terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Texto profético de Martim Vasques da Cunha (2002): "A Geração Corrompida", acerca do legado do lulismo para o Brasil

Por Martim Vasques,

"Lembra-te, Senhor, do que nos tem sucedido; considera, e olha para o nosso opróbrio. 
A nossa herança passou a estranhos, e as nossas casas a forasteiros. 
Órfãos somos sem pai, nossas mães são como viuvas. 
A nossa água por dinheiro a bebemos, por preço vem a nossa lenha. 
Os nossos perseguidores estão sobre os nossos pescoços; estamos cansados, e não temos descanso.

"Lamentações de Jeremias", capítulo 5.

Em 2002, escrevi no site "O Indivíduo" as linhas abaixo. Exceto por algumas alterações circunstanciais que fiz agora para esta versão, nunca pensei que elas seriam tão proféticas:

"A partir deste domingo, dia 27 de outubro, provaremos que o Brasil é um país que adora cometer suicídio. Esta é a primeira conclusão que se chega, depois de saber que as últimas pesquisas indicam que Lula pode ser o próximo presidente da República. O suicídio, no caso, não é entregar o país nas mãos de um sujeito nitidamente despreparado e que fala cerca de quatro 'menas' em 2,4 minutos de discurso. É entregá-lo nas mãos do grupo que manipula esta marionete, um grupo que, graças às universidades públicas, aos jornalistas infiltrados em cada redação da mídia nacional e aos intelectuais que disparam as idéias mais absurdas nos ouvidos de estudantes límitrofes, jogaram o Brasil na vala da loucura coletiva.

É isso o que os brasileiros podem esperar se o PT ganhar as eleições: caos e desordem. Não por culpa de Lula ser um semi-analfabeto. Na verdade, é bem capaz que ele seja mais esperto do que todos nós, como provam suas negociatas com Fidel Castro no Foro de São Paulo. O que não lhe falta é determinação: durante quatro fatigantes eleições, Lula lutou tanto pela faixa presidencial que, realmente, como disse um de seus assessores em uma ode que foi publicada no Correio Popular, de Campinas (jornal onde escrevia uns artigos impertinentes, que, vejam só!, eram classificados como 'direitistas' ou 'radicais'), ele se tornou um político profissional, mas não como queria Max Weber, o autor que o fiel servidor de Lula tentou se apoiar para permanecer no mundo do faz-de-conta.

Quem leu Max Weber, na palestra 'A Política Como Vocação', saberia que se Lula fosse o político profissional que o sociólogo alemão defendia, ele teria de aplicar à risca a 'ética da responsabilidade', porque todo mundo já sabe que ele praticou a sua "ética da convicção" ao trocar figurinhas com Fidel Castro e Hugo Chávez. Na verdade, Lula ficou embasbacado pelas suas convicções e se esqueceu da responsabilidade, apesar de pregar nos quatro cantos do país a palavra 'ética'. 

Se fosse um homem realmente responsável, Lula teria que responder, com alguma dignidade, a três perguntas simples: Qual é a relação do PT com as FARCs colombianas, quando é fato notório de que o governo petista do Rio Grande do Sul recebe, com pompa e circunstância, os comandantes desta organização que, não sei se o leitor sabe, tem íntimas ligações com o narcotráfico latino, em especial com um sujeito chamado Fernandinho Beira-Mar? Como explica a admiração que Lula tem pelo ditador Fidel Castro, exibida em fotos e discursos? E, por último, qual é a ligação do PT com o MST, que nunca foi um movimento de protesto pela reforma agrária, mas sim um grupo organizado de guerrilha maoísta?

São três perguntas simples, que até mesmo José Serra precisa da Regina Duarte para apenas insinuar, nunca explicitar essas relações escusas, porque o PSDB já fez a sua 'cristianização', se ocorrer um segundo turno, com o aval do socialista-fabiano FHC. Mas Lula, como dissemos, é esperto demais para dar todas essas respostas, porque elas foram ocultadas displiscentemente por boa parte da mídia que, surpresa das surpresas, reza para que o petista ganhe as eleições. Para muitos sonâmbulos, como são a maioria dos jornalistas brasileiros, a vitória do PT para a presidência seria a prova da rotatividade do poder na democracia, a prova de que o governo neoliberal de FHC se esgotou e é tempo, como diria Leonardo Boff, o ídolo dos hereges da Teologia da Perdição, 'de colher o verdadeiro socialismo e evitar que o Brasil seja o novo quintal dos EUA'.

É um engano primário, que muitos se acostumaram a repetir, como um mantra, talvez para anestesiar o medo de que os novos puritanos serão mais sanguinários do que os aliados de Oliver Cromwell. O problema é que isso não é dito apenas por senis famosos, que os cadernos culturais adoram divulgar como os lumiares da cultura brasileira. São jovens que abusam destes slogans ideológicos, jovens de classe-média, que nunca passaram fome, que nunca souberam o que é a perda da falta de liberdade e que nunca leram um livro de História decente, porque se lessem algum, teriam vergonha em dizer que votarão em Lula.

O PT armou uma bela ratoeira não para os velhos, mas para a próxima geração. A juventude já fez um pacto demoníaco sem saber das condições do contrato, pois seus pais, irmãos, tios e avós assinaram por eles, ao acreditar piamente no deus manco da democracia e no mundo mágico da igualdade perante à lei. Com isso, o sentido de um futuro está acabado, faz parte de um passado que terminará no pó da embriaguez moral. Todos nós somos culpados pela morte espiritual dos jovens que deveriam continuar com nosso trabalho; todos nós somos nossos próprios assassinos. Terminaremos como os bárbaros começaram, ao destruir Alexandria, escolhendo a honra pelo poder, a dignidade pela humilhação.

