sábado, 1 de outubro de 2016

O crepúsculo da classe política

Por André para o jornal Dextra,




Mais um fenômeno passa despercebido bem diante dos olhos das supostas mentes treinadas e pagas para a análise política, de jornalistas a cientistas políticos: a classe política está em crise. Para fins didáticos, separemos tanto os sinais desse fenômeno quanto os fatores que levaram a isso.

Os intelectuais de boteco não entendem a ascensão de um Donald Trump, o carisma de um Nigel Farage, a popularidade crescente do deputado Jair Bolsonaro ou a chegada ao poder de Viktor Orban na Hungria e de Beata Szydło na Polônia. Foram igualmente incapazes de prever o “Brexit”, a saída do Reino Unido da União Europeia, e duplamente incapazes de explicar por que isso ocorreu (o establishment “especialista” – Gugas Chacras e Caios Blinders – ainda nem se conformaram pessoalmente com o ocorrido, imaginemos se chegaram perto de uma explicação). Guardadas as devidas proporções, até mesmo a candidatura do empresário João Dória à prefeitura de São Paulo mostra sinal do que aqui diagnosticamos.

Por meses alguns jornalistas americanos fizeram troça da possibilidade do magnata Donald Trump ser o republicano a concorrer pela Casa Branca (1% eram as chances dadas pela CNN ao candidato - http://goo.gl/fvITBB) e eis que o próprio acaba de se consolidar como candidato. Os analistas não entendem por que Trump chegou lá e tampouco exatamente qual é seu apelo.

A explicação escapa aos especialistas que são, eles próprios, entusiastas da classe política, porque tanto são incapazes de compreender o fenômeno quanto não é de seu interesse fazê-lo. Contudo, para os que ainda têm os pés no solo firme da realidade, a explicação é relativamente simples: as pessoas estão cansadas de políticos engomadinhos, que sigam o script politicamente correto, com discursos insossos e completamente desconectados da realidade concreta que as pessoas comuns vivenciam. Quando qualquer discurso minimamente atinado aos anseios mais urgentes e elementares das pessoas aparece, elas enxergam um fio de esperança na desacreditada (classe) política que, na verdade, é antipolítica (o próprio establishment e grupos de interesse republicanos ainda não se conformaram com a candidatura de Trump).

Os analistas, produtos ou ainda membros de uma academia ainda mais desligada realidade, não conseguem entender como um empresário pode gozar da preferência de parcelas tão gordas do eleitorado (Trump está tecnicamente empatado nas pesquisas nacionais com Hillary, política de longa carreira; o UKIP, partido do também ex-empresário Nigel Farage foi o terceiro mais votado nas últimas eleições gerais britânicas, assustando o tradicional Partido Trabalhista e deixando para trás os Liberal-Democratas). Um outro exemplo notório vale ser mencionado: pelos idos das mesmas eleições gerais do Reino Unido, vencidas por David Cameron em 2015, o candidato trabalhista Ed Milliband tropeçou durante uma participação numa entrevista e isso, por si só, foi razão para um punhado de manchetes na imprensa, com ares da inquietação “como é possível um membro da classe política TROPEÇAR?”. Os políticos se distanciaram tanto da realidade comum que não se submetem mais nem mesmo às leis da física. Isso tudo ao passo que um de seus concorrentes, o já citado Nigel Farage, é o arquétipo do homem comum: fumante, com diversas fotos públicas bebendo cervejas nos tradicionais pubs ingleses, já sobreviveu à queda de um helicóptero e a um câncer nos testículos: mais humano que isso impossível. Enquanto isso, Milliband perdeu a habilidade de comer um sanduíche em público (http://goo.gl/UiJdv9).

Malgrado qualquer quê populista nas falas de Donald Trump, pesquisas e mais pesquisas mostram que as pessoas comuns têm as mesmas preocupações que são motivo de discursos e propostas do dono da Trump Tower. Inclusive as parcelas da população que supostamente são alvo de seu ataque: nada causa mais incômodo num imigrante legal que um imigrante ilegal gozando dos mesmos direitos que ele e ninguém em sã consciência – o que não é caso da classe política e tampouco dos intelectuais – pode culpá-los.

Some-se a isso o já criticado pelo conservador Edmund Burke “intelectual de cátedra” que deseja reformar o mundo a partir de seu castelo elaborando um tratado de filosofia política de oitocentas páginas e se encontra perdido em proporção semelhante ao grau de declínio em que se encontra a classe política. A junção do político de carreira com o intelectual isolado em sua catacumba mental criou a atmosfera de total e completa histeria em que nos encontramos (estamos na era do nacional-socialismo que não é socialismo e do estado islâmico que não é islâmico): todos eles creem no que dizem e não no que enxergam, como bem diagnosticou o dr. Andrew Lobaczewski em seu Ponerologia – psicopatas no poder, e quando são esmagados pelo peso da realidade que enxergam se comportam como formiguinhas atrapalhadas por um obstáculo rumo ao formigueiro.

¹É mestre em Filosofia pela USP, professor, tradutor e assessor editorial. Publica regularmente em www.andreassibarreto.org.

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