terça-feira, 11 de agosto de 2015

Resenha: "1984" de George Orwell

Por André,



Resenha crítica do livro 1984 de George Orwell


Para obtenção de créditos parciais na disciplina "Ciência, Tecnologia e Sociedade" (CTS) [UFABC, 2/2015]


Sobre o autor: Eric Arthur Blair (1903-1950), que escreveu sob o pseudônimo de “George Orwell”, foi um renomado escritor e jornalista inglês. Fora também militante político, lutou na guerra civil espanhola e era simpatizante de ideais anarquistas (ou em oximoro relativamente conhecido “socialismo democrático”), tendo lutado na guerra civil espanhola ao lado dos combatentes republicanos. Suas obras mais conhecidas são 1984 (1949) e A Revolução dos Bichos (1945); a primeira será objeto de análise nesta resenha e a segunda retrata uma paródia crítica do que se deu na Rússia bolchevista; a retórica igualitária dos comunistas se converteu em opressão e totalitarismo e foi objeto de exposição de Orwell na obra – a despeito de qualquer filiação à esquerda, Orwell não se furtou a criticar severamente o comunismo soviético, mostrando que suas preocupações eram mais intelectuais e menos ideológicas, isto é, na contramão de muitos intelectuais (inclusive compatriotas[1]) de sua época, Orwell preferiu os fatos frente às narrativas ideológicas que relativizavam os crimes de Moscou.

A OBRA

            Dentre diversas categorias possíveis em que 1984 pode se encaixar, uma em que certamente a descreve bem é a de “distopia”. A palavra remete ao seu par oposto, “utopia”. Do ponto de vista semântico quer dizer simplesmente não-lugar (do grego ou e topos), lugar sabidamente inexistente dadas suas características que beiram ou atingem a perfeição (social, política e moral). Literariamente a palavra surge com a obra assim intitulada por são Thomas Morus, Utopia[2]. Afirma-se que após a repercussão da obra, onde muitos não a compreenderam e viram ali um manual de realização no mundo ou um arquétipo ideal realizável no mundo concreto (interpretação contrária àquela pretendida por Morus), o autor desejava que os exemplares fossem queimados, visto a interpretação diametralmente oposta que ganhou fôlego com o tempo. Analisaremos a obra de Orwell à luz de quatro aspectos que podem ser depreendidos da própria e que caracterizam boa parte das distopias: a manipulação da verdade perpetrada pelo estado totalitário descrito por Orwell, o fenômeno da manipulação da linguagem, do duplipensar e a demonização dos adversários (reais ou imaginários), mas não sem antes um introito sobre o conceito de distopia.
            As distopias – que não coincidentemente proliferaram no século XX, século dos totalitarismos –, portanto, são representações de sociedades que raiam a loucura social, moral e política: ditaduras, tecnocracias, engenharia genética, controle absoluto de todos os aspectos da vida humana (usualmente sob a alçada de um Estado superpoderoso). Esse é o caso de “1984”[3]: Oceania é uma ditadura totalitária dirigida pelo “Grande Irmão” e regida pelo “ingsoc”, o socialismo inglês. Oceania está em guerra constante e embora os “inimigos” mudem com o passar do tempo, todos são levados a crer que o inimigo é sempre o mesmo, pois a verdade histórica se encontra nas mãos do Grande Irmão. Aí que entra o herói do livro (embora seja questionável se Winston realmente encarna um herói): Winston Smith trabalha na seção “jornalística” do “ministério da verdade” onde é de sua responsabilidade manipular fatos reescrevendo artigos de jornais e revistas. Uma das intenções mais nítidas de Orwell com sua obra era mostrar como os totalitarismos arrogam a si mesmos a condição de senhores da verdade, quando na verdade o que eles operam é uma institucionalização da mentira. Um episódio emblemático disso na obra é quando a quota de ração de chocolate é reduzida[4], mas os anúncios falam de um aumento e as pessoas acreditam que, de fato, houve aumento:

Foi informado de que houvera inclusive manifestações de agradecimento ao Grande Irmão pelo fato de ter elevado a ração de chocolate para vinte gramas por semana. Sendo que ainda ontem, refletiu, fora anunciada a redução da ração para vinte gramas por semana. Seria possível as pessoas engolirem aquela, passadas apenas vinte e quatro horas do anúncio? Sim, engoliam. Parsons engoliu sem dificuldade, com a estupidez de uma besta. A criatura sem olhos da outra mesa engoliu fanática, apaixonadamente, com um desejo furioso de seguir, denunciar e vaporizar todo aquele que viesse a sugerir que na semana anterior a ração era de trinta gramas. Syme também – de uma maneira mais complexa, que envolvia duplipensamento –, Syme engoliu. Winston era o único, então, a possuir memória? (ORWELL, 2012. p. 75 e 76, grifo do autor).
           
