quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Democratização & Indiferenciação? Afinidades entre Freyre e Girard

Por Miméticos,

O sociólogo Gilberto Freyre, em seu clássico Casa Grande & Senzala, propôs o argumento de que a miscigenação racial combinada à mobilidade social — ambas decorrentes das estratégias de conquista e povoação do período colonial — teriam, incidentalmente, suscitado no desenvolvimento da sociedade brasileira uma situação de “democratização racial”1, que poderia ser aferida pela mitigação de atitudes segregadoras. Esse argumento resultou da análise de uma vastíssima documentação, criteriosamente referida e circunstanciada, na qual sobejam registros oficiais e extraoficiais que apresentam pessoas negras não em situação de escravidão, mas desfrutando de recursos e confortos materiais, ou ainda ocupando posições de confiança e prestígio na hierarquia da sociedade colonial. Isso bastou para que Freyre se tornasse no bode expiatório de uma intelectualidade ideologicamente engajada que o distinguiu como apologista de uma elite branca e escravocrata, da qual era descendente direto.
Embora possa soar demasiado otimista e, por isso, apologético, o argumento de Freyre revela-se pontual, e menos polêmico, quando entendido em termos de uma democratização relativa e, portanto, real; e não em termos de uma democratização absoluta que, segundo ele, aquém de qualquer idealismo, jamais se realizou plenamente na história humana. Sem pretender aprofundar o mérito do debate, importa aqui admitir que a obra de Freyre é bastante honesta por diagnosticar uma indiferenciação coletiva, tão criativa quanto violenta, onde as franqueadas possibilidades de contato produziram atritos frequentes e antagonismos generalizados.2
E, pela ótica analítica de René Girard, talvez seja possível reelaborar o conceito freyriano de “democratização racial” como a descrição de um estado preponderante de mediação interna, onde a realidade social se desdobra numa intrincada trama de relações interdividuais, que jamais poderia ser apreendida por dicotomias sociologicamente definidas, como branco-negro, inferior-superior, rico-pobre, etc. Não por acaso, o emprego sutil que Freyre fez de títulos dicotômicos (Casa-Grande & SenzalaSobrados e Mocambos etc.) sobreveio apenas para acentuar esta dialética inapreensível e duplamente vinculante, então caracterizada pelo “&”.
Com efeito, é necessário ler mais de um destes livros para perceber a hipótese de “indiferenciação” subjacente a seu conceito de “democratização”, o qual, mal comparando, constitui-se de uma hipótese análoga àquela que Alexis de Tocqueville, sociólogo francês, fez das relações sociais observadas na já institucional democracia norte-americana — conforme ficou demonstrado por Stéphane Vinolo.
Tocqueville constatou que o processo de “democratização” faz com que as posições outrora reservadas aos privilegiados pareçam acessíveis a todos, se não de fato, pelo menos de direito, resultando daí um estado latente de arrivismo conflituoso.3 Freyre detecta os mesmo sintomas desta indiferenciação ao sondar o colapso do patriarcado colonial mediante as novas conjunturas sociais suscitadas pelo transplante da corte portuguesa para os trópicos. Em Casa-Grande & Senzala, essa indiferenciação é apresentada em germe (por isso ele não usa o termo democratização), ainda contida pelas convenções já frouxas do patriarcado, em que a rivalidade era anulada por uma abissal desproporção social, inibindo o desejo de se apropriar ou mesmo de se comparar com modelos tão remotos. Nesta situação, o desejo de imitação ocorreria de forma reverente, não competitiva, entendida apenas como uma cordial admiração.
Falando em cordialidade, seria interessante lembrar que Sergio Buarque de Holanda, ao propor o arquétipo brasileiro do “homem cordial”, também sublinhou certo horror às distâncias, apontando o uso excessivo de diminutivos (inho, inha) como uma tentativa de aproximação, “um desejo de estabelecer intimidade” entre indivíduos socialmente apartados.4 Gilberto Freyre complementa esta observação, mostrando que tais atitudes eram também uma tática de arrivismo que, por seu turno, fundamentava-se num desejo de imitação:
Essa exuberância de diminutivos, que vai até extremos de denguice — certas ternuras de moça, certos modos doces, gestos quase de mulher agradando homem, em torno do branco socialmente dominante. Alguma coisa também do adolescente diante do homem sexual e socialmente maduro, homem completo e triunfante que ele, adolescente, no íntimo quer exceder; que imita, exagerando-lhe os característicos de adulto — a voz grossa, a força, a superioridade intelectual e física; e junto a quem se extrema em agrados e festas, em desejos de intimidade. Socialmente incompleto, o mulato completa-se por este esforço doce, oleoso, um tanto feminino.5
Freyre observa, porém, que essa imitação cautelosa, doce, dengosa, quase feminina, extinguir-se-ia com a degradação do patriarcado, ou seja, quando as oportunidades de mobilidade embotariam os distintivos sociais e nivelariam as aspirações interdividuais, culminando naquele mesmo arrivismo conflituoso observado por Tocqueville.
E essa mobilidade, que no dizer de Freyre não foi só social, mas racial (em virtude da miscigenação), calha precisamente como circunstância de mediação interna dos desejos, criando uma aproximação arriscada entre o sujeito e os seus modelos, de modo que as oportunidades de apropriação, ou tão somente de comparação, ocasionariam uma constante tendência à emulação e ao ressentimento. Neste sentido, Freyre vai além de Tocqueville (aproximando-se ainda mais de Girard) ao constatar não só a indiferenciação vigente, mas também algumas atitudes sadomasoquistas que são próprias de coletividades indiferenciadas.
Em Casa Grande & Senzala, ainda à sombra do patriarcado, ele diz que o sadomasoquismo era doméstico: a sinhá que espezinha cruelmente as mucamas com as quais compete pelo desejo do marido; o sinhozinho que se desforra da astúcia e destreza dos moleques fazendo-os de montaria, sodomizando-os, etc.6Em Sobrados & Mocambos esse sadomasoquismo sai às ruas, se redimensiona, ganhando proporções grupais, manifestando-se nos cortiços, nos colégios internos, nas corporações militares, nas repartições públicas, e até nas irmandades religiosas.7 E contrariando os críticos e censores que o acusavam de escamotear abusos racistas, Freyre mostra neste segundo livro que o racismo puro e simples não seria bastante para explicar, por exemplo, o sadomasoquismo místico que, nos idos de 1830, impeliu fanáticos sertanejos (pertencentes às diversas classes e matrizes raciais) a praticarem rituais de autoimolação com o fim de obter riqueza, poder e até uma transformação fenotípica.8 Esses casos extremos eram tentativas tão óbvias quanto desesperadas de estabelecer alguma “diferenciação”. E o racismo era tão somente um dos muitos obstáculos que, ao invés de refrear, excitava as reciprocidades violentas.
René Girard, em Mentira Romântica e Verdade Romanesca (livro que Freyre leu e comentou entusiasticamente)9, detectou e interpretou de maneira análoga padrões equivalentes de conduta social, como os trotes impiedosos que as pessoas impunham ao doido e vulnerável Dom Quixote; ou o fascínio humilhante que prendia Julien Sorel à soberba residência de la Mole; ou o desprezo que o homem do subsolo buscava nas reuniões com seus compartes, para em seguida despejá-lo sobre a prostituta; e, sobretudo, a sinistra cadeia de retaliações mútuas na qual se imbricavam os habitués dos salões proustianos. Em cada uma destas ocorrências, Girard observa, tal como Freyre, que as relações masoquistas e sádicas medram com a mediação interna que caracteriza os grupos sociais indiferenciados. São faces opostas da mesma moeda: o masoquista precipita-se contra o modelo-obstáculo, que, quanto mais inexpugnável é, mais desejável se torna. O sádico, por sua vez, é o modelo-obstáculo que se assume como ídolo, todavia tornando-se dependente da sujeição idolátrica que o confirma enquanto tal.10
Essa intuição comum acerca da mediação interna evidencia as não poucas afinidades teóricas entre Gilberto Freyre e René Girard. Tanto que, através do conceito de “indiferenciação” de um, é possível esclarecer e revalidar o conceito de “democratização racial” do outro. Por conseguinte, é possível também constatar que, longe de minimizar as mazelas e vicissitudes da sociedade escravocrata, Gilberto Freyre as compreendia e apresentava, em toda sua complexidade, nos aspectos mais banais do cotidiano, desempenhando assim a função do gênio romanesco que se eleva acima do esquematismo romântico das dicotomias. Ou como diz Girard:
O gênio romanesco se eleva acima das oposições geradas pelo desejo metafísico. Ele procura nos mostrar seu caráter ilusório. Ultrapassa as caricaturas rivais do Bem e do Mal que nos propõem as facções. Afirma a identidade dos contrários no âmbito da mediação interna.11