A pergunta que não quer calar para aqueles que fizeram o seu trabalho de sentinela e que avisaram meio mundo, mas sabem que gritaram para ouvidos moucos, é a seguinte: O que fazer depois que 'a ascensão da lulidade' (esta expressão é cortesia de Bruno Tolentino) tomar o poder oficialmente? Lamento em informar-lhes, mas deveriam ter feito pensado nisso muito antes de imaginar que o molusco sentaria o traseiro na cadeira presidencial. Já conversei com grandes amigos que também lutam o bom combate e avisei-os que, no afã de querer fazer o bem, vamos acabar criando tanto mal quanto os petistas, ainda mais se usarmos os mesmos métodos deles, mesmo de maneira inconsciente ou ingênua. No fim das contas, corremos o perigo de cair na vala da ideologia e criar uma nova fuga da realidade, esquecendo-se dos nossos próximos e lembrando-se apenas dos distantes que, se bobear, sequer prestam atenção ao que fazemos. Infelizmente, esta é a sina de qualquer um que quer cumprir o seu dever moral: tal trabalho será incompreendido numa série de erros, que só prejudicará a nossa vida e a dos outros. O prejuízo é claro: quem avisa amigo é, e se você não escutou, problema seu, meu irmão. O próprio Cristo dizia que não deveria jogar pérolas aos porcos. E estamos fazendo exatamente isso: tornando-nos jogadores profissionais de pérolas aos porcos.

Este engano é fomentado por muitas pessoas que circulam na intelectualidade brasileira - de índole gramisciana - e da qual somos a resistência. Mas como resistir quando os inimigos tomarem o poder? Com armas? Com gritos? Com pauladas? Não, com o espírito, que sopra para onde quer, mas ninguém sabe de onde veio, nem para onde vai. Ele é a única coisa que fica neste mundo de finitude e temos de aprender o seguinte: um dia, Lula e o PT desaparecerão e até mesmo o próprio Brasil irá desaparecer. É como escreveu Bruno Tolentino no soneto 'In Passim', publicado no livro 'O Mundo Como Idéia', o maior livro de poesia já lançado nos últimos cinqüenta anos neste país:

'Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era; é tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas'.

Temos de passar por esta lição - até para amadurecermos como seres humanos. E só podemos fazer isso se ficarmos acima da 'ascensão da lulidade', mesmo que, a partir de agora, só terá futuro neste país quem for um canalha ou um completo ignorante sobre seus próprios passos (bem, isso já é freqüente). Não podemos nos preocupar com vermes porque nosso trabalho é muito mais importante: temos de continuar a herança que nos foi dada - o fato de que, enfim, descobrimos pensadores como Eric Voegelin, Rosenstock-Huessy e Bernard Lonergan (sem falar neste filósofo monumental que é o nosso Mario Ferreira dos Santos); poetas como Bonnefoy e Saint-Jonh Perse; e cientistas políticos como Hans-Hermann Hoppe, Bertrand De Jouvenel e Ludwig Von Mises - sujeitos que, se dependessem da Rive Gauches da vida, nunca ouviríamos nesta terra papagalis. Essa atitude não tem nada a ver em querer ser seguidor ou discípulo de alguém. Tem a ver com dignidade e com nobreza, do fato de perseverar quando tudo parece estar desabando - mesmo neste país ingrato, que trata suas sentinelas como a porca que come os próprios filhos.

Para os brasileiros que escolheram o canceroso imperio da doxa, da opinião alheia que parece ser original, mas não passa de uma colcha de retalhos, a única saída será culpar os outros e recusar a responsabilidade pelo erro que nos acompanha desde o início. Quinze anos de golpes comunistas atrás de golpes comunistas e de uma nação esmigalhada - este será o legado de uma geração corrupta para uma geração corrompida. Quando Thomas Mann escreveu seu romance 'Doutor Fausto' na Segunda Guerra Mundial, ele esperava que o livro servisse de lição para que o nazismo não fosse repetido em nenhum outro lugar da Terra. Sua esperança foi em vão: o Brasil é o novo palco de uma demência que demorará muito tempo para ser purgada do espírito brasileiro. Mas, pelo menos, Mann simbolizou a desgraça alemã na alma de um gênio da música que, por amor à arte, vendia sua alma ao demônio. Aqui temos um espertalhão que brincará de ser um político profissional, manipulado por sujeitos que sabem muito bem que o socialismo é impraticável em qualquer lugar do mundo, exceto para os idiotas úteis que preferem transformar a sociedade, ao invés de saberem onde erraram em suas míseras vidas. Além disso, não há nenhum amor na motivação deles; existe apenas o ódio ao ser humano. E este ódio não permite que eles possam escutar o canto do vento que confirma nosso fim, mas também ilumina a nossa vida, como fala Tolentino no último poema do ciclo 'A Imitação da Música', que fecha 'O Mundo Como Idéia':

'Celebrai-a comigo, ó todos vós
que conheceis, como eu conheço bem,
a rosa em fogo e a terra de ninguém
em que caíram já bilhões de sóis.
Outros virão cair diante de nós,
e esse desastre é doce porque tem
do impulso que nos faz cair também
na escura escadaria... Estamos sós
e todos condenados a perder,
mas celebremos juntos a sentença
e a liberdade em vão do ser que pensa
e repensa essa luz que vai morrer.
Tudo morre e refaz naquela intensa
rosa-múndi agarrada à dor do ser'."

(2002)

Um comentário:

  1. Preclaro amigo, guardai este texto, pois com a lenta (ou nula?) conscientização do nosso povo, carecerás postá-lo de novo futuramente.

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