domingo, 20 de setembro de 2015

Da vitalidade de atos e sentimentos

Por André,

Rainer Rilke

Rilke assevera em seu Cartas a um Jovem Poeta que não há poesia caso não seja vital fazê-la; caso não seja questão de vida ou morte escrever. Se não for assim, a escrita está invariavelmente fadada a não ser boa. Acredito que a observação de Rilke se estenda a tudo aquilo que pretende o título de arte ou de alta cultura.

Não apenas as produções culturais, mas creio que a observação se aplique satisfatoriamente às relações humanas contemporâneas, caracterizadas por sua "liquidez", para utilizar a imagem de Bauman. Poucas pessoas em nosso século são capazes de experimentar sentimentos genuinamente valorosos, pelos quais você estaria disposto a morrer. Talvez C.S. Lewis tenha vislumbrado esse mesmo problema já em sua época: "Você nunca saberá o quanto acredita em alguma coisa até que sua verdade ou falsidade se torne uma questão de vida ou morte".

Sempre que posso costumo recomendar às pessoas alguns sentimentos: chorar pela beleza de uma música. Todos deveriam, em algum momento da vida, ouvir uma música tão bela e tão tocante que conduza ao choro. Ninguém deveria morrer sem isso. Ninguém deveria morrer sem se identificar visceralmente com alguma personagem de literatura, visto que, no limite, toda a literatura (e a arte) é, nada menos que o relato de situações eternas e perenes ao ser humano - o artista é apenas o sujeito com a sensibilidade suficientemente apurada para relatar isso.

Da época das relações instantâneas, rasas, voláteis e etéreas, quantos terão a chance de cultivar algum sentimento vital por alguém? Das relações que teve, por quais você se jogaria na frente de um projétil? Por quais abriria mão de um sonho de vida para não perder? Esse é um outro tipo de sentimento que - perigosamente - recomendaria a todos que sentissem ao menos uma vez na vida. Evidente que o problema da reciprocidade segue intacto e suspenso como sempre esteve e estará, mas um sentimento dessa nobreza, creio eu, deve fazer parte do repertório de sensações de todos os seres humanos.

José Ortega y Gasset
Outro que tratou do que chamo a atenção aqui, mesmo que tangencialmente foi o brilhante filósofo espanhol Ortega y Gasset: o espanhol dizia que o homem é ele próprio e sua circunstância, isto é, é o que é e aquilo que está ao seu redor, além de propor um teste simples para saber a veracidade das crenças e sentimentos: o que tem importância mortal para você? Na imagem do náufrago proposta, que crenças, valores e sentimentos carregaria prestes a afundar no mar? Tudo que você esquecer e deixar de lado não importa, tudo que levar consigo à beira do naufrágio é vital.

Agradeço por terem me despertado um sentimento desse tipo, agradeço vitalmente. EE.

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