segunda-feira, 30 de novembro de 2015

João Pereira Coutinho enaltece "A Poeira da Glória", obra de Martim Vasques da Cunha


Em maio passado fiz parte de uma banca de doutorado na USP. A tese era sobre John Milton, o candidato era Martim Vasques da Cunha e na altura disse duas coisas que agora repito.

A primeira era que o autor não tinha apenas escrito uma tese de doutorado em Ética e Filosofia Política. Ele tentava construir uma obra —passo a passo, de agonia em agonia— e a meditação sobre o pensamento político de John Milton era uma continuidade em relação a um livro anterior sobre Thomas More.

Mas o segundo ponto é mais importante que o primeiro (afinal de contas, todos pensam que escrevem uma "obra"): o tema que Vasques da Cunha elegia como objeto de estudo em Milton era o mesmo que ele tratara em Thomas More: o conceito (e a importância) da "liberdade interior".

É provável que a modernidade, e a era das "ideologias" que ela consagrou, tenha esquecido essa categoria ética fundamental. A linguagem política, pelo menos a partir de Maquiavel, passou a tratar dos problemas "exteriores" à vida dos homens. Quais os limites da ação governativa? Quais os direitos que assistem aos governados? O que é um regime legítimo? E o que fazer com um regime ilegítimo?

Maquiavel não foi citado por acaso. O que este monstruoso pensador fez (e "monstruoso" em várias dimensões da palavra) não foi apenas uma cisão entre a moralidade cristã e a moralidade pagã, como disse Isaiah Berlin. Maquiavel foi ainda mais longe —e aqui Quentin Skinner é mais sagaz do que Berlim: ele operou uma cisão dentro da própria moralidade pagã.

Quando o florentino, em "O Príncipe" ou nos "Discursos", faz uma apologia da "virtù" clássica, ele não está a prestar a sua homenagem aos antigos (como Cícero, por exemplo). "Virtù" surge agora desligada das dimensões de honestidade, coragem ou temperança que, apesar de tudo, ainda faziam parte do horizonte dos autores latinos.

Para Maquiavel, "virtù" era agora um instrumento para "mantenere lo Stato" —um instrumento que legitimava a violência, a mentira, a dissimulação. E a "virtude"? E essa "ordem da alma", que é um esforço pré-político e sem a qual a "res publica" será sempre um regime degenerado?

Silêncio. A moderna política converteu o acto de governar em mera técnica —e, no glorioso século 20, numa forma de arte, em que a realidade passou a ser uma espécie de massa informe onde o "artista" faz o que entende (com a vida de milhões de seres humanos, claro).

Pois bem: não há duas sem três. Depois de Thomas More e John Milton, Martim Vasques da Cunha escreve sobre o Brasil através de alguns nomes "canônicos" da sua literatura. É um erro ler "A Poeira da Glória" (título) como uma "inesperada história da literatura brasileira" (subtítulo).

O alvo do autor não é a literatura; é, como sempre, as consequências éticas e políticas que a ausência de "liberdade interior" nos escritores brasileiros provocou no país.

Ou, dito de outra forma: se entendermos como "liberdade interior" a capacidade solitária e inegociável de manter uma ordem espiritual virtuosa, o autor entende que o problema das letras brasileiras —desde os seus "founding fathers"— foi o de ter optado por uma visão simplesmente esteticista, desprezando as dimensões do verdadeiro e do justo.

Isso é visível em autores tão intocáveis como Machado de Assis, Oswald e Mário de Andrade - e até em Guimarães Rosa, um gênio da palavra que se ficou apenas por um "pacto diabólico" com as palavras.

Mas, se assim foi, onde reside o problema do "esteticismo" exclusivo?

Para Martim Vasques da Cunha, esse "esteticismo" exclusivo tem implicações pessoais, sociais e políticas que resultam do abismo entre a realidade e a fantasia que muitos escritores tomaram como realidade.

Esse "baile de máscaras" começa por embotar o próprio autor —e são pungentes, por exemplo, os textos confessionais de Lima Barreto— o seu "ennui" e o seu sentimento de "covardia".

