sábado, 22 de agosto de 2015

Grécia poupa mais que Alemanha, mas mídia nacional prefere mencionar "lucro" de 100 milhões alemão

Por André,

Em 2 anos a Grécia poupou 9,1% do PIB contra 3% do PIB em 5 anos economizado pela Alemanha, graças a política de preços baixos propiciada pelo BCE as custas da credibilidade da Alemanha (único país de rating máximo).

Qual a manchete na mídia brasileira?

"Alemanha lucra 100 bilhões de euros com a crise grega".



Uma narrativa mais informada mas igualmente simplista poderia, portanto, concluir que quem mais tem "lucrado" com a crise grega tem sido a própria Grécia, que em dois anos terá poupado três vezes mais em juros do que a Alemanha em cinco. Para de seguida sugerir que serão, afinal, os governos gregos que arrastam os pés para perpetuarem a crise e suas benesses.

Recentemente, o instituto alemão de Investigação Económica de Halle (IWH) publicou um estudo no qual se conclui que, devido à crise grega e à política de baixos juros do BCE, a Alemanha poupou entre 2010 e meados de 2015 nos seus custos de financiamento mais de 100 mil milhões de euros, 3% do seu PIB, porque beneficiou de forma desproporcionada do reforço do estatuto de "activo seguro" que tradicionalmente os investidores concedem aos títulos de dívida emitidos pelo Estado alemão. 

Houve quem interpretasse esse ganho como um "lucro" (título da notícia da Lusa), como a demonstração de que "são os mais fortes que estão a beneficiar da desgraça dos mais frágeis" (como se leu na coluna de opinião do DN) ou até quem concluísse que a Alemanha "tem 100 mil milhões de razões" para não ter pressa numa solução para a crise porque estará a "beneficiar imenso" dela (editorial do Público).

Olhe-se agora para cálculos semelhantes feitos para os Estados europeus intervencionados. Usando uma aproximação igualmente séria à realidade feita pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), quando se comparam as taxas de juro dos empréstimos concedidos pelos parceiros europeus com as que teoricamente teriam de suportar caso tivesse acesso aos mercados chega-se à conclusão de que todos eles pagaram menos. Em 2013, a Grécia poupou em juros 8,6 mil milhões de euros, o equivalente a 4,7% do seu PIB, o que corresponde a 9% da despesa pública primária, o que por sua vez é mais do que os recursos que o Estado grego investe na Educação do seu povo. No ano seguinte, o Estado grego poupou 7,9 mil milhões de euros, ou 4,4% do seu PIB.

De acordo com os cálculos da instituição que está a financiar a parte europeia dos resgates, nenhum outro país intervencionado poupou tanto quanto a Grécia com a circunstância de estar a ser financiado por empréstimos pedidos em nome da Zona Euro - Chipre economizou 1,5% do PIB, Portugal 0,8%, Irlanda 0,4% e Espanha 0,2% (dados para 2013). Isso só é possível dada a credibilidade de que a Alemanha goza junto dos investidores (é o único grande país do euro com rating máximo das grandes agências de notação), credibilidade essa que transfere para o MEE ao ser o seu maior accionista, e que chega depois em forma de empréstimos com juros mais baixos aos países que perderam acesso aos mercados porque os investidores não os reconhecem como credíveis.

Uma narrativa mais informada mas igualmente simplista poderia, portanto, concluir que quem mais tem "lucrado" com a crise grega tem sido a própria Grécia, que em dois anos terá poupado três vezes mais em juros (9,1% do PIB) do que a Alemanha em cinco (3%). Para de seguida sugerir que serão, afinal, os governos gregos que arrastam os pés para perpetuarem a crise e as suas benesses.

Como a correcção de um erro não se faz cometendo o mesmo erro ao contrário, em vez de ver chifre em cabeça de cavalo talvez seja avisado tentar ler o estudo no contexto em que foi publicado. 

Ao salientar que quando se discutem os custos de "salvar a Grécia" não devem ser ignorados os ganhos obtidos pelo Estado alemão ao longo destes cinco anos - porque serão maiores do que o prejuízo num cenário em que a Grécia não devolva os 90 mil milhões de euros que o IWH calcula terem sido suportados, directa e indirectamente, pelos contribuintes alemães - o instituto alemão parece querer dar argumentos aos que, internamente, defendem um perdão de dívida à Grécia, e não apenas uma nova suavização das condições (juros e prazos) de reembolso dos empréstimos, como está na calha, na linha do prometido em Novembro de 2012. Tão simples quanto isso. E tão complexo quanto isso, quando se sabe que para a Alemanha, e não só, é jurídica e politicamente impossível perdoar dívida a um país do euro, e que para o fazer seria preciso a Grécia tirar umas férias da união monetária, como sugerido pelo ministro Wolfgang Schäuble – e rejeitado por Alexis Tsipras e por Angela Merkel.

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