O controle psicológico impresso nas pessoas pelo Grande Irmão é de uma força tal que consegue, como ilustra o trecho, controlar plenamente a memória das pessoas. A mente e o corpo (vale ressaltar que um dos pecados de Winston, além de pensar por si próprio e registrar o que pensava por escrito foi se relacionar sexualmente com Julia, isto é, o sexo também era alvo de controle) dos habitantes de Oceania estão sob controle total e completo. Se o ambiente descrito é esse, é evidente que a linguagem não foi menos objeto de ataque por parte dos planejadores centrais de Oceania.
Abreviações são preferíveis diante das palavras inteiras, ao longo dos tempos, os dicionários vão diminuindo cada vez mais (o algoz de Winston – O’Brien, inclusive, oferece a ele o mais recente, orgulhosamente bem menor que a edição anterior). Quem deseja aumentar seu controle sobre as pessoas deve, inevitavelmente, estender seus tentáculos para a linguagem. Quem pensa numa língua previamente estabelecida está incapacitado de pensar livremente, de pensar nas “ideias erradas”, daí a necessidade imprescindível de se criar uma “novilíngua”. Vale lembrar que o famoso lema de 1984 é “Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”, ou seja, palavras com sentidos completamente opostas são tidas como sinônimos – trata-se de um esvaziamento quase que completo da linguagem. Sem o conteúdo concreto escorado na realidade as palavras são simplesmente vazias e os interessados na manutenção da opressão podem se dar o direito de praticar as mais odientas atitudes. O Grande Irmão poderia e conseguiria, tranquilamente, chamar Oceania de uma república ou uma democracia[5] se assim o quisesse. Uma linguagem contaminada é o caminho pavimentado com perfeição para o estabelecimento de alguma ditadura totalitária.
Outro elemento que emerge da sociedade ultracontrolada descrita em 1984 é o fenômeno do “duplipensar”. O controle é exercido sobre diversas frentes: moral, política, sociedade, tecnologia, mas em níveis mais profundos como a biologia[6] e a psicologia. Os habitantes de Oceania são capazes de conciliar crenças absolutamente contraditórias em suas cabeças, ferindo sem maiores delongas o elementar princípio lógico da não-contradição. O duplipensar é corolário do monopólio da verdade que o Grande Irmão pretende praticar. Ainda que seja possível falar num aumento da quota de ração quando ouve diminuição, a realidade invariavelmente guarda uma força que não pode ser aniquilada. As pessoas sabem, veem ou sentem que a quantidade diminuiu, mas acreditam e afirmam que na verdade ela aumentou. Oceania estava em guerra com a Eurasia e ela representa o maior inimigo de todos os tempos, mas subitamente virou uma aliada? Sem problemas. Basta alguns movimentos para acomodar esse novo “fato” na cabeça das pessoas. Conforme afirma o (anti)-herói da obra, “a verdade se torna mentira e depois se torna verdade de novo”. Como? A explicação psicológica para o fenômeno é o que Orwell batizou de duplipensar. Longe de mera licença poética, o duplipensar é, basicamente, o fenômeno que a psicologia documenta como “dissonância cognitiva”, isto é, quando os eixos da prática e da teoria em vez de correrem em paralelo correm em sentidos opostos, solapando um ao outro. No contexto de um estado totalitário a dissonância cognitiva precisa ser impetrada em escalas nacionais, visto que como apontamos, a realidade e a narrativa que pretende retratar essa realidade também correm em direções opostas.
Há ainda um elemento importante a ser destacado em 1984, que é o fenômeno propagandístico da demonização do adversário político, seja ele real ou imaginário. Como um dos pés de sustentação de um estado totalitário, é essencial manter o ódio das pessoas em doses elevadas. É o que observamos com o Emmanuel Goldstein, o suposto grande inimigo de Oceania – suposto pois o próprio Winston põe em xeque sua existência. Na história existe até mesmo os “dois minutos de ódio” (uma paródia do “minuto de silêncio”?), período de tempo dedicado à execração pública de Goldstein. Embora tudo que fora realçado até aqui possa ser visto no debate público político atual, a necessidade de odiar alguém nunca foi tão exercitada pelos políticos. Não se trata de um embate minimamente racional em que o outro lado é logicamente refutado, mas sim de uma discussão de natureza moral, sobre o caráter do seu adversário que é digno de ódio dos demais. Essa retórica atinge os dois lados do espectro político: George Bush tanto se serviu dela[7], quanto foi vítima[8], bem como outros[9]. O fato é que, diante de analises o máximo racionais possíveis, nenhum totalitarismo se sustentaria, se fazendo necessário, portanto, o tipo de abordagem sentimental que abarcará sentimentos polarizantes que permitam dar combustível para ações injustificadas, além de imbuir os sujeitos comuns de uma vontade de ação visceral contra aqueles que representam o “mal”. A discussão segue a mesma esteira do esvaziamento da linguagem: se a Coreia do Norte é uma república democrática e se Goldstein é a encarnação do mal, quem ousará ser contra uma república democrática e quem ousará se negar a combater o mal?

