sábado, 19 de setembro de 2015

Os filmes que fizeram a cabeça de Martim Vasques da Cunha


(1) LAWRENCE DA ARÁBIA (David Lean, 1962): Podem colocar à vontade que “Cidadão Kane”, de Orson Welles, como o melhor filme já feito, mas, para o meu coração, este posto vai para o épico de Lean, que já tinha feito obras-primas como “Desencanto” (1945) e “A Ponte do Rio Kwai”(1957), mas somente aqui conseguiria atingir a perfeição, com uma ajuda de uma interpretação em estado de graça de Peter O’Toole.

EYES WIDE SHUT (Stanley Kubrick, 1999): Sim, Kubrick fez trabalhos mais perfeitos, como “2001 – Uma odisseia no espaço” (1968) ou “Barry Lyndon” (1975), mas é no seu último filme que ele mostra que, por trás de todo o seu pessimismo sobre o ser humano, ainda batia um coração.

(2) A ÉPOCA DA INOCÊNCIA (Martin Scorsese, 1995): Scorsese sempre é lembrado por seus impecáveis e divertidos filmes de gangster, por suas reflexões angustiadas sobre a fé, mas, na verdade, é neste filme que ele se revela tal como deve ser no sua dia-a-dia: como um romântico incurável, mas implacável ao perceber que as emoções não têm mais chance em um mundo como nosso.

O PODEROSO CHEFÃO PARTE III (Francis Ford Coppola, 1991): Os dois primeiros Chefões são sublimes, sem dúvida, mas o terceiro exemplar tem algo que eles não possuem: os 40 minutos finais mais devastadores da História do Cinema e que terminam com um dos retratos mais impressionantes da dor de perder um ente querido.

A ÁRVORE DA VIDA (Terrence Malick, 2011): Ainda chegará o dia em que nós perceberemos a chegada deste filme nas nossas vidas com o mesmo impacto que o mundo recebeu, em 1922, a publicação de “The Waste Land”, de T.S. Eliot.

(3) PICKPOCKET (Robert Bresson, 1959): Bresson fez para o cinema o mesmo que Picasso fez para a pintura, com a diferença que, no longo prazo, Bresson é melhor do que Picasso.

THE NIGHT OF THE HUNTER (Charles Laughton, 1951): Nosso Senhor, se algum dia me deres a chance de dirigir um único filme na vida, que seja com a mesma qualidade desta obra-prima única de Charles Laughton, que depois não precisou fazer mais nada na vida como diretor, tamanha a perfeição alcançada.

(4) AURORA (F.W. Murnau, 1927): Murnau foi o único diretor de cinema que conseguiu dominar a natureza – algo que só encontraria equivalente na filmografia de Terrence Malick.

CONTOS MORAIS (Eric Rohmer, 1959-1975): De todos, o meu favorito é “Minha noite com ela” (1969), brilhante meditação sobre as nossas tentações, mas todos os outros são impecáveis, com especial menção a “O Joelho de Claire” (1971) e “O Amor à Tarde” (1975).

DUAS INGLESAS E O AMOR (François Truffaut, 1975): Truffaut faria uma série de obras-primas do cinema, mas esta é, como “A Época da Inocência”, de Scorsese, aquele em que se mostra no seu íntimo.

LA DOLCE VITA (Frederico Fellini, 1961): A cena final deste filme ainda me perturba em alguns sonhos e pesadelos que tenho.

IL GATTOPARDO (Luchino Visconti, 1962): Visconti adaptando a obra-prima de Lampedusa e criando uma segunda obra-prima, desta vez com uma ajudinha de uma interpretação sublime de Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon.

(5) O SACRIFÍCIO (Andrei Tarkovski, 1988): A melhor utilização de Bach na história do cinema.

FAUSTO (Aleksandr Sokurov, 2012): Sokurov resume para nós, em duas horas e meia, a história da nossa servidão voluntária.

