quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Entrevista sobre o ensino da Filosofia

Por André,

Em entrevista ao 303 Online, o Prof. Mestre em Filosofia e tradutor, André Assi Barreto, conta sua experiência em sala de aula e fala como geralmente é a relação dos alunos com a Filosofia.

“Muitos têm dificuldade em conceber ideias abstratas”

Por Giselle F. Pacheco (graduanda em Letras),



303- Qual a dificuldade em ensinar Filosofia? 


A- Bem, as dificuldades relacionadas ao ensino da Filosofia são, muitas vezes e em certo sentido, penso eu, as mesmas relacionadas ao ensino da Matemática. Tentarei explicar minha posição sobre isso: a Matemática lida com objetos abstratos (número, figura geométrica, etc.), e muitos têm dificuldade em conceber ideias abstratas. Muitas vezes as pessoas falam “Ah, quando eu vou usar isso na minha vida?” ou “Me dê um exemplo concreto”, justamente porque precisam de algo concreto para entender o conceito abstrato que está por trás da coisa. E com a Filosofia penso que seja da mesma maneira, porque ela trabalha com conceitos abstratos, como, por exemplo, a Verdade, o Belo, o Bom... Então é difícil você tratar desses assuntos sem que as pessoas achem que você está falando abobrinha, quando na verdade você está falando de conceitos que não existem no mundo concreto. Ou seja, a barreira a ser transgredida no ensino da Filosofia é a mesma a ser transgredida no ensino da Matemática. 


303- Como você faz para contornar isso?

A- Essa situação, na verdade, é bem difícil de ser contornada, não existe um método ou uma maneira única. Normalmente, procuro explicar com bastante calma, se o problema for o conceito abstrato, embora não seja correto, tento trazer exemplos concretos do dia-a-dia, exemplos da vida cotidiana etc. Assim como na Matemática, quando o sujeito pergunta o porquê dele aprender aquilo e dizemos que ele precisa saber as quatro operações para não ser enganado na hora do troco, para ensinar ética, por exemplo, podemos pensar: dar ou não dar esmola para um mendigo? É uma situação concreta de um problema ético. Portanto, é válido tentar explicar isso com situações do cotidiano ou com exemplos extraídos de livros e filmes. Eu, particularmente, não gosto desse método, faço por necessidade porque a alternativa a isso é a pessoa não entender nada, mas eu penso que deveríamos compreender o conceito abstrato como conceito abstrato, o exemplo prático é lucro. 


303- Como abordar temas políticos em sala de aula?

A- Bem, essa questão de temas políticos é bastante complicada, até porque estamos vivendo o debate do Escola sem Partido, que consiste em o professor abordar temas políticos expondo os dois lados da moeda e nunca tomando partido de um lado ou de outro em termos de ideologia etc. Nesse ponto eu concordo totalmente com o Escola sem Partido, pois eu acredito que se formos, por exemplo, expor o Marx, e ele tem de ser exposto, temos que expor todas as críticas ao Marx que vieram depois dele, que não foram poucas e nem ruins (pelo contrário, foram boas e até agora não chegou a meu conhecimento nenhuma réplica marxista consistente dessas objeções). Temos boas críticas colocadas a respeito do Marxismo e minhas experiências me dizem que elas não são apresentadas no cotidiano da sala de aula (só por “malucos” autodidatas que nem eu e outra meia dúzia). Então você tem toda a apresentação dos conceitos de Marx em História, Filosofia, Sociologia, mas não tem nenhum contraponto e nenhum pensador que tenha dito o contrário do que o Marx disse e que tenha criticado e refutado suas ideias. Ou seja, todo tema político deveria ser exposto, como chamamos na Filosofia, de maneira “dialética”. Você expõe a ideia e sua “anti-ideia”, o que a chamamos de tese e antítese. Se não for desse jeito, você acaba vendendo para o aluno que aquela é a única alternativa disponível. Um exemplo clássico disso, e que não poderia ser mais mentiroso, é que o socialismo é único modelo econômico possível, sendo que o capitalismo também é um modelo econômico possível e disponível (o único, penso eu e todo mundo que entenda a definição de “mercado”). 


303- Qual a importância desses conhecimentos na formação do aluno? 

A- As pessoas acham que podem ficar alheias à Filosofia, que podem viver uma vida sem ter que enfrentar questões postas ou resolvidas pela Filosofia e isso não é verdadeiro. Todo mundo vai ter algumas ideias que são fruto de alguns sistemas de pensamentos, a questão é: você vai ter essas ideias porque as analisou e escolheu as melhores ou você vai ter essas ideias porque você as absorveu da esfera cultural inconscientemente? Ou seja, você vai ter ideias filosóficas, você vai ser um empirista ou racionalista em maior ou menor medida, você vai ter que tomar lados em política. A Filosofia é a “ciência” (usar esse termo é polêmico, mas vale aqui numa exposição curta) que vai te oferecer as ferramentas adequadas para digerir as noções, ideias e conceitos que absorve dessa “atmosfera cultural” a que me referi, e ela é a única que pode e deve fazer isso.



A- Considerações finais 

Minha experiência me mostra que o brasileiro tem alguns problemas com sua forma de adquirir conhecimento. O raciocínio é: ir à escola para saber alguma coisa, para ter algum emprego para ganhar dinheiro. Eu acho essa associação totalmente falsa. Você pode ser muito sábio e não ter dinheiro e isso não é necessariamente ruim. Eu costumo usar a seguinte metáfora: o brasileiro tem com o conhecimento a mesma relação que há entre a árvore de natal e a estrela que vai na ponta. Quando você monta uma árvore de natal, a última coisa que você coloca é a estrela. O brasileiro com o conhecimento é a mesma coisa: primeiro ele quer trabalhar, ganhar dinheiro, construir família, etc., etc., e por último ele vai buscar saber ou conhecer algo (talvez isso tenha a ver com o “imperativo estético” que forma o caráter nacional, conforme afirmam alguns autores como Mario Vieira de Mello e Martim Vasques da Cunha, mas esse assunto é demasiado longo). Isso é totalmente equivocado. Eu penso que todo mundo deveria ter uma cultura geral, independentemente da sua área, cada um com sua especialidade, é óbvio, porém, um engenheiro deve saber quando a primeira guerra mundial começou e terminou e o cara da Filosofia tem que saber o que está acontecendo na Física hoje. Isso não acontece em lugar nenhum, mas no Brasil é mais problemático em especial porque o brasileiro concebe o conhecimento de uma maneira muito instrumental, sempre se trata de conhecer para alguma coisa, seja ganhar dinheiro ou posar de sabichão, mas nunca o conhecimento pelo conhecimento, que é como a Filosofia sempre concebeu as coisas e como os bons intelectuais concebem as coisas. Essa é, penso eu, uma das lições que a Filosofia pode oferecer. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

1. Seja polido;

2. Preze pela ortografia e gramática da sua língua-mãe.