. Em nenhum desses casos, a história terminou bem para o povo. Na Argentina, assim como no Brasil, temos uma cultura de agigantamento e divinização do estado. Mas um ministro de estado, de modo algum, é necessariamente mais sábio ou perspicaz do que um industrial ou um comerciante. A sensação de onipotência e onisciência do estado acaba fazendo com que o estado, em certo momento de sua história, se julgue capaz, não apenas de ditar regras econômicas ou políticas, mas também códigos morais. Esse é um dos maus legados da Revolução Francesa: trocamos Deus pelo Estado. Mudam-se as regras do jogo durante o próprio jogo, de acordo com aquilo que o Estado julga conveniente em dado momento. Poderíamos resumir o problema Argentino em particular, e o latino-americano em geral, como um contumaz desrespeito ao princípio do “pacta sunt servanta”: os pactos devem ser cumpridos. Onde não se cumprem os pactos é impossível haver confiança: o relativismo moral contamina diversas frentes da sociedade, inviabilizando a geração de riqueza. O capitalismo não é apernas máquinas ou matérias primas: ele também é, principalmente, confiança. Sem ela, os colapsos político, social e econômico são apenas uma questão de tempo. 


O país é um dos principais parceiros internacionais do Brasil, no turismo e no comércio exterior. Há possibilidade de essa relação ser abalada em decorrência dessas turbulências?

Com certeza. Quando um país se torna um pariah na sociedade das nações, é natural que haja uma deterioração no modo como as pessoas percebem esse país. É natural que cidadãos de outros países não tenham muito interesse em viajar, trabalhar ou mesmo viver num país que se marginalizou por suas más condutas de gestão.

Quais seriam as soluções para esse cenário de deterioração? Você defende uma "reforma radical" no país. Como seria essa reforma, por que é necessária e que efeitos produziria?

Mantendo tudo como está, é de se esperar que a Argentina não consiga sair de sua condição periférica no cenário global. Não é tão difícil concluir que as melhores alternativas estão associadas à abertura das fronteiras do país e a liberalização de sua economia. Quando barreiras isolacionistas são derrubadas, temos a oportunidade de aprender com os acertos de outras nações: esse é o aspecto civilizatório do comércio. Você aprende, com os países mais ricos, modelos mais prósperos de sociedade. Por exemplo: se eu fabrico carros mas estou inserido em uma economia protecionista, é de se esperar que meus carros sejam inferiores aos modelos produzidos, por exemplo, na Coréia do Sul ou nos Estados Unidos. Como corrigir essa situação? Com mais protecionismo? Claro que não! Muito pelo contrário, devemos abrir as fronteiras, deixar a concorrência entrar, aprender com essa concorrência e, em seguida, tentar superá-la. Essa é a essência de uma economia de mercado: quem está lá em cima pode cair, e quem está embaixo pode subir. Quanto mais contato a Argentina tiver com países centrais, mais ela aprenderá a respeito de boas práticas comerciais e políticas.

A dinâmica política da sociedade argentina é, historicamente, bem diferente da brasileira. Levando isso em consideração, que relação seria possível fazer entre o cenário que identificou no país vizinho e o atual momento do Brasil?

A nenhum de nós é dado o direito de roubar dinheiro público, certo? Não importa se você esta roubando dinheiro publico para comprar um Rolls Royce ou para financiar a construção do socialismo. Ladrão é ladrão, crime é crime. O problema é que essa noção se perdeu um pouco na América Latina, nos últimos 15 anos. Se um político é pego roubando dinheiro público para comprar um Rolls Royce, ele é imediatamente chamado de ladrão. Mas se um político é pego roubando caminhões de dinheiro em nome do bolivarianismo ou da “justiça social”, então tudo bem. Que moral é essa, que relativiza o crime de acordo com o destino do butim? Precisamos acabar com a noção ingênua de que e possível construir um país decente brincando de Robin Hood. Quando você rouba dos ricos para dar aos pobres, você não está praticando um ato de bondade: você esta praticando um crime. O Brasil não entende muito bem essa ideia, e a Argentina entende muito menos. Aqui, caímos novamente no tema da minha primeira resposta: “pacta sunt servanta”. É impossível haver paz e prosperidade num pais onde crimes (estatais ou não) são mais ou menos tolerados, dependendo da causa em nome da qual eles foram cometidos.