TRINTA ANOS ESTA NOITE (Louis Malle, 1962): Malle é o único sucessor de Robert Bresson e, neste filme, alcança uma pureza de imagem e de ritmo que jamais conseguiria recuperar nas películas seguintes, mesmo tendo uma obra rigorosa e impecável (como prova o subestimado e sublime “Perdas e Danos”, de 1992).

UM CORPO QUE CAI (Alfred Hitchcock, 1958): A obra-prima de um homem obcecado em fazer obras-primas.

(6) OS VIVOS E OS MORTOS (John Huston, 1989): Em seu último filme, Huston prova que é capaz de adaptar qualquer grande obra literária para o cinema. O monólogo final, declamado por Donal McCann, faz qualquer um chorar e pedir misericórdia.

A MARCA DA MALDADE (Orson Welles, 1957): O melhor filme do gênio, com o maior plano-seqüência já feito na Historia do Cinema.

OS INTOCÁVEIS (Brian De Palma, 1988): Toda vez que eu revejo este filme é como se fosse voltar a falar com um velho e querido amigo.

SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Peter Weir, 1990): Não há como você resistir àquela cena final.

A MOÇA COM A VALISE (1959) & A PRIMEIRA NOITE DE IMORTALIDADE (1971), ambos de Valério Zurlini: O cinema italiano teve gigantes como Visconti, Fellini e Rossellini, mas talvez o melhor de todos seja Zurlini, que fez obras primas em segredo e que só agora começam a ser redescobertas.

(7) THE RED SHOES (Michael Powell & Emeric Pressburger, 1959): O melhor filme já feito sobre o que é o desejo mimético.

A FRATERNIDADE É VERMELHA (Krystof Kieslowski, 1997): Junto com “Cortina de Fumaça” (1997), de Wayne Wang e Paul Auster, os melhores filmes já feitos sobre coincidência, acaso e os pequenos milagres que acontecem nas nossas vidas.

MAGNOLIA (Paul Thomas Anderson, 1999): Este filme fala sobre todos os temas anteriores, mas há algo mais que o torna especial: raras vezes o cinema mostrou o fenômeno da sincronicidade – uma das minhas obsessões – com uma perícia cinematográfica que ainda impressiona.

ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (Sérgio Leone, 1982): Coppola e Scorsese que me perdoem, mas Leone fez o definitivo filme de gangster, desta vez disfarçado em uma triste história do fim de uma amizade.

THE SEARCHERS (John Ford, 1959): A obra-prima de um gigante que tem mais obras-primas do que qualquer diretor de cinema.

RED RIVER (1948) & RIO BRAVO (1959), ambos de Howard Hawks: Hawks era o único diretor que John Ford respeitava. Precisa dizer mais alguma coisa?

(8) SUNSET BOULEVARD (1951), SOME LIKE IT HOT (1959) & THE APARTMENT (1961), todos de Billy Wilder: Há alguns anos, o diretor espanhol Fernando Trueba declamou, em plena cerimônia do Oscar, que Billy Wilder era Deus. Não é para tanto, mas, ao ver estes três filmes, ninguém pode negar que ele tinha um talento infinito para descobrir o ridículo e o insólito no comportamento humano.

A MALVADA (Joseph L. Mankiewicz, 1951): Talvez o roteiro mais perfeito já filmado em Hollywood, com uma direção sofisticada e uma Betty Davis em estado de graça.

THE INSIDER (Michael Mann, 1999): Billy Wilder fez uma obra-prima sobre o jornalismo, “A Montanha dos Sete Abutres” (1953), mas Michael Mann injeta uma dose a mais de emoção e nobreza neste filme que mostra um Al Pacino como jamais mostrou.

RAN (Akira Kurosawa, 1984): Kurosawa chega perto de melhorar a peça de William Shakespeare. Poucos conseguem fazer isso.

(9) MANHATTAN (Woody Allen, 1977): Allen faria outros filmes impecáveis e adoráveis, mas este é único porque tem Gershwin e uma Mariel Hemingway que nos faz imaginar como seria a sua versão de Lolita no papel principal.

CANTANDO NA CHUVA (Stanley Donen & Gene Kelly, 1955): O filme perfeito para você renovar a sua vida na noite de Réveillon.