Ou, como Gonzaga de Sá comunica a Machado, haverá maior inferno do que estarmos apenas condenados a "girar em torno" de nós próprios —como se fôssemos a besta na jaula do célebre poema de Rilke?

Mas existem também implicações sociais. Porque um autor pode subestimar o real com o seu próprio real. Infelizmente, o primeiro não desaparece com o segundo. Habitar o mundo é habitar os dilemas morais que a cada momento nos assaltam. A pergunta é óbvia: como lidar com tais desafios quando o único "músculo" que temos é estético e não ético?

A resposta típica do intelectual é o ressentimento: tentar encontrar "lá fora" (nos pares, na "sociedade", até em Deus) o que ele foi incapaz de encontrar "cá dentro".

Finalmente, e ante as limitações de um modo de vida estético, o que sucede com frequência é a "traição" que Julien Benda denunciara: o "fascínio pelo poder" que leva muitos intelectuais a aderir a uma qualquer ideologia, seja de esquerda ou de direita, e que o possa resgatar do seu labirinto interior.

"A poeira da glória" é um tratado de "ética literária". É um livro que nos surpreende, intriga questiona - e algumas dessas inquietações estão no diálogo mais abaixo com o autor.

Mas uma coisa parece-me evidente: não será mais possível pensar as letras no Brasil sem enfrentar a poderosa e fascinante interpretação que Martim Vasques da Cunha publica sobre o assunto.

*

"First things first": como surgiu a ideia de "soprar" a glória de tantas vacas sagradas?

Apesar do livro ter sido escrito durante os últimos dois anos e meio, na verdade ele foi meditado por quatorze anos, desde que comecei a escrever sobre grandes nomes da inteligência brasileira, como Sergio Buarque de Holanda, Joaquim Nabuco e José Guilherme Merquior. Sempre quis escrever um livro que narrasse o drama da alma do Brasil não como um livro didático e sim como se fosse um romance vibrante, um ensaio que levasse ao extremo o próprio gênero literário e que o leitor entendesse que, ao abordar a literatura brasileira, o que estava em jogo era sobretudo um exame de consciência de si mesmo.

Você interpreta a "intelligentsia" brasileira como dominada pelo esteticismo, desprezando as dimensões éticas e transcendentais da vida. Falta explicar o básico: porque motivo há essa preferência pelo esteticismo?

Assim você quer que eu conte a grande surpresa do livro para os leitores (risos)! Sem querer entregar a reviravolta que ocorre no raciocínio apresentado —e quais são as suas consequências para a sociedade brasileira, cujos efeitos sofremos até hoje, principalmente na Era FHC-Lula-Dilma— digo apenas que a resposta à sua questão pode ser encontrada na análise que faço das obras de Guimarães Rosa e de Otto Lara Resende.

Você é capaz de apresentar um exemplo —da literatura brasileira ou universal— em que uma grande obra literária surge despojada de qualquer propósito moral?

Claro que sim —inclusive eu até gosto de muitas delas, mas sempre fico com um pé atrás. Pode-se dizer que são meus "guilty pleasures" [risos]. Na literatura universal, podemos ficar com o simbolismo de Mallarmé, algo maravilhoso em termos estéticos, mas que não possui aquela fagulha que ajuda o sujeito a enfrentar as ambiguidades da vida.

Sua análise de Machado de Assis é duríssima e a acusação é implacável: Machado era um fingidor, que usava o véu estético para esconder quem era. Você não acha que é possível dizer o mesmo sobre Fernando Pessoa?

