domingo, 10 de abril de 2016

Uma das caricaturas mais feias da nossa era: a esquerda nacionalista ("o petróleo é nosso") e conspiratória

Por André,

As mesmas figuras que usualmente denunciam o nacionalismo como um movimento fascista ou com tendência à direita e que consideram as denúncias sobre o Foro de São Paulo como sandices conspiratórias do "astrólogo da Virgínia" não hesitam em atribuir algo da dimensão da Lava Jato aos "interesses americanos em privatizar a Petrobrás" e a considerá-la obra de "agentes da CIA".

Leiam esse ótimo texto do Alexandre Versignassi:

Hoje vimos que o pessoal dos Centros Acadêmicos das nossas universidades públicas têm usado seu tempo livre imaginando uma teoria conspiratória, segundo a qual:

1) Nosso Poder Judiciário é um braço de um certo "Departamento Americano dos Estados Unidos".

2) Esse "Departamento" usa juízes brasileiros como fantoches com o objetivo de "entregar a Petrobras para a Shell".

3) Tudo isso é financiado pelo "dinheiro do trabalhador brasileiro, desviado para pagar juros da dívida externa", enriquecendo ainda mais os EUA, e retroalimentando a formação de mais juízes fantoches em território americano. Solução: deixar de pagar a dívida, naturalmente.

Enquanto isso, no mundo real:

- Obama cede a pressões de ambientalistas e bane a exploração de petróleo na costa do Atlântico.
- O Model 3, novo carro elétrico da Tesla, recebe 300 mil encomendas e segue firme para se tornar o automóvel mais vendido dos EUA - talvez do mundo, sem jamais usar uma gota de petróleo.
- O preço do barril segue em baixa, quebrando a indústria petroleira dos EUA, que só nos últimos anos, graças ao xisto, tinha aumentado sua produção em 4 milhões de barris por dia (duas Petrobras).
- As quatro maiores empresas do mundo não são petroleiras, nem americanas. São quatro bancos chineses, credores da dívida externa americana.
- A dívida externa do Brasil é de US$ 330 bilhões. A dívida que o resto do mundo tem com o Brasil é de US$ 375 bilhões. Estamos no azul desde o boom das commodities, e somos o quinto maior credor dos EUA. Só eles nos devem US$ 225 bilhões, e pagam os juros bonitinho, como todos os nossos outros devedores. 
- O grosso da dívida brasileira para é interna. Em real, moeda que, olha só, nós mesmos produzimos. E os credores dessa dívida somos todos nós que temos conta em banco, já que a maior parte do dinheiro dos bancos está aplicada em títulos da dívida pública. Se o governo deixar de pagar essa dívida, o real deixa de existir como moeda. Converte-se em papel colorido com desenhos de gosto duvidoso. E quando vc quiser comprar pão, vai ter que dar para o padeiro algo que ele aceite como moeda de troca (talvez um abraço, uma palavra amiga, ou uma nota de dólar).

O mundo real, enfim, é um lugar onde uma Petrobras é um ativo altamente arriscado, que "a Shell" ou qq petroleira saudável do mundo não pegaria nem de graça, já que quem pegar "de graça" ganha uma dívida de US$ 120 bilhões (uma Volkswagen inteira) para pagar. 
O mundo real é um lugar que está deixando o petróleo para trás.
O mundo real é um lugar onde a maior dívida externa do mundo é a americana
O mundo real é um lugar onde calote é punido com descrédito. E só nos damos ao luxo de ter uma moeda nacional pq ainda existe a crença de que, um dia, o governo tratará sua dívida interna alguma responsabilidade, e que não vai haver calote, nem que um hipopótamo assuma a presidência. 
O mundo real, em suma, é um lugar mais complexo que o das teorias infantilóides. Mas também é um lugar bem mais difícil de entender.
Se vc, cara do CA, não quer usar seu amplo tempo livre para entender como o mundo realmente funciona, beleza. Só não perca tempo tentando me ensinar.

ADENDO contido nos comentários:

A parte mais anelídea da declaração que motivou essa resposta nem entrou aqui, por ser o lugar comum mais surrado: defender a "expropriação dos meios de produção de riqueza". A minha "riqueza" eu produzo com um laptop. Boa parte das empresas mais valiosas do mundo (Google, Amazon, Facebook), em última instância, também. E todas começaram com uma ou duas pessoas na frente de um laptop (R$ 500 no Mercado Livre). Vamos estatizar os laptops, então? Quando Marx escreveu isso, "os meios de produção de riqueza" eram basicamente minas de carvão, teares a vapor e navios, coisas inacessíveis mesmo no século 19. O que nem ele nem ninguém imaginava é que a revolução da "tomada dos meios de produção pelo proletariado" aconteceria via tecnologia e liberdade para empreender, não com tiro, porrada, bomba, campo de concentração e ditadura, como sonharam, e realizaram, tantos de seus seguidores pelo mundo.

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