INVENTION OF LIFE (Douglas Sirk, 1958): Uma aula de melodrama, tão perfeito que seu título virou uma canção do R.E.M.

HARRY & SALLY (Rob Reiner, 1988): O único filme romântico que chega aos pés de qualquer comédia romântica de Woody Allen.

A PLACE IN THE SUN (George Stevens, 1951): Stevens dirigiu três pérolas da cinematografia de Hollywood – esta, “Shane” e “Assim caminha a humanidade” -, mas este é o filme em que raras vezes a mão do destino se mostrou tão lírica e cruel.

THE IMMIGRANT (James Gray, 2013): Gray cita Coppola e Leone nos primeiros minutos do seu filme, mas depois parte para o Visconti e o Dostoievski que moram no seu coração e faz uma das películas mais arrasadoras sobre os tormentos de se alcançar a redenção da sua alma.

O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD (Andrew Dominik, 2008): Talvez o melhor filme da década passada, junto com “There will br blood”, de Paul Thomas Anderson, e também uma meditação melancólica sobre como uma amizade pode terminar na pior das traições.

A REGRA DO JOGO (Jean Renoir, 1939): Uma aula de como movimentar uma câmera no meio de uma caçada e no meio de uma festa que termina em tiroteio.

MYSTIC RIVER (Clint Eastwood, 2003): Clint faria inúmeros filmes impecáveis em sua longa carreira como diretor, mas poucos atingiram essa densidade em que estamos vivendo uma tragédia grega diante dos nossos olhos.

(10) SUPERMAN, O FILME (Richard Donner, 1977): Por mais que Christopher Nolan queira, este ainda é o maior filme de super-herói já feito.

TRILOGIA INDIANA JONES (Steven Spielberg, 1981-1989): Sim, você leu direito: eu não considero o péssimo quarto filme da série como parte integrante desse ciclo fantástico de aventuras que nos faz redescobrir, a cada revisão, a criança que existe dentro de nós.

O ENIGMA DA PIRÂMIDE (Barry Levinson, 1986): Sherlock Holmes antes da cocaína e da obsessão pela assexualidade.

CASSINO ROYALE (Martin Campbell, 2007): Como um todo, a série 007 faz parte do meu imaginário sentimental, mas este filme é o início de uma fase que privilegia uma fidelidade aos livros de Ian Fleming que não existia nas versões de Roger Moore e Timothy Dalton.

O FUGITIVO (Andrew Davies, 1998): O filme de aventura como uma travessia para você redescobrir a sua verdadeira identidade.

PULP FICTION (Quentin Tarantino, 1994): O virtuosismo técnico do nerd de videolocadora.

I’M NOT THERE (Todd Haynes, 2008): Bob Dylan versão 8 1/2 de Fellini.

L.A. CONFIDENTIAL (Curtis Hanson, 2002): O filme que finalmente mostrou ao mundo (e me apresentou) o universo maravilhoso de James Ellroy.

O EXORCISTA (William Friedkin, 1971): O maior filme católico já feito.

BLACK HAWK DOWN (Ridley Scott, 2001): Scott mostra o que é a guerra com uma crueza que só é comparável aos filmes de Kubrick e Samuel Fuller.

THE FLY (David Cronenberg, 1988): O corpo como um veículo para a doença que é a vida. Parece niilismo, mas é só realismo – e dos bons.

SEVEN (David Fincher, 1999): Um dos finais mais perturbadores e mais belos já filmados no cinema americano.

MULHOLLAND DRIVE (David Lynch, 2002): Lynch levando Luis Buñuel às últimas consequências.

INSÔNIA (Christopher Nolan, 2003): A ultima cena resume o que seria o cinema de Christopher Nolan e mostra a ultima grande interpretação de Al Pacino.


Martim Vasques da Cunha é escritor, jornalista, doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade de São Paulo, autor de Crise e utopia: O dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012) e de A poeira da glória – uma (inesperada) história da literatura brasileira (Record, no prelo). 

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