domingo, 5 de junho de 2016

Pequena ode a Gilberto Freyre

Por Daniel Fernandes,


Antes de completar 18 anos, Gilberto Freyre já havia lido Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes, Hobbes, Spinoza, Hume, Kant, Hegel, Comte, Schopenhauer, Nietzsche, William James, Spencer, Henry Bergson, Marx, J.S. Mill, Taine, Dante, Cervantes, John Bunyan, Pascal, La Fontaine, Shakespeare, John Milton, Defoe, Goethe, Vítor Hugo, Baudelaire, Antero de Quental, Dickens,Renan, Anatole France, Tolstói, Machado de Assis, Camões e Eça de Queirós (quase todo). Movia-se com desembaraço, através da leitura, na língua portuguesa, inglesa, francesa, espanhola, italiana e na própria língua latina. Sabia alguma coisa de grego. Devorador de livros desde os 13 anos de idade, o menino pagava o preço de uma vida de estudos no Brasil: 

"Com quem posso conversar em torno de minhas leituras de filósofos e de poetas e escritores mais profundos? Com ninguém. Esta é que é a verdade. [...] Dos estudantes mais velhos do que eu, com nenhum posso ir muito longe em conversas sobre tais assuntos." (Giberto Freyre, Tempo morto e outros tempos). 

Já em 1919, quando estudava na Universidade de Baylor, conheceu um estudante brasileiro que chegava naquelas bandas. Lê o episódio:

"Um estudante recém-chegado é o baiano Landulfo Alves. Excelente pessoa. Mas impregnado como ele só de preconceitos brasileiros. Inclusive o da doutorice." Landulfo logo lhe perguntou: "Vai se doutorar em quê, Gilberto?" - "Disse-lhe que não me preocupo com isso. O que me interessa é estudar, adquirir saber, aperfeiçoar conhecimentos de acordo com minhas tendências." O estudante brasileiro ficou escandalizado, assombrado: "Arregalou os olhos como se estivesse diante de um maluco." Então, o jovem Gilberto rematou com chave de ouro: "Olha, estou disposto a instruir-me o máximo, mas sem profissionalizar-se de acordo com as convenções em vigor. Quero criar meu próprio caminho. Fingindo, até, quando voltar ao Brasil, não ser homem formado." 

Terminada as matérias na Universidade de Baylor, seguiu para a Universidade de Columbia, mas sempre sem dar importância aos graus acadêmicos: "Preciso dar o exemplo de desprezar a mania pelos graus acadêmicos que torna o Brasil tão ridículo." Na época, Gilberto tinha dois apelidos: "Genius" e "Wisdom". Sua vida, como açucenas, já era um feixe de prenúncios. A marca distintiva do gênio já estava nele.

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