sábado, 5 de março de 2016

Novo texto meu para o Mídia sem Máscara: "Por que o Estado Islâmico é muito islâmico"


Lewis Carroll colocou na boca de sua mais famosa criação literária, Alice, um diálogo que ele próprio jamais poderia imaginar que seria tão útil para explicar o conflito pelo qual passa a civilização ocidental, mormente no século XX. Certa feita, emAlice no País das Maravilhas, Alice está a conversar com a Rainha Branca sobre a possibilidade de se pensar em coisas impossíveis. A Rainha exorta a Alice que faça isso, ao passo que esta replica que isso já, por si mesmo, seria impossível; não satisfeita, a Rainha diz que é uma besteira e conta que ela própria costumava pensar todos os dias, por meia-hora, antes do café da manhã, sobre coisas impossíveis e com esse exercício conseguia pensar em ao menos 6 delas por dia. Somos diariamente bombardeados com coisas impossíveis (com a ressalva que não em forma de experimento mental, mas em forma de possibilidade ontológica viável): nacional-socialismoque não é socialismo, socialismo que não foi socialismo (!) e outras impossibilidades que muitos tentam vender ao mundo civilizado e que pretendo cobrir nesse artigo e, ainda, estão longe de ser as meras platitudes que aparentam: o Estado Islâmico que não é nem estado nem islâmico e a ideia que o islamismo é uma religião da paz.
Vários pontos mostram o caráter impossível dessas duas arraigadas farsas. A primeira que quero apontar tem relação com a natureza mesma do islam. Ao contrário do cristianismo, essencialmente ocupado do cultivo das almas como sementes que florescerão no paraíso pós-vida, o islamismo apresenta um plano completo de realização na terra: tem direito próprio (a famigerada sharia), economia própria (KUNG, p. 679-692), um extenso quadro de recomendações sobre o trato com os “kafirs” (não-muçulmanos) – que é maior que o quadro com recomendações para a vida do devoto islâmico, recomendações sobre a escovação dental (presentes nas “hadith” – os “ditos” do profeta Maomé) e até sobre como bater em sua mulher propriamente. Tudo isso, conforme quero reforçar, é corolário da própria natureza do islam: o muçulmano está completamente submisso a sua religião. Daí, entre outras coisas, que a integração de imigrantes muçulmanos seja tão complexa em sociedades seculares, cujas constituições laicas são soberanas (ou deveriam ser) frente às preferências islâmicas. Desnecessário dizer que o argumento da minoria radical versus maioria pacífica poderia ser invocado desde já; contudo, ao provar a relação umbilical do islam com as práticas dos radicais (além da miserável falha das “lideranças” islâmicas em condenar as radicalidades, tópico ao qual retornarei), mostro invariavelmente que a “maioria” pacífica o é a despeito do islam e não graças a ele.
É evidente que, mais em alguns momentos históricos que outros, todas as grandes religiões se imiscuíram com o poder político. Contudo, o judaísmo sempre fora um inimigo natural do Leviatã, desde o Egito Antigoe nos preceitos mesmos do cristianismo está a máxima de que os poderes de César e os poderes de Deus estão (e assim devem permanecer) irremediavelmente separados (Mateus 22:21). Ao passo que, como bem mostra Bernard Lewis (um dos maiores especialistas ocidentais em islamismo e autor do clássico e profético artigo “The Roots of Muslim Rage”, de 1990) em seu “A linguagem política do islão” (ed. Colibri, 2001): a doutrina política do islam é o próprio islam; no mundo cristão há as figuras do sacerdotium e doregnum, da igreja e do Estado, separados (que poderiam estar em harmonia, interferindo um na esfera do outro, mas nunca deixando de existir como coisas diferentes), ao passo que que no islam clássico “não existe equivalente para o termo ‘laicidade’, uma expressão quase sem sentido no contexto do islão” (p. 13 et seq.). Isso porque a natureza mesma da religião islâmica sequer concebe idealmente tal separação, tornando evidente que a ideia de se estabelecer um “estado islâmico”, um “califado universal”, tal como propõe o ISIS, está de completo acordo com a ortodoxia islâmica. Mais uma vez: se boa parte dos muçulmanos não deseja a instalação de um califado universal e os imigrantes desejam se integrar nas sociedades para as quais imigram, isso se deve mais a pontos de vista reformados, ou mesmo visões que ignoram a ortodoxia textual islâmica, que a posições bem locadas dentro de sua hermenêutica.