***
Há ainda um último aspecto que gostaria de destacar: embora haja uma ansiedade tanto de direita quanto de esquerda por contar Orwell como um dos seus (pessoalmente penso que sua acidez incida mais sobre os delírios de esquerda que os de direita), reitero que tanto a obra quanto o pensador Orwell estão intelectualmente desprendidos desse tipo de análise. Embora o pano de fundo de Orwell para 1984 e outras obras seja os fascismos europeus que o próprio viu ascender, suas críticas não incidem sobre um sistema econômico, isto é, Orwell não estava criticando o comunismo enquanto projeto econômico, mas sim qualquer sanha totalitária estatal, havendo adesão ao socialismo econômico ou a algum tipo de capitalismo de laços que fosse. Suas críticas atingem tanto as práticas das polícias políticas como a Stasi, a KGB e outras quanto a intromissão de entidades como a “NSA”, tal como denunciado por Edward Snowden. Ou seja, a instalação de um estado policial pode ser observada tanto com o pano de fundo de um socialismo econômico quanto do capitalismo de Estado. Tal interpretação está plenamente fundamentada tanto na obra quando na exegese (Cf. FROMM, 2012, p. 379; ORWELL, 2012, p. 92).

Orwell contra David Bloor

            Na figura do professor David Bloor (1942-) acreditamos que se concentra uma postura a qual Orwell faria algumas objeções e nisso seguimos tanto nossa interpretação particular quanto aquela oferecida por Christopher Hitchens[10] sobre o autor em obra já citada (Cf. nota 1). Grosso modo, as posições explicitadas pelo professor Bloor condensam uma importante e atual vertente das ciências sociais que enfatiza o caráter socialmente construído das coisas, desde a moral, costumes até a própria ciência física. Estamos perfeitamente cientes da complexidade do pensamento do professor britânico. Usamos sua referência pelas ideias em si mesmas, mas como ensejo para a ligação entre uma certa crítica feita por Orwell a posições que caso não sejam totalmente do professor Bloor, encontram fortes ecos na obra do mesmo, a saber, que fatores exógenos aos fatos são influentes ou determinantes para teorias científicas e que a ciência não pode ser concebida como uma construção lógica e autônoma; posicionamento este que está na esteira das concepções ditas “pós-modernas”[11] que surgem como críticas aos ideais modernos de sujeito, razão, verdade, objetividade etc e que afirmam que a ciência é apenas uma narrativa como qualquer outra[12].
            O chamado “programa forte” da sociologia da ciência teorizado por Bloor conduz invariavelmente a uma consideração relativista (ou “sociologista”) da ciência que tem por premissa diretora a ideia que a ciência não representa conhecimento verdadeiro (visto que que é socialmente construído[13], portanto, variável diante da época, história, economia, preconceitos etc.) – estendida para termos mais genéricos: afirmações que pretendam o caráter de verdadeiras são impossíveis. O sociólogo da ciência investiga as excrecências e as irracionalidades do processo de construção da mesma (ao contrário do filósofo da ciência, que usualmente despreza esses itens) e confere razoável importância aos mesmos, visto que uma outra premissa dessa linha sociológica é que conhecimento é tudo que é tido como conhecimento (BLOOR, 2010, p. 18) – de acordo com o slogan feyrabendiano de que “tudo vale”, se alguma sociedade x ou y pretende que seus rituais religiosos são conhecimento, então são conhecimento, dada a definição utilizada. Se há um Grande Irmão forte o suficiente para afirmar que a afirmação “guerra é paz” é verdadeira, então ela é verdadeira. Embora Bloor alegue que o programa forte não se ocupa de verdade ou falsidade (idem, p. 21), esse tipo de saída relativista não se sustenta: é verdadeiro ou é falso que a sociologia da ciência não se ocupa da verdade ou falsidade das disciplinas científicas? Que as teorias científicas são construtos sociais é uma afirmação falsa, verdadeira, as duas coisas ao mesmo tempo ou nenhuma das duas?