  1. FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal. 49a edição. São Paulo: Global, 2003, p. 33. 
  2. FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mocambos: Decadência do Patriarcado Rural e Desenvolvimento do Urbano. 1a edição. Rio de Janeiro: Editora Record. 1998, pp. 398–400. 
  3. Stéphane Vinolo é doutor em filosofia pela Universidade Michel de Montaigne Bordeaux III. Suas pesquisas procuram determinar o status e o papel do “desconhecimento” (méconaissance) nas teorias da auto-organização do social. (VINOLO, Stéphane. René Girard: Do Mimetismo à Hominização. São Paulo: É Realizações, 2012, pp. 39–43.) 
  4. HOLANDA. Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, pp. 139 a 151. 
  5. FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mocambos: Decadência do Patriarcado Rural e Desenvolvimento do Urbano. 10a edição. Rio de Janeiro: Editora Record. 1998, p. 647. 
  6. FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala: Formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal. 49a edição. São Paulo: Global, 2003, pp. 393–394. 
  7. FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mocambos: Decadência do Patriarcado Rural e Desenvolvimento do Urbano. 10a edição. Rio de Janeiro: Editora Record. 1998, pp. 270–271. 
  8. Ibid. p. 365. 
  9. FREYRE, Gilberto. Como e Porque Sou Escritor. João Pessoa: Departamento Cultural da Universidade da Paraíba, 1965. pp. 24–26. 
  10. GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2009, pp. 205–221. 
  11. Ibid. p. 221. 

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