Que peso você atribui à dinâmica política do peronismo - centralização do Executivo, dependência do Judiciário e do Legislativo, populismo eleitoral, controle da imprensa etc - corrente que o grupo Kirchner evoca como sua herança política/partidária, ao cenário atual da Argentina?

Total. A Argentina de 2015 é a cristalização do projeto que Perón desenvolveu há muitas décadas. É um vazio ideológico no qual só se cultiva um único fruto: a manutenção do poder. É o poder pelo poder.

É possível traçar um paralelo entre essa dinâmica política argentina e a brasileira, levando em conta os últimos governos? 

Com certeza, absolutamente. O que ocorre é que a situação política brasileira consegue ser potencialmente mais perigosa do que a Argentina. Isso porque a subida do PT ao poder representa a vitória (ainda que momentânea) de um projeto de poder que veio para ficar. O Lulopetismo não tem adversário, tem inimigos. E inimigos, para o Lulopetismo, são todos aqueles que ousam contestar o direito petista de permanecer indefinidamente no poder. Não importa quanto roubam, pois dizem roubar em nome de uma causa muito nobre: a construção do socialismo, um sistema político tão maravilhoso que conseguiu assassinar mais de 100 milhões de pessoas, apenas no século 20. Hitler matou 6 milhões de seres humanos. Então, quando falamos do Socialismo, estamos falando de um sistema político que conseguiu ser 16 vezes mais genocida do que o Nazismo. E é esse sistema que os petistas defendem. É esse sistema que eles querem trazer para cá. É em nome desse sistema que eles saquearam a Petrobras. Feitas essas considerações, ouso dizer que a realidade política brasileira é ainda pior do que a Argentina. Lá, eles querem o poder pelo poder. Aqui, eles querem o poder para construir o inferno socialista. 

As turbulências na economia brasileira preocupam menos ou mais?

Eu sinceramente acho que aqui a situação é pior, muito pior. Embora o Brasil seja um país naturalmente rico, temos deficiências em pontos letais, como a educação. Quando falamos de Argentina, estamos falando de um país que, embora problemático, ainda cultiva hábitos e heranças de seus tempos de glória. Buenos Aires, por exemplo, tem o maior índice de livrarias per capita do mundo. Aqui, chegamos ao ponto central sobre as chances e oportunidades do futuro: uma boa educação não é condição suficiente, mas é condição necessária à prosperidade econômica de qualquer país. Não existe nação rica com educação como a nossa. Os índices educacionais brasileiros ocupam os últimos lugares nos rankings internacionais, e isso é absolutamente incompatível com a atual fase do capitalismo, na qual, cada vez mais, busca-se a produção de itens com maior valor agregado possível. Enquanto não resolvermos a questão educacional, estaremos condenados a vender commodities para todo o sempre. Além do problema educacional, no entanto, temos uma questão ainda mais urgente: a da liberdade econômica, que, em termos de importância estratégica, é muito mais prioritária do que a questão educacional. Isso porque, embora a educação seja um problema fundamental, a educação sozinha é incapaz de fazer com que um país enriqueça. A educação só tem esse poder se ela estiver inserida numa sociedade que garanta aos indivíduos a maior liberdade econômica possível, de modo que através do livre mercado, os indivíduos possam exercitar todas as suas competências inatas e adquiridas, em trabalhos honestos, sem intimidações por parte do poder público. É verdade que a Argentina não é nenhum exemplo de liberdade econômica, mas, até onde sabemos, não existe, na Argentina, nenhum plano nefasto de “construção do socialismo”. Aqui, ao contrário, corremos o risco de viver esse pesadelo. 