            Dessa forma, mesmo que Bloor esteja absolutamente correto nas suas afirmações e nós, errados, defendemos aqui que Orwell foi de alguma maneira um paladino da verdade e da objetividade contra o programa forte de Bloor e o zeitgeist das ciências sociais hoje em dia. Podemos levantar dois argumentos em favor da ideia que Orwell era assim: o primeiro é lógico, se Orwell falava em manipulação da verdade histórica, por exemplo, é porque acreditava num padrão externo objetivo que pudesse determinar que aquilo é, efetivamente, um dado histórico falso porque manipulado. Se a verdade é relativa é sempre relativa a alguma coisa e não é fortuito que assim seja num ambiente totalitário, em 1984 a verdade é relativa à vontade do Grande Irmão – para possível surpresa de alguns, as formas radicais de relativismo são excelentes em dar azo a ditaduras. Se há qualquer expectativa pela rebelião de Winston, por exemplo, é porque há uma verdade externa e independente das vontades dele próprio e do Grande Irmão a recorrer[14].
            Igualmente – e como nosso segundo ponto – se Orwell crê que a linguagem é manipulável, faz o diagnóstico porque acredita na possibilidade de se expressar não de forma neutra, mas ao menos de alguma maneira minimamente honesta (como saber que a novilíngua não é o idioma mais adequado e verdadeiro sem um padrão externo, objetivo e quase-neutro?). Conforme afirma Christopher Hitchens, Orwell cria que essa linguagem é possível e essencial para o livre curso de uma sociedade aberta: “para Orwell, uma linguagem comum com regras aceitas e mutuamente compreendidas era condição indispensável a uma democracia aberta” (HITCHENS, 2010, p. 189).
            Qualquer oposição à novilíngua (bem como ao autoritarismo que ela ajuda a reforçar) depende também – e talvez essencialmente – de que haja uma linguagem objetiva e que exista uma verdade objetiva que sirva de arcabouço para eventual luta contra a “verdade civil”. Como título alternativo para 1984 Orwell havia pensado em “O último homem da Europa”. Seria Winston esse último homem ou seria um convite de Orwell para que nós sejamos[15] esses últimos homens? Em 1984 certamente Winston é o único sobrevivente, tanto que se sentiu compelido a exortar:

“Ao futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que não vivam sós – a um tempo em que a verdade exista e em que o que for feito não possa ser desfeito:
Da era da uniformidade, da era da solidão, da era do Grande Irmão, da era do duplipensar – saudações!”. (ORWELL, 2012, p.39, grifos nossos).
           
            Dessa maneira, nesse retrato de Orwell como um profeta da verdade e da objetividade, legítimo herdeiro da tradição lógico-analítica anglo-saxônica (e por oposição à tradição “continental”, hermenêutica e historicista e, portanto, afeita ao relativismo), acreditamos que há uma certa contestação de uma forte e constante premissa norteadora dos estudos sociais contemporâneos, na figura de autores como Bloor, mas ainda como outros.

Referências bibliográficas

BOGHOSSIAN, Paul. O medo do conhecimento: contra o relativismo e o construtivismo. Lisboa: ed. Gradiva, 2015.

BLOOR, David. Conhecimento e imaginário social. São Paulo: ed. UNESP, 2010.

BRICMONT, Jean; SOKAL, Alan. Imposturas Intelectuais. Rio de Janeiro: ed. Best Bolso, 2014.

FEYERABEND, Paul. Contra o Método. São Paulo: ed. UNESP, 2011.

FROMM, Erich. “Posfácio”. In: 1984. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2012.

HITCHENS, Christopher. A vitória de Orwell. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2010.

LEWIS, Clive Staples. A abolição do homem. São Paulo: ed. Martins Fontes, 2012.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2012.



[1] Quando já se era sabido dos crimes perpetrados por Moscou, o casal Sidney e Beatrice Webb visitou a União Soviética e afirmou que ali jazia o futuro da civilização humana. A obra em que relataram suas experiências era intitulada em suas primeiras edições (de 1938) como “URSS: uma nova civilização?”. Com o tempo a interrogação foi suprimida. Para um apanhado geral da recepção das esquerdas das obras de Orwell conferir HITCHENS, 2010, p. 44-83.