Há ainda um segundo ponto a ser estabelecido: as “autoridades” islâmicas falham ao tentar (quando e se tentam) condenar seus jihadistas radicais. A ideia de uma “autoridade islâmica” (me refiro aqui a autoridade religiosa e não acadêmica) é altamente problemática dentro do islam e em tese qualquer um pode autoproclamar-se autoridade e qualquer contra-autoridade que clame o contrário sobre a anterior não obteve o direito de fazê-lo em nenhum lugar especial que o primeiro não tenha consultado. Os resultados disso não levam apenas a uma verdadeira babel quando se faz necessário condenar os responsáveis pelo ataque à Charlie Hebdo ou ao Estado Islâmico, mas a aberrações como Anjem Choudary, figura desprezível que, conforme dito, se autoproclama “imam”, isto é, um líder religioso do islam. Choudary notabilizou-se na mídia internacional por diversas aparições em que defende o Estado Islâmico, a afirmar que a sharia será implementada na América e defender a morte para o pecado da apostasia. Quem tem autoridade para desautorizá-lo? Ninguém. Muitos outros muçulmanos o desacreditam, mas lhes falta a autoridade para fazê-lo em definitivo.
O que muitas autoridades islâmicas se limitam a fazer é condenar os jihadistas do Estado Islâmicomoralmente como terroristas, mas jamais como hereges, pois compreendem perfeitamente bem o que mostrei no primeiro momento do texto. Essa afirmação recai sobre os ombros dos especialistas da universidade egípcia de Al-Azhar, que num debate decidiram que os responsáveis pela morte de um piloto jordaniano queimado vivo foi um problema apenas porque os jihadistas cometeram o pecado da dessacralização de um corpo humano e por esse ato eles deveriam ser crucificados (!); contudo, se negaram a tratar esses mesmos terroristas como “não-islâmicos”, hereges ou apóstatas, isto é, cujas ações estariam em desacordo com a ortodoxia islâmica.
Como consequência inevitável, apontada pelo também intelectual de direito islâmico Sheik Mohammed Abdullah Nasr, o Estado Islâmico nasce do seio da doutrina islâmica oficial tal como é ensinada pela Universidade de Al-Azhar, é um subproduto das ideias centrais do islamismo e não uma interpretação radical mas sim razoável da “religião da paz”. Nas palavras do próprio Nasr:
Ela não pode [condenar o Estado islâmico como não-islâmico]. O Estado Islâmico é um subproduto daquilo que é programático em Al-Azhar. A universidade de Al-Azhar diz que deve haver um califado e que é uma obrigação do mundo islâmico [criá-lo]. Al-Azhar ensina a lei da apostasia e da morte por apostasia. Al-Azhar é hostil para com as minorias religiosas e recomenda coisas como que não se construa igrejas etc. Al-Azhar defende a instituição da jyzia [cobrança de tributos das minorias religiosas]. Al-Azhar ensina o apedrejamento de pessoas. Poderia Al-Azhar denunciar a si própria como não-islâmica?
Fica evidente, portanto, que conceber o islamismo como uma religião da paz é simplesmente impossível; contudo, o exercício de sair por aí afirmando isso não faz parte do repertório de experimentos mentais inofensivos do desjejum da Rainha Branca. Impossibilidades como essa, propagandeadas em conjunto a “o multiculturalismo é viável” (quem pode autorizar a ideia que a cultura barbárica que produz o Estado Islâmico está em pé de igualdade com tantas outras?) ou “a imigração em massa é uma política legítima e moral” (como crer que o escancaramento das fronteiras do mundo civilizado não representa o convite à entrada de jihadistas?) fazem parte do ferramental politicamente correto usado por nossos “especialistas” e imprensa em suas tentativas histéricas de livrar o islamismo de sua responsabilidade e autoria criadora do Estado Islâmico.
Das impossibilidades mentais à realidade concreta, a verdade é que o islam é um sistema de pensamento completo, que pretende abarcar todas as coisas, uma cosmovisão ou ainda um sistema integral (a palavra “jin” também é usada para descrever isso) cuja consequência inevitável no campo da ação é, inexoravelmente, algo da natureza do Estado Islâmico.


Pequena bibliografia utilizada e recomendada:

KÜNG, Hans. Islão. Lisboa: ed. Edições 70, 2010.

[Este livro traz uma abordagem histórica bastante completa do islam e trata, por exemplo, do empreendimento turco de fazer uma sociedade islâmica, porém “secularizada” e “laica”, embora isso tenha ocorrido, a Turquia segue apresentando índices consideráveis de posturas “radicais” entre sua população].
LEWIS, Bernard. A linguagem política do islão. Lisboa: ed. Colibri, 2001.
                          . Os assassinos: os primórdios do terrorismo no islã. Rio de Janeiro: ed. Jorge Zahar, 2003.
Disponho numa nota de Facebook algumas referências bibliográficas iniciais sobre o tema do totalitarismo islâmico que podem ser úteis ao recém-chegado no assunto: https://goo.gl/feksrG.


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