Qual seria o maior desafio da economia brasileira, hoje?

Enquanto o brasileiro não mudar sua forma de enxergar e de se relacionar com o estado, estaremos condenados a uma pobreza crescente que terminará em miséria. Ou mudamos nossa cabeça, ou o pior dos futuros nos espera. Por outro lado, podemos atingir níveis inimagináveis de prosperidade se nos inspirarmos em paradigmas de sucesso como os Tigres Asiáticos. Já mencionei nessa entrevista o caso da Coréia do Sul. É um país admirável, dadas as circunstâncias em que viviam há 60 anos. Outro exemplo é Singapura, uma ilha sem recursos naturais, desprovida de unidade étnica ou religiosa, que hoje apresenta PIB per capita superior à de nações como os EUA e Canadá. Se Coréia do Sul e Singapura conseguiram, por que o Brasil não poderá conseguir também? Só não podemos nos dar ao luxo da insanidade. Einstein definiu insanidade como fazer algo sempre do mesmo jeito, esperando obter resultados diferentes. Já passou da hora de entendermos que não chegaremos a nada de bom enquanto continuarmos insistindo nessa ideia falida de estado gigante e protetor. Imagine o nível de riqueza que o Brasil poderia atingir se adotássemos o lema do estado mínimo como norte das nossas ações políticas...

E o maior desafio para a indústria e o varejo de moda, em um contexto de economia enfraquecida, inflação e juros em alta e consumo retraído?

Pelo cenário que já delimitamos, fica fácil perceber que nosso ambiente de negócios é hoje muito hostil ao empreendedorismo. Nessa condição, toda e qualquer ação da livre iniciativa é sempre vista pelo poder público como algo suspeito e potencialmente ameaçador à sociedade. Por isso, uma das maiores tolices contemporâneas é tratar o empresário como se fosse o parasita da sociedade. Na verdade, a sociedade se beneficia das empresas muito mais do que as empresas se beneficiam da sociedade. Por quê? Os benefícios que a sociedade apura com as empresas são quase sempre permanentes. São benefícios que vem para ficar. Por outro lado, uma empresa que contribuiu imensamente para a melhoria do padrão de vida humano, amanhã ou depois pode cometer um equívoco comercial e ir à falência. O benefício que essa empresa trouxe à sociedade sobrevive ao longo do tempo de vida da própria empresa. Essa é uma ideia simples, mas não muito compreendida aqui no Brasil. No entanto, alguns países da América Latina já compreenderam essa ideia. Veja por exemplo o caso o Paraguai. O governo daquele país criou condições para que novas empresas investissem em seu território. A Riachuelo foi uma dessas empresas. Não fomos para lá por que esse era o nosso sonho, mas sim porque percebemos a mão estendida do governo Paraguaio. Ao longo dos últimos 10 anos, a Riachuelo bancou insistentemente o risco de concorrer com produtos chineses, arcando com custos elevados de produção brasileira. Durante a última década, fomos ao limite da nossa capacidade e dos nossos recursos, para produzir, em solo nacional, a maior parte possível das mercadorias que vendemos em loja. Fizemos isso porque isso gera um ciclo de prosperidade para todos os brasileiros, e nós também somos brasileiros. No entanto, não consideramos que o governo brasileiro, desde o início da era petista, soube apreciar todo esse esforço. Acho que muitos outros empresários compartilham dessa mesma sensação. Não queremos um país em que empresários se vendam em troca de linhas de crédito subsidiado. Não queremos um país que trata seus empresários como se eles fossem marginais, quando os verdadeiros marginais estão nas mais altas esferas de Brasília, saqueando nosso dinheiro. Não queremos um país que inviabilize a atividade econômica.

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