[2] Há os que classifiquem a “República” de Platão como uma utopia, muito embora apenas Morus já entendia seu trabalho como tal. Platão certamente entendia o plano da pólis perfeita da República como realizável no mundo.

[3] Mas não apenas de 1984, também de: Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), We (Yevgeny Zamyatin – a quem Orwell deve muito para a produção de 1984), O Senhor das Moscas (William Golding), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), Planeta dos Macacos (Pierre Boulle), Cântico e A Revolta de Atlas (Ayn Rand) e até mesmo Jogos Vorazes (Suzanne Collins).

[4] Isso porque “Quase todo o material com que lidavam ali era desprovido da mais ínfima ligação com o mundo real – faltava até o tipo de ligação contida numa mentira deslavada. As versões originais das estatísticas não eram menos fantasiosas que suas versões retificadas” (ORWELL, 2012, p. 55). Não se trata de um monopólio da verdade (o que poderia dar azo a um relativismo cognitivo que Orwell certamente rechaçaria), mas de um monopólio da mentira – se para Aristóteles a verdade era medida de acordo com a correspondência entre o que se diz e a realidade, em Oceania o que se diz não tem qualquer ligação com o real (idem. et seq).

[5] Vale lembrar: a União Soviética se intitulava uma “república”, os gulags eram chamados de “campos de correção” e a Coreia do Norte se auto-intitula uma “república democrática”. Certamente a relação dos totalitarismos com a linguagem não é das mais saudáveis.

[6] Usualmente as distopias do século XX relatavam sociedades eugênicas, sendo Admirável Mundo Novo o exemplo mais famoso, as pessoas são geneticamente criadas e seus destinos geneticamente determinados.

[7] O famigerado discurso acerca do “eixo do Mal” do Oriente Médio, https://www.youtube.com/watch?v=VAALGqKPaT4, que serviu de justificativa para a intervenção no Iraque.

[8] Por sua vez, o outro lado da moeda não deixou de retratar Bush (como também o faz com os EUA – tido como “Grande Satã” e com Israel, “pequeno Satã”: http://akio.ohtori.nu/images/03_bush.jpg).

[10] Cf. HITCHENS, 2010, p. 186-196.

[11] Ainda que as críticas ao pós-modernismo sejam coisa de ao menos duas décadas, parece que as ideias continuam tão influentes quanto eram à época. A brincadeira dos físicos Alan Sokal e Jean Bricmont, acreditamos, fora definitiva e decisiva para mostrar o caráter intelectualmente duvidoso de todo o grosso das ideias pós-modernas: http://criticanarede.com/imposturas.html e (BRICMONT, SOKAL, 2014).

[12] Como bem apontou, concorde-se com ele ou não, o filósofo da ciência Paul Feyerabend, dessas ideias só se pode concluir que a ciência não é uma forma de conhecimento superior à bruxaria e que, no fundo, “anything goes” (Cf. FEYERABEND, 2011).

[13] A despeito dos constantes exemplos extraídos da história da ciência que atestariam essa afirmação, há acadêmicos de peso que argumentam de maneira sólida no sentido contrário, como por exemplo Paul Boghossian em “O medo do conhecimento: contra o relativismo e o construtivismo” (2015).

[14] Não vejo possibilidade de oposição à tortura praticada por O’Brien contra Winston sem uma verdade objetiva a que se possa recorrer. O’Brien poderia ser dono de uma cadeira universitária para uma disciplina chamada “Relativismo Cognitivo Radical”, conforme o próprio diz: “Se você acha que flutua, então flutua”, “2 + 2 por ser 4, pode ser 3, pode ser 5 ou tudo isso se necessário”. Como O’Brien pode ser contestado se não há verdade objetiva?

[15] Não posso evitar a referência à obra “A abolição do homem” do literato C. S. Lewis. Já em 1943 Lewis não apenas duelava contra o mesmo relativismo que Orwell rejeita, como diagnosticava também que, se levado a sério, esse engodo intelectual implica no fim do homem e, por conseguinte, no fim da vida em sociedade como um todo. Nenhuma sociedade sobreviveu sem um “tao”, como chama Lewis, de saberes básicos e objetivos compartilhados por todos e que nenhuma autoridade política ousaria pôr em xeque. Winston e nós seríamos então, os últimos homens da Europa, ou os últimos homens.

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