São casos diferentes. Machado não era apenas um fingidor; era um dissimulado, ou seja, era o típico sujeito que esconde a sua verdadeira mensagem em uma "pose literária" —o fato de que a vida não tem sentido e, se houver, ela é uma palhaçada, incapaz de exibir um único ato de bondade, de inocência ou de esperança— numa obra literária de inegável primor técnico. Já Pessoa era um sujeito que usava aquilo que Mario Vargas Llosa chamava de "a verdade das mentiras" para mostrar não só os tormentos da sua alma, mas também os tormentos de Portugal, que, por sua vez, são os tormentos da própria Europa. Ele teve de usar os seus heterônimos para querer encontrar alguma unidade em sua psique alquebrada, uma psique que ficava cada vez mais frágil justamente porque o "homem-Pessoa" não conseguia encontrar no seu cotidiano a unidade desejada pelo "poeta-Pessoa".

Você deposita uma grande fé no poder da cultura como promotora das virtudes cardeais. Se assim é, e para recordar George Steiner, como explicar que grandes homens cultos —homens que viviam em contacto com obras plenas de Belo, Verdadeiro e Justo— cometessem tantas atrocidades?

Não deposito fé nenhuma no poder da cultura como promotora das virtudes cardeais. A meu ver, uma sociedade só pode ser livre e sadia se optar pela liberdade interior, que está intimamente ligada com a Cultura e não com os ditames do Poder, sendo este último ligado com as instituições democráticas da liberdade exterior. A liberdade interior é aquilo que ocorre dentro do nosso mais íntimo, é a luta que temos para conquistar nossas paixões desgovernadas (cobiça, inveja, ódio, ressentimento) e fortificar nossas virtudes morais, como a justiça, a temperança, a coragem, etc.

E você não encontra isso no Brasil?

O problema da cultura brasileira, em especial a sua literatura, é que ela é fascinada pelo Poder e é incapaz de ajudar o cidadão a formar a sua personalidade no momento em que, para citar Lionel Trilling, ele tem de lidar com o abismo da existência humana, o abismo que nos faz confrontar com o único problema realmente importante: o da morte. A Cultura por si mesma não vale nada; ela só funciona mesmo se a liberdade interior for o seu fundamento primeiro. O único problema disso tudo é que a conquista por esse tipo de liberdade pode durar uma vida inteira.

Você acredita, como Steiner igualmente sugeriu, que o contacto com a grande cultura, longe de nos "humanizar", pode mesmo "desumanizar-nos"?

Sim, claro que acredito nisso. Aliás, cultura em demasiado pode nos levar ao fenômeno do "esnobismo", algo que é comum em todos os intelectuais e bem típico entre a inteligência brasileira, principalmente nos nossos dias, seja no espectro ideológico da esquerda como da direita.

No seu livro existe uma interpretação de obras literárias integrando aspectos biográficos dos autores. Será legítimo fazer isso? No fundo, retorno há velha contenda entre Proust e Sainte-Beuve: não haverá uma diferença entre a biografia e a escrita?

O que eu faço no livro é ler a obra do escritor como manifestação de um drama interior que, igual a um processo alquímico, é transmutado simbolicamente em um romance, um ensaio, um poema ou em um estudo histórico. A ideia de que não deve se relacionar a vida do autor com o que ele escreve é um dos vícios mortais do estudo formalista (e, portanto, esteticista) da literatura. A função do crítico é encontrar a experiência crucial que motivou o livro analisado, coberto por uma manta de símbolos, signos e metáforas, urdido naquela carpintaria literária que só os grandes conseguem fazer - e assim entregá-la ao leitor de uma forma em que ele perceba que a grande obra de arte não é algo impossível de ser compreendida, mas sim como algo que pode ser de extrema valia quando for lidar com os momentos mais imprevisíveis da sua vida.

Se você tivesse que apresentar uma espécie de cânone da literatura brasileira, qual seria?

É claro que todos os autores analisados no meu livro, mesmo os mais criticados, têm uma razão para estarem no "cânone". Se tivesse uma lista alternativa com outros nomes, eis aqui os suspeitos de sempre: Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Francis. Eles devem ser lidos, justamente para que possamos entender o que aconteceu de certo ou errado conosco. O problema é que, hoje em dia, a literatura neste país chegou a um estado miserável porque não sabemos mais o que é um debate, o que é uma discussão verdadeiramente sadia.

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